Quinta, 07 de outubro de 2021, 21h47
ARTIGO
Breve notícia sobre um centenário*

Sebastião Carlos**

aml miolo

O lema da Academia foi sugerido por D. Aquino Corrêa e se trata de uma expressão em latim retirada do Eclesiastes: pulchritudinis studium habentes, que significa "estudiosos da beleza"

A Academia Mato-Grossense de Letras está completando cem anos. Ao lado do Instituto Histórico e Geográfico, são as duas mais antigas instituições culturais de Mato Grosso. Trata-se, sem dúvida, de fato bem raro na nossa história regional. No entanto, com justeza podemos dizer que a história da AML passa de um século pois, embora sucedânea do Centro Matogrossense de Letras, a sua história começa um pouco antes, já que podemos considera-la descendente direta da primeira entidade cultural aqui surgida, a Associação Literária Cuiabana, organizada em 1884 pelo então governante da Província, B arão de Batovi.

    Na segunda década do século passado, alguns intelectuais e políticos dos mais ilustres e importantes em Mato Grosso vinham se reunindo para organizarem uma entidade que congregasse as pessoas interessadas em literatura e história. Os mais entusiasmados com a ideia e que, por assim dizer, deram a partida, foram Carlos Gomes Borralho, Cesário da Silva Prado, Estevão de Mendonça, Francisco de Aquino Corrêa [bispo e ex Presidente do Estado], Franklin Cassiano da Silva, João Barbosa de Faria, João Cunha, José Barnabé de Mesquita [presidente do Tribunal de Justiça], Lamartine Ferreira Mendes, Miguel Carmo de Oliveira Mello, Philog&oci rc;nio de Paula Corr& ecirc;a e Virgilio Corrêa Filho. Elaboraram o estatuto e convidaram outros doze para constituírem o que viria a ser o Centro Mattogrossense de Letras [na grafia da época]. No dia 7 de agosto de 1921 foi eleita a primeira diretoria, tendo como presidente José de Mesquita e D. Aquino Corrêa o presidente de honra. Dois anos antes, a maioria deles havia participado da fundação do Instituto Histórico de Mato Grosso. Em 1932, numa sessão realizada no dia 15 de agosto, foi aprovada a transformação do Centro Matogrossense de Letras em Academia Matogrossense de Letras, sendo instalada solenemente no dia 7 do mês seguinte. Oito anos depois, para se adequar à determinação da Federação das Academias, a qual havia se filiado, a AML aprovou novo estatuto e aumentou o número de Cadeiras para 30. Em 1944, novamente atendendo à orientaçã o da Federaç& atilde;o das Academias visando a adequação ao padrão da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1896, foram criadas mais dez vagas.

    O lema da Academia foi sugerido por D. Aquino Corrêa e se trata de uma expressão em latim retirada do Eclesiastes: pulchritudinis studium habentes, que significa ‘estudiosos da beleza’. Entre os seus objetivos primaciais, formulados por seus fundadores, está o culto ao idioma pátrio, o estudo das literaturas nacional e regional, o debate dos problemas de interesse cultural que preocupam o mundo contemporâneo, além do congraçamento e a aproximação entre os envolvidos nas atividades da cultura regional e nacional. Busca ainda a estimular e a divulgar a produção cultural no Estado, em colaboração com os poderes es tatais e com os organismo s de cultura e de educação públicos, cuja ação na difusão cultural é uma determinação constitucional, promover o resgate da memória cultural e histórica mato-grossense presentes no registro literário do Estado, afim de serem preservados como legado às presentes e futuras gerações, igualmente difundir, através de cursos e publicações, a cultura e a literatura do Estado.

    A AML não recebe qualquer ajuda governamental de forma regular e sistemática. Esporadicamente, com grande esforço de sua direção existe um ou outro aporte financeiro. Nem sempre foi assim, porém. Em seus primórdios havia uma pequena dotação orçamentária anual, vinda do governo de D. Aquino Corrêa, reafirmada em 1930, e depois reassegurada pela Constituinte de 1947. No entanto, foi necessário um esforço conjunto de um grupo de deputados estaduais, tendo à frente o tamb&ea cute;m acadêmico Gervásio Leite, p ara que, em 15 de junho de 1948, o Governo do Estado finalmente fizesse vigorar o dispositivo constitucional. A lei, porém, nunca foi integralmente cumprida e, anos depois, por volta de 1966/1967, acabou por ser revogada. Desde então, ambas as entidades que se abrigam na Casa Barão de Melgaço, vivem de pires nas mãos não somente para publicar suas revistas e livros, mas igualmente para assegurar a própria sobrevivência física. Vive-se das parcas contribuições dos associados.

    Nesses cem anos a Academia teve, incluindo os atuais ocupantes, 192 membros. Entre estes estiveram, além de membros da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto dos Advogados Brasileiros, governadores, vice-governadores, senadores, deputados estaduais e federais, ministros, marechal e generais, vários presidentes do Tribunal de Justiça e da OAB/MT. Importante dizer que alguns daqueles que ocuparam cargos político s, já eram antes membros da instituição. Embora seja r elativamente pequena a presença do sexo feminino em sua história, apenas dezoito, vale frisar no entanto, que a AML é uma das primeiras no Brasil a ter admitido uma mulher em seus quadros. Já em seu início, em 17 de julho de 1921, por unanimidade foi aprovado o nome da professora Ana Luiza da Silva Prado. Assim, a Academia Mato-Grossense se anteciparia em mais de meio século à Academia Brasileira de Letras, que só viria a eleger uma mulher – Rachel de Queiroz – em 4 de agosto de 1977. 

 

*O presente artigo terá sequência a ser publicada neste site

**Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor. Entre outros livros, publicou: "Viagem ao Extremo Oeste – Desbravadores", "Aventureiros e Cientistas nos caminhos de Mato Grosso", e "A Natureza pede Socorro". Ocupa a Cadeira 40 da Academia Mato-grossense de Letras e foi presidente da instituição por três mandatos

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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