PENSAMENTOS

Seleção de frases*



Minha escrita é contaminada pela condição de mulher negra.

Uma paixão profunda é a boia que me emerge. Sei que o mistério subsiste além das águas.

Do negror de meus oceanos a dor submerge revisitada esfolando-me a pele que se alevanta em sóis e luas marcantes de um tempo que aqui está.

Tenho dito e gosto de afirmar que a minha história é uma história perigosa, como é a história de quem sai das classes populares, de uma subalternidade, e consegue galgar outros espaços.

A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio.

Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade.

E pedimos que as balas perdidas percam o nosso rumo e não façam do corpo nosso, os nossos filhos, o alvo.

Mastigo-me e encontro o coração de meu próprio fruto, caroço aliciado, a entupir os vazios de meus entrededos.

A noite não adormece nos olhos das mulheres, há mais olhos que sono onde lágrimas suspensas virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.

Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem.

Hoje, a escrita da mulher negra não tem essa função de adormecer a Casa Grande. Pelo contrário, é uma escrita que incomoda, que perturba.

Na face do velho as rugas são letras, palavras escritas na carne, abecedário do viver.

Não gosto do termo intolerância, vejo isso como uma dificuldade de conviver com o outro, mas prefiro acreditar que a crueldade não é inata e, sim, adquirida.

Eu não nasci rodeada de livros e, sim, rodeada de palavras.

E o silêncio escapou ferindo a ordenança e hoje o anverso da mudez é a nudez do nosso gritante verso que se quer livre.

 

*Frases reproduzidas do site https://www.42frases.com.br/

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evaristo

Maria da Conceição Evaristo de Brito é escritora, poetisa, romancista e ensaísta. Nasceu em Belo Horizonte, em 1946. De origem humilde, migrou para o Rio de Janeiro na década de 1970. É formada em Letras (UFRJ), mestre em Literatura Brasileira (PUC-RJ) e doutora em Literatura Comparada (UFF-Niterói). Sempre foi bastante ativa nos movimentos de valorização da cultura negra no Brasil e estreou como autora em 1990, quando começou a publicar seus contos e poemas. Seus livros já foram traduzidos para o francês, foi ganhadora do Prêmio Jabuti em 2015 e, em 2018, recebeu o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais pelo conjunto de sua obra

 






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