CRÔNICA

Historinhas em tempo de lua



cueto miolo

No deserto, "a Floresta Amazônica não pega fogo porque é úmida", afirma o líder da nação que, por causa do conjunto da obra destrutiva de seu governo, não foi a conferência do clima

Aqui quem fala é Pluct Plact, o extraterrestre, entre um deslocamento e outro. Aproveito o raio de luar poderoso do eclipse que, sei, você observa ensandecida pela fresta da janela da cela onde (faz tempo, querida cronista), está voluntariamente recolhida do outro lado do túnel. O luar nos re-une.

O tempo nesse mundo que você habita e onde pluctplacteio está cada vez mais veloz. O que não faz sobrar tempo para coisas básicas como ter tempo de “deslocamento”. É isso, esse quesito tornou-se dispensável. O ser humano acredita que pode ser e estar em qualquer lugar, só trocando a roupinha do avatar e seus poderes. Tipo game. É só mudar de sala. Tudo ao mesmo tempo. Para o bem e para o mal.

Da Itália para Glasgow e, depois, Emirados Árabes. Os chefes do mundo se encontram em diferentes eventos. G20, Cop26 e EXPODubai atraem as atenções. Incluindo a dos observadores intergalácticos que andam por aqui. A quem tento traduzir o significado de tantas pantomimas, sempre com os mesmos atores.

Começo pelo X da questão para o universo. A COP26, as urgentíssimas mudanças de paradigmas e novos conceitos, necessários para evitar (se ainda for possível) o colapso do planeta Terra anunciado. Com você, em nossas noites de luar, aprendi duas expressões que caem como uma luva e definem a conclusão das negociações: “cara de paisagem” e “fazer a egípcia”.

Enquanto cientistas, jovens, ativistas, minorias, ecologistas e humanos preocupados com o presente e o futuro se manifestam nos fóruns apontando a seriedade e urgência da crise, os responsáveis por grande parte dessa situação apresentam seus esforços tecnológicos para minimizar os efeitos dos danos causados pela devastação planetária. Ficaram conhecidos como “chapas verdes”. No caso do Brasil entre suas representações sequer houve diálogo. Após o emocionante discurso da indígena Txai Surui na abertura da conferência sobraram intimidações, desinformações e fakenews contra a brasileira que falou na cerimônia.

O terceiro grupo, o dos que realmente decidem, os governantes, não se abalou nem o com o discurso do ministro de quase tudo, Simon Kofe, da ilha de Tuvalu que fica no meio do Oceano Pacífico e corre o risco de desaparecer. Ele falou num púlpito com água até os joelhos. Ao final promessas e algumas indicações, nenhuma imediata, além de mais um empurrão intencional em questões graves, como a dos combustíveis fósseis.

Querida cronista lamento informar que as coisas andam difíceis e não é só na questão do clima. A inflação galopa, a economia patina desgovernada, o dólar sobe, o mercado geme e o povo quer é festa!

Todos precisam de um refresco e facilitam. Apesar dos sinais que avisam ao Brasil que a pandemia não acabou. Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro que você habita, anda fantasiado de Dudu, o boa praça, incentivando o “liberou geral” e sambando, sem máscara, na multidão. O povo, cansado, segue o flautista de Hamerlin tocando bumbo pela passarela da inconsequência.

A (má) fama fica com o carnaval, criminalizado nos trends das redes sociais. No eterno Fla x Flu, a festa vira “coisa de esquerdista” na cruzada eleitoral. Seria apenas essa a questão, não fossem os turistas e seus dólares maravilhosos para a economia combalida.

Caso a ser desenrolado depois de um raid pelo mundo encantado brasileiro da EXPODubai2021. Que vida louca, essa aqui fora. Do desastre climático eminente à exposição monumental tecnológica sem escala.

No deserto, “a Floresta Amazônica não pega fogo porque é úmida”, afirma o líder da nação que, por causa do conjunto da obra destrutiva de seu governo, não foi a conferência do clima, apesar de dias antes estar comendo pizza em Roma na reunião do G20. Sozinho e isolado do grupo dos mandachuvas do planeta.

Deve ter sido por isso que levou a tiracolo para Dubai filhos, assessores e amigos numa comitiva digna de um sheik árabe, dono de poços de petróleos. Não fosse bancada pelos contribuintes. Foi você que me contou a história infantil da “Roupa Nova do Rei”, lembra?

Pois é, aguarde. Na volta pra casa será o tempo (aquele, que está cada vez mais curto), de fazer o relato comparativo de outra historinha. A da “Dona Baratinha”. Afinal, quem será o Dom Ratão que cairá na panela da legenda eleitoral do grupo presidencial para as eleições do ano que vem?

Em breve, mando notícias em mais “uma carta sincera”. Vamos ver o que virá após o eclipse...    


*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Colabora com o tyrannus há vários anos. Sua produção pode ser conferida no site https://delcueto.wordpress.com/

 

 


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