VERSO
Manuela Margarido


Paisagem


Entardecer... capim nas costas
do negro reluzente
a caminho do terreiro.
Papagaios cinzentos
explodem na crista das palmeiras
e entrecruzam-se no sonho da minha infância,
na porcelana azulada das ostras.
Alto sonho, alto
como o coqueiro na borda do mar
com os seus frutos dourados e duros
como pedras oclusas
oscilando no ventre do tornado,
sulcando o céu com o seu penacho
doido.
No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.
E uma figura de linhas agrestes
se apodera do tempo e da palavra.

 

*Poema reproduzido do site http://www.antoniomiranda.com.br/

manuela margarido

Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido (1925-2007), ou simplesmente Manuela Margarido, nasceu na Ilha do Príncipe, que compõe o arquipélago de São Tomé e Príncipe. Em Lisboa, onde viveu parte da sua vida, foi uma hábil divulgadora da cultura de seu país. Através da sua poesia, denunciou a repressão colonialista e a miséria em que viviam os são-tomenses nas roças do café e do cacau. Estudou ciências religiosas, sociologia, etnologia e cinema na Sorbonne de Paris, onde esteve exilada. Foi embaixadora do seu país em Bruxelas e junto de várias organizações internacionais

 

 

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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