Segunda, 08 de março de 2021, 17h24
LETRAS DELAS
Ave, Maria (José)*

Luiz Renato Souza Pinto

A leitura de Viviane Santiago começou pelo mais recente título, “As meninas de vinte e dois”, obra em que surgem à luz do contemporâneo as travessuras daquele ano em que se abalaram as estruturas da pauliceia desvairada, sobretudo no que diz respeito ao enfant terrible, Oswald de Andrade. A mesma relação com o factual, e sua desconstrução, mesmo que em conluio com o que a formação jornalística da escritora traz sub-repticiamente, produz uma literatura que cumpre um papel importante no momento em que formar leitores se torna tarefa mais do que árdua, necessária.

Jornalista acostumada com a escrita, Viviane transforma essa obra em interessante ferramenta paradidática; a linguagem acessível permite a um grupo enorme de estudantes do ensino médio e, talvez, eu ousaria aqui, até mesmo do nono ano, quando se começa a pensar a criatividade linguística, a influência das vanguardas europeias na cultura brasileira, dentre outras contribuições definitivas para a arte nacional. Quase a título de posfácio, Viviane Santiago experimenta comentários complementares à obra ao indagar-se:

Quanto tempo dura o eterno?
Ouvi dizer que pouco mais de um segundo...

Escrever sobre as meninas de 22 foi como conectar-me com minhas
antepassadas; com o sangue em tinta que corre afoito nas veias de toda
artista, tenha ela nascido há duzentos anos ou nas décadas atuais.

Sou herdeira da transgressão. A arte em sua melhor forma, a forma da
revolução.

Ser mulher e artista. As duas palavras em composição, por si só nomeiam
uma conflagração sem limitações de tempo e espaço. (SANTIAGO, 2020, p.
108).

Este ser mulher, o ser autora, é um ente produtor de sentidos e o faz com a delicadeza do formão que entalha em cada leitor uma oferenda. Em “As dez Marias”, a mistura de Maria Leopoldina e o cenário em que o infidelíssimo D. Pedro I surge fazem com que outras mulheres unidas pela dor com tal Maria emerjam com seus relatos e impropérios de toda a sorte. “Os homens se casam com as santas e pensam incansavelmente nas outras” (SANTIAGO, 2019, p. 25). O vai e vem narrativo mescla universos paralelos do século dezenove, vinte e adentra ao vinte e um.

Estive na cidade de Cachoeira, na Bahia, recentemente e nos passeios pela região central da cidade pude perceber a presença de dois ícones feministas neste Brasil de antanho: Ana Nery e Maria Quitéria. A primeira de lá mesmo e a outra, da região de Feira de Santana, unidas pelo amor e dedicação à pátria. Desta, espécie de Mulan, Diadorim, Viviane recobra em seu livro, como uma das Marias. “[...] cortei meus cabelos, usei das roupas de meu cunhado para travestir-me de homem. Alistei-me na manhã do mesmo dia. Agora, Maria Quitéria passava a se chamar Soldado Medeiros” (idem, p. 35).

Mas não quero falar de vultos históricos, e sim, das anônimas que se viram para criar os filhos com dificuldades. Mesmo que se percebam em verdadeiras sinucas-debico armadas pelo destino.

Aos dezesseis, foi preso por tráfico de drogas.
Aos vinte e um, mais uma prisão, estelionato.
Vinte e sete, sequestro à mão armada.

Dois tiros no peito.
Assalto a banco.
(idem, p. 109).

Ave Marias, todas cheias de graça. Cada qual com o seu valor. Cada qual simbolizando um determinado conceito, transplantado para as demais. As que escrevem, as que leem, as que apenas vivem. “- Esta é Maria Laura, minha esposa”. (p. 143). As que estão pelos cantos da casa, pelas igrejas, pelos espaços de poder. As Aparecidas e as desaparecidas. Aquelas com quem “Um dia a gente se encontra” (p. 184).


REFERÊNCIAS

SANTIAGO, Viviane Ferreira. As dez Marias. São Paulo: Patuá, 2019.
SANTIAGO, Viviane Ferreira. As meninas de vinte e dois. Maiores que o mundo. São Paulo: Patuá, 2020.

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

viviane miolo

Viviane Ferreira Santiago nasceu em Belo Horizonte (MG) e vive em São Paulo há 25 anos. É formada em jornalismo e Letras, com especialização em Literatura Brasileira. Já conquistou algumas premiações e publicou livros como "A Biblioteca de Bia" (2020), "Pó" (2020), "A Linha Amarela do Metrô" (Telucazu Edições, 2018), "As Dez Marias" (Patuá, 2019) e "As meninas de vinte dois - maiores que o mundo" (Patuá, 2020), alvo da resenha de Luiz Renato Souza Pinto



 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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