PROSA

Eu e Flávia sob o sol*



Nem parecia aluna, nem mesmo daquela oficina de redação, tão por dentro e ao mesmo tempo tão contida socialmente, num tempo daqueles. Era uma menina simples, dessas que não te fazem confidências nem são de elogiar, mas jamais faltou às minhas aulas, ao que me lembre. Naquele colégio, onde a oficina de texto sempre teve uma frequência pequena se comparada ao outro da mesma região da cidade em que trabalhamos no mesmo período, por falta dela é que nunca ficamos um dia sem atividade. Ela e sua amiga-vizinha mais um rapaz que me dava a impressão de morar eternamente na escola (por nunca o ter visto fora de lá).

Num tipo de ensaio jamais combinado, muitas vezes Flávia e sua colega estavam sob as árvores frutíferas do quintal da casa de uma delas (não me lembro de qual) à minha espera, de onde seguíamos conversando até a escola, e, de lá, sei que também por diversas vezes voltamos juntos.

Quase sempre, naquelas tardes, ela me perguntava: “qual o tema pra poesia ou crônica teremos para hoje?” ou: “trouxe o poema, o recorte de jornal que prometeu?”. De assuntos pessoais, nunca me perguntou nada, tampouco me fez qualquer confidência. Nem sobre as amigas, nem sobre os meninos. Todavia, por vezes em seus olhos claros perpassava a dúvida, a crítica social, a preocupação com o meio ambiente, sobretudo (uma antecipação, não famosa, de uma Greta Thunberg...).

De repente, lá vinham questionamentos, reflexões:

– Professor, você não tem medo de morrer debaixo de um sol deste, às três da tarde, em Cuiabá?! Ou melhor: nós dois, será que não temos medo? Nem a Érica quando vem?...

Mas, na tarde daquele dia, não havia Érica nem Jefferson e, então, só eu e Flávia a caminho da escola. Era no bairro Boa Esperança e o dia, talvez terça, ou quinta.

A rua, naquela hora, dava medo de tão quieta. Rua lateral, sem comércio, serviços, nem vendedor de jogo do bicho ou de picolé, afinal, vender pra quem numa hora daquelas?  Rua cuja demanda maior, ao que se sabia, era o colégio, e agora, fora do turno de entrada nem de saída, então... Dava medo só em pensar de estar sozinhos na rua, sem câmeras nem olho mágico de portas ou humano de janelas a nos vigiar. Nem cuidar. Nem punir. Solidão a dois, em estado bruto. Sem barulho de carro ou moto, nem pedal de bicicleta (carroças e cavalos, de há muito, já não há), seguimos pelas laterais da rua fora da calçada como tantas vezes fazíamos.

Entrementes, o dia, além de estupidamente quente, andava diferente. E ela, encalacrada com o assunto, ainda uma vez:

– Professor, estive pensando, e já faz um tempo já: um dia – não muito distante – eu acho que a vida humana vai se tornar impossível em Cuiabá. Impraticável... Sim, eu penso que a nossa Cuiabá, um dia, ainda vai ficar inabitável...

– Mas pra quando isso? Daqui a dez anos?

– Dez, eu não digo; mas uns trinta, no máximo quarenta... Até meados do século, eu acho... Não vê que este sol, este calor, esta fumaça, o tempo a cada ano mais quente, mais e mais quente, e mais seco, uma hora vai explodir?

Pensei em brincar sobre minha eterna vontade de me mudar pra Chapada dos Guimarães, mas, claro, me calei. Apenas lembrei, com assombro e tornando o assunto ainda mais terrível, da Patrícia, uma então mestranda da UFMT a caminho do ponto de ônibus num meio-dia de um dia qualquer: “chegará um dia em que todo mundo em Cuiabá vai morrer ou, pelo menos, ter sérios problemas de câncer de pele devido a este sol”.

A menina ao meu lado, de uns 15 anos talvez, apenas meneou a cabeça. Não me pareceu assombrada em momento algum; apenas pensativa: “quando eu tiver 40 anos...” (e suspirou fundo).

Não completou. E precisava?

Hoje, pelas minhas contas, Flávia deve ter 28 ou 29 anos. Nunca mais a vi, não trocamos contatos, nem jamais tivemos intimidade para isso. Mas, num tempo desses, com tantas notícias aterradoras sobre o clima no Brasil e no mundo, como me esquecer dela e de suas ponderações?

Tinha apenas 15 anos. E olhando para dentro de si e os seus semelhantes como num globo terrestre ardendo em chamas, considerava a enorme realidade. Refletida como que num espelho que, de tão faiscante, pode até nos tornar ainda mais cegos num instante.


*Texto enviado ao tyrannus pelo autor

josé medeiros

marinaldo

Marinaldo Custódio nasceu em Santa Albertina (SP) e veio para Mato Grosso em 1980, aos 25 anos, quando a família se fixou no município de São José dos Quatro Marcos. Publicou: "Viagens inventadas: crônicas e quase contos" (2010) e "Vestida de preto e outras crônicas" (2018), ambos pela editora Entrelinhas. Além disso, participou da escrita e organização (com Maria Teresa Carrión Carracedo) do livro "Na estrada: relatos dos colaboradores da Sinfra" (2016), também pela Entrelinhas

 


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