VERSO
Elke Erb


Queixa*

 

Ter se sentido visto
como povo vadio dissoluto.

Não ter se sentido respeitado.
Não poder ter sido de igual para igual.

Não advir em troca de vontade força compreensão
transformação liberdade.

Ter sido conduzido à reserva
com operação externa de substituição (de fato sórdido):

Atitude suave, consideração zelosa,
atenciosa (sem reciprocidade),

Recorreram a pretextos na tentativa
de calmar a inquietação.

Como anseio por amabilidade!
Não, eu ansiava, quando ansiava por algo.

Como eu desejo, como eu queria
receber um trago à boca,

esse tom sincero nessa voz,
esses semblantes, comoventes ...

Pasto da fome! Todo o caráter é assim,
tudo próprio das propriedades,

(e ativo: mentiras de mentirarias).
Por cima dança uma chama de interesse,

que não vê outra saída, senão: indulgência.


*Reproduzido do site http://www.mallarmargens.com/ , tradução de Maria Aparecida Barbosa

wikimedia commons

elke erb

A alemã Elke Erb nasceu em 1938. É escritora, poeta, editora e tradutora, vencedora de vários prêmios internacionais e reconhecida como uma das figuras mais importantes da literatura contemporânea da Alemanha. Em 2020 ela faturou o Prêmio Georg Büchner e, na justificativa para sua condecoração, os organizadores do certame destacaram que Elke consegue realizar a liberdade e a agilidade dos pensamentos na linguagem, desafiando, distendendo, precisando e, sim, até corrigindo. Para essa persistente `iluminista´ a poesia é uma forma política e altamente vívida de conhecimento

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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