Segunda, 19 de julho de 2021, 17h22
LETRAS DELAS
Bem pra lá de Araçatuba*

Luiz Renato Souza Pinto

Em setembro de 2019 mediei uma atividade do projeto “Arte da Palavra”, no cinema do SESC Arsenal, com os escritores Fabrício Marques e Ivana Arruda Leite. Na oportunidade a audiência pode ouvir esses dois autores em seus projetos de criação, cotidiano de leitor e relações com a crítica, dentre outras frentes que envolvem o trabalho da escrita. Como de costume, ao me preparar para mediação busco sempre a leitura de alguma obra dos autores. Comprei de Ivana seu “Ao homem que não me quis”, livro de contos que tem como último do sumário o homônimo que dá nome ao livro. São 18 narrativas, sendo 15 de curta duração (mini contos) e os últimos três que cobram mais fôlego do leitor. 

Em “O sabonete das estrelas” pareço dialogar com Ana Paula Maia em seu “Enterre seus mortos”, ao me deparar com a primeira oração do conto: “Ainda era noite quando meu pai pegava o caminhão e passava pelos açougues da cidade catando ossos”. (p. 9). Lembro-me de Edgar Wilson. Mas a pegada de Ivana é bem humorada, como se percebe ao final: “o sabonete das estrelas era feito de osso sujo de sangue e tinha um fedor desgraçado. De boi. De vaca.” (p. 9). 

O projeto de escrita atravessa a própria ficção, como se depreende de “A lua-de-mel da bela adormecida”. O (mini) conto de apenas três linhas cito abaixo por não haver como destacar algo que não seja o todo: “Na manhã seguinte, a alegria de Amelinha foi descobrir que o fuso da roca da Bela Adormecida não serve só pra furar o dedo e fazer sangrar a princesinha. Ele também serve pra fiar.” (p. 11). Amelinha é diminutivo de Amélia – a mulher de verdade, para quem, além do trabalho (fiar) existe também o registro de suas atividades cotidianas (fiar) – fiar (com) fiar. 

A licenciosidade (poética) vai surgindo nos meandros do livro, até o Xeque-Mate: “Quem me vê com esta coroa na cabeça e este manto cravejado de brilhantes sobre as costas é incapaz de me imaginar nua embaixo do corpo de Felipe, (...) Eu entendo. Não deve ser fácil comer uma rainha.” (p. 12). 

Nos últimos três contos, mais caudalosos e espaçados, que seguem da página 25 a 97, Lê-se, entre outras passagens que “Da difícil vida das rêmoras” capto instantâneos de alguns desencontros amorosos. De “Mulher do povo”, a rotina de uma segunda a sexta-feira em que se entra em contato com contrastes do universo feminino: “Eu e  minha filha crescemos sem pai. Deve ser hereditária essa tara por matar maridos”. (p. 44). 

Para a narradora, a salvação são os livros, para a filha, os homens. Para Monteiro Lobato o país era feito de homens e livros: pronto. A internação para uma cirurgia coloca a narradora em contato com mulheres do povo, em uma enfermaria. Lembro-me das postagens de Ivana em que sempre recebe convidados e convidadas para uma comidinha em sua casa. Sob a desculpa, naturalmente de falar de livros, literatura e coisas afins. 

Neste livro as referências à comida também se fazem presentes. “Depois da sopa rala, a alegria de ver minha mãe e minha filha chegando de braços dados.” (p. 53). .E mais outra: “Na tela da tevê, a apresentadora prepara um bobó de camarão. Um dia eu ainda faço essa receita sem lembrar onde aprendi”. (p. 58). 

E o “grand finale” da narrativa começa a se desenhar na antepenúltima página do conto. “Depois de uma semana cinza, o sol parecia uma medalha de ouro no céu azul. Um sol de véspera de final de Copa do Mundo pra comemorar minha recuperação.” (p. 63). A recepção em casa, dividindo a atenção do cão que a aguarda se traduz em uma expressão singela: “- Patada de amor não dói”. (p. 64). 

A maneira com a qual se encerra o conto mexe com o imaginário brasileiro, no que diz respeito ao espaço que o futebol ocupa quando se fala em identidade nacional: “O juiz apita. Lá fora, uma rajada de rojões estoura no céu da cidade. Brasil e Alemanha já estão no gramado. Vai começar a partida”. (p. 65). Todos reconhecem que a história não poderia avançar para além do pontapé inicial dessa partida. 

O conto que dá título ao livro: “Ao homem que não me quis”, enfeixa o espírito que se depreende da leitura do livro todo. “Por falta do que fazer é comum colegas de trabalho apaixonarem-se entre si”. (p. 68). Confesso que me identifico com algumas características do funcionalismo público apontadas no texto. “As repartições públicas estão repletas de ex-rebeldes, ex-hippies e ex-guerrilheiros”. (p. 69). 

O que me parece curioso é a sucessão de homens que passam pela cabeça da narradora. “Eu deitei de costas, Lúcio em cima de mim”. (p. 72). “Celso abriu um conhaque e me serviu”. (p. 76). “Meu casamento com Rui foi a mais bonita história que escrevi”. (p. 78). “No dia seguinte acordei com Celso fazendo cócegas na minha barriga”. (p. 78). “... é Leandro que m me tira do abismo.”. (p. 79). “Charles era o nome do garoto”. (p. 80). “Certa manhã encontrei Thomás, um velho amigo, na fila do banco, e ele me contou que era diretor de uma grande editora.” (p. 86). 

Ivana faz de suas narradoras pessoas com as quais se deleita algum tipo de iguaria com pessoas com as quais gostavam de dividir alguma coisa: “Jantamos um robalo ao molho de alcaparras”. (p. 75). Sem esquecermo-nos da unidade que o livro de contos ainda pode trazer, mesmo que não necessariamente: “Tivesse eu feito da minha vida algo que preste e não precisaria de história alguma”. (p. 87). 

Lembro agora daquela música que tem tocado muito ultimamente: “mais vale um joelho ralado do que um coração partido”. Luana não conseguiu viver dividida entre Mathias e Pituca, mas esta história é muito triste para finalizar um livro. Talvez por isso esteja metida depois de doze pequenas narrativas e antes dos contos mais encorpados. Talvez seja isso, mas não tenho bem essa certeza. Pode ser que sim. 


REFERÊNCIA 
LEITE, Ivana Arruda. Ao homem que não me quis. Rio de Janeiro: Agir, 2005

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

ivana leite

Ivana Arruda Leite nasceu em 1951 na cidade de Araçatuba (SP). Em sua obra predominam os contos, microcontos e a literatura infantil, com incursões pelo romance. A temática da vida urbana perpassa a obra de Ivana, por meio da perspectiva individual de suas protagonistas. Sua formação e habilidades a caracterizam como contista, editora, romancista, socióloga e tradutora. Está presente em mais de 30 antologias e já lançou cerca de 20 livros, entre eles, este aqui resenhado, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2006. Seus contos já foram publicados aqui no tyrannus


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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