Segunda, 04 de outubro de 2021, 18h16
LETRAS DELAS
Ah, o amor!

Luiz Renato Souza Pinto*

 

 

 

                                            Algum dia é preciso encontrar William Shakespeare,pode crer.
Qualquer sujeito civilizado, mesmo que não pense
 muito ou tenha pouco interesse nas coisas da arte, de
repente tropeça em alguma coisa dele. Nem que
seja a mitologia de, por exemplo "Romeu e Julieta",
uma das mais comoventes histórias de amor de
toda a longa trajetória da humanidade neste planeta.

 

Para tudo: essa história vem de outro mundo, de outras eras, mas sopra pelos ouvidos bem pra lá das Minas Gerais. É a história de alguns manos e de uma mina. Falo aqui à vera, vem de Verona, da Itália da Renascença, da terra da bota que invade o Mediterrâneo e cospe a Sicília nesse mar de hum mil e quinhentos anos [atrás]  da graça de Deus pai, todo poderoso.com. 

O tipo de letra é Cecília, quero dizer, PMN Caecilia. Pode parar que o spoiler quem vai dar agora sou eu. Atualizações no campo amoroso cairão automaticamente feito máscaras na sociedade contemporânea para a qual não há vacina que chegue. Embarque encerrado: partiu. A história se apresenta como tecnotragédia, como aventura tecnoliterária e dialoga intensamente com o e-mail de Caminha. Outra obra diretamente teletransportada do século XVI. 

                                                      ERRO MEU: apaixonar-me pela Julieta errada!

Ela diz que está “Pensando no mundo de hoje e nos tempos remotos”; alô, eu digo a ela, mas remoto tem sido o ensino nos dias de hoje, talquei? E ela insiste e teima em falar de um não território das redes sociais. Cara: como assim um não território, careço de explicações; ao que me responde com “Suas configurações de Romeu e Julieta serão atualizadas”. Parece até já vir com trilha sonora: “Julieta ta, tá me chamando”, mas com outra batida: “Tum tis tum”, que reverbera o tempo todo em uma balada tecno iluminando a cena do balcão (cê tá pensando que eu sou Alok, bicho?).

O preço da vacina não cabe no poema; a tristeza da garota, a arrogância de seu pai, também não cabem no poema. No poema não cabem a curiosidade da mucama, quero dizer aquela espécie de aia; também não cabe. Mas não é poema, é tragédia. E a cena do balcão se confunde com as cenas do Galpão. Do grupo que encenou essa peça em cima e no entorno de uma Veraneio, sabe o que é isso? E você me vem com uma variante, outra variante, ah, Covid derrubando tantas máscaras. 

O anel que tu me deste, lembra? Não era nada parecido com uma joia; era vidro, e se quebrou. Quem não brincou de passa anel em sua infância? Partiu-se em mil pedaços e até mesmo a Gloria Pires, a comentarista política de televisão, teve que opinar. Ou seria a Rutinha, ou mesmo a Raquel, qualquer uma das filhas de Labão; quem sabe a Maria de Fátima. De onde tanta fake, esse Frei em quarentena, sem tomar vacina, toda a vã filosofia de Will, o Shakespir, como acentua Maria Valéria. De que adianta saber que há mais coisas entre o céu e a terra se eu só vejo o beco? Mas não falo de poesia, e sim de cenas e atos, dramaturgia. 

Ficam as dicas de quem traduziu “o tempo, as maneiras, a linguagem, os recursos do tempo presente, como os personagens poderiam dizer e fazer as coisas hoje e assim por diante”. Por vezes me imaginei em um filme com Danni de Vitto (com quem ficam os amigos?) “E toda a família e os amigos têm de odiar junto”, para, na mesma página me encontrar com Werther em “reuniões de pais e nas feiras de ciências”. Mas a figura do Ben, o que tem a ver com isso? O Ben dez? Vida que segue, eu sei, hastag pra todo lado: buguei, mano!

Saltar o muro da casa, subir até a janela, que loucura. Pirei com as rubricas, isso sim, em caixa alta e naquele rosa bebê, ou seria pink? Tudo isso pra no final ela bater uma pancada bem à vera, tá ligado?

A leitura atenta desta tecnotragédia pode trazer à tona além de muitas questões de linguagem e gêneros textuais, uma série de reflexões sobre informação, mídia, comportamento e juventude para os dias de hoje. Que seja frutífero. 

O papo fica reto com esse tipo de consideração, fala sério! Os caras (Marcelo e Marconi) são Drummond, de Itabira, mano e a mina (Ana Elisa Ribeiro), mais o povo da editora RHJ inovaram na parada, véi. O livro é top, na moral. Fica a dica de leitura pra vocês. As orelhas do book são gigante, mano. No terceiro parágrafo da primeira diz assim, ó:

 Cada elemento de Romieta e Julieu foi muito bem pensado. As imagens, letras, signos, rabiscos formam um ruído interessante para a narrativa e fazem desta adaptação um divertido exercício de transcriação, uma verdadeira máquina do tempo, toda feita de modulações                 semióticas e linguísticas que nos ajudam a experimentar a linguagem, a literatura e a vida.

A editora tem ainda o cuidado de bater pro leitor a real sobre a produção do livro. E lá pelo final, depois do depois da explicação meio desculpa da autora, depois do como quiser de Maria Valéria Rezende ainda vem outra explicação necessária onde se lê que

Muita coisa pode ser pensada daí, é nesse ponto que ocorre a catarse, nosso alívio e nossa angústia. Por isso também foi que a autora deste remix do século XXI decidiu deixar que desse tudo errado. Mas, por alguns instantes, ela chegou a pensar em mudar tudo!

Para falar de catarse precisaria de mais tempo e espaço, cara, é coisa que vem da Grécia antiga, da poética do Aristóteles. Vamos combinar que já seria outra viagem, pode crê? Se liga nos stories e só vem....

 

1Folhateen. São Paulo: 14 de Agosto de 2000. e-mail: fischerl@uol.com.br

 

REFERÊNCIA

RIBEIRO, Ana Elisa. Romieta e Julieu. Tecnotragédia amorosa. Belo Horizonte: RHJ, 2021. 

adamo alighieri

ana elisa

Ana Elisa Ribeiro nasceu em Belo Horizonte (MG). É autora de livros de crônica, conto, poesia e infantojuvenis, com obras em semifinais ou finais de prêmios como Portugal Telecom (Oceanos) e Jabuti. Tem colunas fixas em sites e jornais brasileiros, poemas traduzidos e participação em eventos literários no Brasil e no exterior. É professora da rede federal e pesquisadora da edição. É formada em Letras na Universidade Federal de Minas Gerais, onde também fez mestrado em Estudos Linguísticos (cognição, linguagem e cultura) e doutorado em Linguística Aplicada (linguagem e tecnologia)

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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