VERSO
Três poemas evocando a passagem de ano

Gullar, Quintana e Cecília

 Nesta edição, a última de 2020, excepcionalmente, o tyrannus publica poemas, no espaço mais alto do site, onde costumeiramente são publicados textos em prosa...

 

 

Ano Novo 

 

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

de Ferreira Gullar (1930-2016)

 

Esperança

 

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

de Mário Quintana (1906-1994)

 

Renova-te

 

Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo

de Cecília Meireles (1901-1964)

 

curicacas

Duas curicacas preparadas pra alçar voo em direção ao ano que chega. Foto feita em três de julho, ao entardecer, no cerrado próxima da minha casa


Fonte: Tyrannus Melancholicus
Visite o website: https://tyrannusmelancholicus.com.br/