Segunda, 30 de agosto de 2021, 19h00
ROMANCE/TRECHO
"Damas da Lua"*

Jokha Alharthi

"Zarifa se esticou, apertou os olhos e disse: “Não, meu bem, mas sabe que o velho só come o pão da Zarifa, e o provérbio certo é: ‘Ama a quem tem amor por você e se afasta de quem não te quer por perto’. De qualquer forma, consigo ver que ninguém veio ainda para que lhe seja servido o café. Mayya, passe a pequena para benzê-la”. “Ela precisa mamar agora”, Sálima retrucou. Zarifa balançou os ombros num gesto dançante e disse: “O peixe é bom, aumenta o leite”. “Mas não para quem acabou de dar à luz, Zarrúf.” E rindo alto Zarifa continuou: “O ditado diz: ‘Faça a vontade do doente, pois Deus é quem cura’. Mas para que peixe salgado, se meu amo Abdallah já lhe trouxe quarenta galinhas? Bonzinho que é, até para a víbora do Sanjar trouxe galinhas vivas, manteiga e mel também, e mais, ela não quer que eu cozinhe para ela. Como diz o ditado: ‘Quando o burro fica saciado, começa a dar chute’. Ela se esqueceu de que, antes de se casar com meu filho, nem túnica ela tinha para cobrir o corpo. Que dó de você, Sanjar, meu filho, tinha que acabar junto com aquela víbora”. “Vai, minha filha, senta para amamentar sua filha”, disse Sálima irritada. Mayya se ajeitou quando Zarifa comentou: “Aquela víbora que meu filho tem amamenta deitada como as cadelas e deu o nome de Racha para sua filha. O coitado do meu filho não disse nada e o que ia dizer? Ela o picaria se fizesse isso, em vez de dar nomes como Habiba, Mariam, Fátima, dão esses nomes como Mirvat, Rabáb, Nabáb, Chakáb, Dadáb, ou sei lá que diabos mais. Que mundo é esse! E você, Mayya, que nome deu a sua filha?”.

“London”, disse sem levantar os olhos do rostinho da criancinha que sugava seu seio.

Zarifa abaixou a cabeça, calou-se e em seguida mexeu seu corpo enorme e disse: “É melhor eu ir preparar o almoço para você”. "

 

*Reproduzido do livro "Damas da Lua" (Editora Moinhos), tradução de Safa Jubran 

divulgação

jokha

Jokha Alharthi é natural de Omã, país do Oriente Médio. É professora universitária especialista em Poesia Árabe Clássica, autora de dez livros e a primeira escritora de seu país natal a ser traduzida para o inglês. "Damas da Lua" consagra a autora como primeira mulher de língua árabe a vencer o prestigioso Man Booker International Prize, chega ao Brasil com tradução direta do original, de Safa Jubran, pela Editora Moinhos. Antes do grande prêmio britânico, ela já havia levado o Sahikh Zayed, importante premiação do mundo árabe, e o Prêmio Sultan Qaboos de Cultura, Arte e Literatura, promovido pela Unesco


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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