Segunda, 01 de março de 2021, 16h27
CRÔNICA
Gatinha exibicionista

lorenzo falcão

É só pelo fato curioso que aconteceu aqui em casa e eu senti muita vontade de contar pra todo mundo. Uma croniqueta. Pagu é uma gatinha de rua que adotei há seis meses. Chegou, baixou e anda saravando.

Com um certo pesar, levei-a para ser castrada na semana passada. Voltou pra casa p. da vida, brava que só ela. Pelo desconforto da cirurgia e talvez saiba que foi privada dos prazeres sexuais. E mais um agravante: a roupinha pós-cirúrgica que está usando, para evitar que fique futucando os pontos na barriga. Claro que ela odeia o traje verde, que a deixa com pinta de torcedora do "parmeira".

Nos primeiros dias após a castração ficou meio morgadaça, mas já no terceiro dia recuperou sua rotina saspeca. Como não consegue subir pelas paredes que nem as lagartixas, sobe naquilo que é possível. Nos móveis e nas árvores do nosso ambiente doméstico. 

O velho oiti que fica em frente da casa é o seu cume preferido. Dali, ganha o muro alto, onde fica de butuca. E do muro, já tem mais de mês que fez uma nova descoberta: salta para o telhado da casa e faz suas investigações ao longo desse espaço mais perto do céu.

Mas tem um problema. Como é tradicional aos filhotes felinos subir em locais de onde não conseguem descer, o telhado ainda é um local sem retorno, se não houver uma ajuda pra descer. Aí fica naquela miação/encheção de saco. Às vezes intercedo e ajudo. Às vezes deixo-a de molho, pra que aprenda a se virar.

Desta feita optei por deixá-la de molho, o que motivou uma reação inusitada. Ela tinha se entelhadado no meio da manhã e já era umas três da tarde. Ainda estava no "local do crime", e nada satisfeita. Queria descer e o barulho da ração caindo nos pratos felinos vai botando-a louca à medida que o tempo passa.

Eis que saio da casa pra checar se está tudo bem no telhado e, quem sabe, até ajudá-la a descer. Ao pé da viga que sustenta o telhado na frente da casa, para o meu completo espanto... a roupinha da torcida organizada do "parmeira" é o que vejo. E penso/digo: "sua cretina". 

Minha cabeça ficou encafifada. A roupinha tem zíper e velcro e não é nada fácil de ser retirada. Muito menos de ser vestida, ainda mais quando a "modelo" não deseja. E eu compreendo. Ora, francamente... Vestir animais, pelo menos no meu entender, não tem nada a ver. E friso que só vesti a Pagu por recomendação veterinária. A outra opção seria o colar elizabetano, que considero muito mais cruel. E deixa os bichanos com um visual assim meio extraterrestre. 

 Fico pensando que Pagu, assim como a talentosa artista e musa do modernismo brasileiro, veio a este mundo e à minha casa, pra bagunçar o coreto, ao melhor estilo "tem gato na tuba": Pompompom pompororopompom.

E assim foi a sessão "Quando o striptease começou" lá em casa. A revoltosa pouca vergonha que teve seu início no telhado, chegou ao fim numa complexa mão de obra: colocar de volta na Pagu o uniforme da torcida do "parmeira". 

Pompompom pompororopompom...

pagu

Pagu refestelada no jardim de inverno da casa e providenciando alguns danos no mundo vegetal


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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