PROSA

Primeiro dia de aula*



Saia marrom, camisa bege, meias três-quartos de lã, mocassins com sola de borracha, trança loura na cintura arrematada por um laço de seda. Idos de fevereiro, final de um verão impiedoso, mas Júlia tremia.

A aula começaria às 13h30. Ao meio dia almoçaram ouvindo a "Parada de Sucessos", cujo prefixo, St. Louis Blues, a orquestra de Glenn Miller desfigurava com um arranjo estupidamente marcial, o locutor mandando sua saudação para os céus do Brasil, meio sorriso irônico de seu pai: persistiam os cacoetes de após-guerra?

Saíram, Vivien com Amanda no colo, na retaguarda, Álvaro e Júlia na frente. Com "As lavadeiras de Portugal" zumbindo estupidamente em seus ouvidos, a menina esforçava-se por acompanhar os passos do pai, orgulhosa por andar ao lado dele, ocupar o lugar de Vivien, a carinha na altura dumas pernas impecavelmente vestidas de tropical inglês, mais acima, adivinhando a gravata de seda azul com prendedor de ouro de madrepérola, os cabelos esticados resplandecendo de brilhantina, porque ele gastava uma fortuna no Minelli, dizia sua mãe: quem seria o Minelli?

A menina evitava os verdes olhos mareados do pai, recebia um sorriso condescendente, ligeiro alçar de sobrancelhas: ria dela? Era parecido com Tyrone Power, mais ainda com Lewis Howard em "Ricardo Coração de Leão": ande, Júlia, não aperte tanto minha mão,ele não ia fugir.

Na esquina,ele efz sinal para um táxi, acariciou-lhe distraidamente os cabelos, entrou no automóvel e partiu. Júlia prosseguiu com a mãe e Amanda. Não lembrava o trajeto, apenas o sol implacável, o uniforme pesado, o suor e as lágrimas molhando o rosto torcido pelo choro.

E Vivien: não seja boba, Júlia, ela não pudera estudar em colégio de freiras. Apesar da chupeta, Amanda choramingava no colo. No pátio, a madre superiora: sua filha tem cabelos lindos, qual é seu nome, meu bem?

Então tocou o sino. Já era o sino, um latido metálico que ouvira durante doze anos. Agarrou-se às saias de Vivien soluçando aquela palavra que contém todas as súplicas humanas: mãe, mãe. Mas esta enrijecera cerrando os lábios e se afastara sem olhar para trás, embalando Amanda que chorava aos gritos pela irmã. Júlia misturou-se às outras medrosamente aproximando-se com infinitos de temor e esperança. Então foi aí. Uma delas apontou-lhe o rosto: o que é que você tem na boca?

Era uma cicatriz no lábio superior. Pais, tios, avós, primos, ninguém parecia se importar com ela. Ou apenas estavam acostumados? Afinal não estava lá desde que nascera? Por isso era tão mimada? Porque talvez fosse por isso que Vivien chorava em silêncio e Álvaro saía batendo a porta ou então mandava-se calar-se e beijava-a e trancavam-se no quarto por um tempo enorme e Amanda ainda não era nascida? Então era isso? Então era ela?

As crianças cercaram-na: pilhas de caretas hediondas curiosas espantadas, murmúrios, frases que morriam ao chocar-se com o cordão avermelhado da cicatriz enquanto Júlia recuava encolhendo-se para dentro dum limite de si que até então desconhecia. Inesperadamente as outras afastaram-se, isolando-a junto à paineira, recompondo-se em grupinhos cochichantes que espreitavam, irrompendo em risinhos agudos. O espelho fora colocado, o mundo a reconhecera e selara sua sorte: ela seria uma solitária.

E Júlia ficou só naquele primeiro recreio recostada ao tronco da paineira florida e, soluçando como um animal ferido, começou a odiar aquela paineira, uma a uma das suas flores, todos os seus odores, o vento que salgava sua boca com a poeira dos rodamoinhos que pés velozes levantavam, correndo, saltando, batendo pegador: fugindo dela.

Odiar o manto das freiras perpetuamente agitado numa ameaça de voo, o toucado branco rígido onde um crucifixo com um Cristo de prata balançava e batia e batia em corações sem resposta. Odiar e jamais esquecer os ladrilhos e os corredores, sua fatigante e inextricável simetria, cacos do caleidoscópio, não, da rosácea petrificada do caleidoscópio da dor.

Naquele dia conheceu sua orfandade e compreendeu que viver é um inferno. Sem espanto, sem desespero, quase com serenidade, talvez com secreto orgulho, e então com perversa alegria: Júlia só teria a si mesma, de modo que estava tudo certo, estava tudo em paz. Às cinco horas, sua mãe lá estava, esperando-a no portão.

Levou outra menina para casa.

 

*Conto de Márcia Denser, reproduzido do livro "Toda Prosa II - Obra Escolhida" (Record - 2008). Já publicado no tyrannus em 2013

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Márcia Denser é paulistana, nascida em 1954. Contista, romancista e jornalista, em 1980 foi rotulada como musa dark da literatura por Caio Fernando Abreu e Paulo Francis acusava-a como sua escritora favorita. Publicou, entre outras obras, "Tango Fantasma" (contos-1977), "Diana Caçadora" (contos-1986) e "Caim - Sagrados Laços Frouxos" (romance-2006). É colunista do site Congresso em Foco, no qual escreve sobre cultura e política. Tem livros traduzidos e publicados na Alemanha, Suíça, Holanda, Estados Unidos, Espanha e Bulgária. Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior


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