VERSO
Natasha Tinet


Monika e o futuro*

 

no coração do King Kong bate
uma mariposa seduzida pelas luzes de Manhatan
sua boneca platinada vestida em cetim não grita mamãe
sente no estômago o aperto e soluça gim-tônica
chorando lágrimas de fosfeno, reflexos de neons retrofuturistas

[ela não sabe que na verdade é uma androide com memórias implantadas
metade hollywood, metade discovery channel.]

Você sabia?
Que um gato quando anda
pousa a pata traseira na memória
do passo que a pata dianteira criou?

É assim o futuro.

Monika comprou um casaco novo com o dinheiro do aluguel
acende seu cigarro no cigarro do amante e encara a câmera
como Antoine Doinel na praia, mas o filme não acaba
ainda escorre pela boca como saquê e baba
no Japão o feijão é doce, as mulheres são infiéis
em pensamento, respiram mal pelos septos estreitos
carregam nas bolsas dos olhos
grampos de cabelo
papéis de bala
planos de fuga
e desejos.

 

*Poema reproduzido da Revista Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/

 

natasha tinet

Natasha Tinet nasceu em 1988 na cidade de Palmeira dos Índios, Alagoas. É graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas e vive em Curitiba (PR) desde 2014. Vem atuando como escritora e ilustradora. É integrante do grupo de escrita Membrana e coeditora da "Totem & Pagu - Firrrrma de Poesia". Seu livro de estreia, "Veludo Violento" (2019), conquistou o segundo lugar no orêmio da Fundação Biblioteca Nacional


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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