Domingo, 28 de outubro de 2012, 20h13
ENTREVISTA
Artista analisa criação de novo Prêmio

Lorenzo Falcão

Gervane de Paula teve atuação incisiva na criação do Prêmio

Gervane de Paula, artista com experiência também como produtor e gestor cultural, teve participação incisiva na criação e no desenvolvimento desta nova premiação que chega para contemplar as artes da região Centro Oeste do Brasil. Confira na entrevista abaixo o que o artista tem a dizer sobre essa novidade já implantada que abrange Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Brasília.


Vou começar pedindo pra você falar do surgimento da ideia de criar esse Prêmio. Quando e como pintou o embrião que deflagrou a iniciativa?
Como todos os que trabalham com artes visuais em Mato Grosso de forma intensa, sabem que o Salão Jovem Arte deixou de ser realizado há mais de quatro anos, sem dúvida passou a fazer falta. Embora o seu formato já estava ultrapassado a tempos. A ideia era reeditar o Salão, o edital inicial era para isso, mas o orçamento foi insuficiente para tanto. Um salão mesmo regional igual o Jovem Arte exige não só mais recursos como também um novo formato. Acredito que a ideia do Prêmio surgiu dessas circunstâncias e indagações. O Prêmio Jovem Arte é uma mostra coletiva que reúne oito jovens artistas do Centro Oeste brasileiro. Inaugurando em Cuiabá um método de formação de acervo público. O que se considerou de extrema importância nessa confluência de estados da nossa região por meio da iniciativa deste certame foi a união desses importantes centros de criação e formação artísticas, cujos expoentes e reais valores culturais e simbólicos, nem sempre dialogam ou vislumbram a concreta possibilidade de um profícuo intercâmbio.

O Salão Jovem Arte, ao longo de mais de 20 anos, foi o principal evento das artes plásticas de MT. Nas suas últimas edições, muitos artistas sugeriam um novo formato para ele. O Prêmio Jovem Arte pode ser entendido como o antigo Salão repaginado?
De forma alguma, o Prêmio apesar de lembrar o Salão no título foi pensado e organizado por produtores independentes tem outro formato e outros objetivos. O Salão Jovem Arte é uma ação do estado, e entendemos que é o estado que deve realizá-lo ou ressuscitá-lo. Aliás, a Secretaria de Estado de Cultura já está formatando um Salão de Artes para Mato Grosso, que deve ser apresentado à classe artística em breve. Quiçá venha com um formato dos grandes salões que acontecem no Brasil.

A abertura de um evento desse porte para todas as unidades federativas do Centro Oeste (MT, MS, GO e DF) já vinha sendo reivindicada por alguns militantes da plástica mato-grossense. Outros não pensam assim, pois acham que artistas de MT que ainda não se consagraram e disputam acirradamente por espaço, estarão banidos do processo. Fale sobre isso.
Não estamos mais no momento de formação de artistas, “arte aqui é mato” e é preciso distinguir se a erva é boa ou daninha. Os artistas mato-grossenses precisam dialogar com a arte contemporânea, grande parte deles não consegue expor suas obras fora do estado, e nem participar de mostras e salões de caráter nacional. Mesmo correndo esse risco de estar banido do processo é preciso confrontar a produção local com a produção nacional.
Não se trata de uma mera competição entre aceitos, recusados e premiados, mas de um intercâmbio artístico/ cultural, um momento de troca, conhecimento e experiências. Só a volta de um salão ou um prêmio não é o suficiente para renovar as artes visuais no estado. Os jovens artistas contemporâneos brasileiros, quase todos, vêm de escolas de arte e universidades, porque a arte na atualidade exige novas mídias, informações, tecnologias e conhecimentos que estão dentro de salas, laboratórios, não apenas em ateliês livres. Mas é bom lembrar que nenhuma universidade irá formar artistas, mas só a intuição do autodidata também não basta na atualidade.

O novo Prêmio traz entre seus principais objetivos o foco em artistas cujos trabalhos estejam dialogando com as artes contemporâneas. Em níveis local, nacional e internacional, o que mais ouço falar é dessa tal “arte contemporânea”. Dê o seu conceito de arte contemporânea aos nossos leitores e opine sobre essa supervalorização, salvo engano, que ela anda tendo.
A arte contemporânea é uma festa, o barato é estar dentro dela, ela está em constante processo de mutação, transmitindo consciência e renovação.
A arte contemporânea é soberana na atualidade, está em pleno desenvolvimento utiliza materiais e suportes cada vez mais inusitados, é considerada um fenômeno do final do século passado e não adianta fechar os olhos nem torcer o nariz, nem tampouco desconstruir Duchamps. Este fenômeno é responsável pelo vigor e expansão das artes visuais, está aí para ser desvendado no decorrer do século XXI.


Você é um dos artistas plásticos do Estado que está na estrada há 3 décadas, talvez mais do que isso. Tem acompanhado todo o processo do desenvolvimento da força pictórica regional. Quando a arte de MT se sobressai nacional e/ou internacionalmente, fica a impressão de que ela vai muito bem. Tenho a impressão de que isso, em outras épocas, já aconteceu numa escala maior. Será que é só impressão minha, ou a plástica local já teve períodos mais expressivos? Dê a sua opinião.
Eu acho que a boa arte mato-grossense tem espaço em qualquer período. A primeira geração de pintores mato-grossense da qual fazem parte Humberto Espíndola, João Sebastião, Clovis Irigaray e Dalva de Barros, são exemplos de artistas pioneiros que souberam romper o isolamento entre a província e a metrópole sem precisar sair de suas regiões. A segunda geração da qual faço parte ao lado de Adir Sodré, Benedito Nunes, Carlos Lopes, Marcio Aurelio, Jonas Barros e outros, acredito que também tenham a mesma força e representatividade.
Acontece que no final dos anos 80 a arte passa por uma significativa transformação no campo da expressão, caracterizada pela experimentação de linguagens, materiais, tecnologia e abolição da materialidade em benefício do conceito e da idéia.
A ausência de mecanismos e políticas públicas de intercâmbio cultural, escolas de arte tem contribuído para o artista das regiões periféricas do Brasil ficarem parcialmente fora do contexto nacional.






Fonte: Tyrannus Melancholicus
Visite o website: https://tyrannusmelancholicus.com.br/