Segunda, 15 de março de 2021, 17h29
PROSA
Por quem me trocaram?*

Eduardo Coletto Furlan

Por quem que me trocaram quando estava a meditar por aqui? Na praia à noite tudo é violência e calmaria, esta foi a primeira voz que me atingiu ao despertar lentamente de um sono sem sonhos, não podia saber se vinha do indecifrável deus à frente ou da abominável criatura atrás. A segunda voz me pareceu ser possível observá-la nitidamente, flutuava tão sem direção quanto a primeira, girava de forma inexplicável como se estivesse dançando em provocações, mas de súbito parou, traçou uma linha tênue que se dividiu em outras duas luzes radiantes, tudo na natureza é ser ou vontade de ser — quanta bobagem, pensei com grande clareza, mas aos poucos, enquanto as luzes se desvaneciam, com elas escurecia também minha razão, percebi sem notar que, ao duvidar, eu já estava sendo aquele que duvida, como uma imagem irreal refletida, cristalizada na vontade do tempo. Já não as escuto mais, agora sou apenas confusão quieta, e tudo isso me cansa, pois tudo é muito e nós não sabemos de nada. Adormeço sem dormir à espera dos sinos do luto, da violência dos vivos e da calmaria dos mortos, aos poucos um despertar de razão ilumina minha angústia, penso com grande entusiasmo, que, entre o ser e a vontade de ser, flutua uma hesitação e definitivamente aquele que duvida deve pairar na hesitação, na antecâmara do nascimento, na estranheza de tudo o que existe, de tudo o que é e quer ser, sempre estrangeiro de si, mas meu desassossego não tem fim, pois ainda sinto que a dúvida não pode transcender absolutamente nada, ela apenas parece revestir tudo o que é em incógnitas que no fundo contrastam entre si e dão silhuetas ao incompreensível. Acordo lentamente, sei que despertei, mas ainda durmo, como um sonho que é uma sombra de sonhar, vejo uma terceira voz a dançar inquieta, perco-me duplo de ser eu ou aquela voz, e num grande cansaço danço numa ânsia passiva que me estreita e me acomoda. Agora vejo a voz distante a rodopiar pela abominável criatura atrás, dá duas voltas e mergulha no indecifrável deus à frente, hesita por instantes e salta de súbito em minha direção — atravessaria minha alma como um risco de fogo na noite, me salvaria, mas já não estou mais ali, por quem que me trocaram quando estava a meditar por aqui?

 

*Conto reproduzido da Revista Cândido (https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/)

bpp-cândido

eduardo furlan

Eduardo Coletto Furlan nasceu em Cachoeira do Sul (RS), em 1992. É escritor, artesão e roteirista. Vive no Rio de Janeiro desde 2017, onde trilha caminhos pelas Letras, Antropologia e Cinema de forma independente e institucional através da PUC-Rio. O conto reproduzido acima integra o livro "Azul, Violeta", segundo colocado no concurso promovido pela Biblioteca Pública do Paraná e está disponível gratuitamente em e-book

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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