ROMANCE (trecho)

A armadilha*



"Andávamos pelas estradas e agora estamos em nossa casa", tinha dito o marechal. Bridet só tinha de dizer a mesma coisa. Não devíamos sentir o menor escrúpulo em enganar gente como essa. Podíamos dizer-lhe qualquer coisa, não importava o quê. Mais tarde, quando ele fosse juntar-se a De Gaulle, emendaria a mão.

Depois de se vestir, saiu. Cem metros mais à frente entrou noutro hotel para fazer à sua mulher a habitual visita de todas as manhãs. 

O famoso cartaz que apresentava uma bandeira tricolor, e ao seu centro a cabeça do marechal, por modéstia quase a três quartos e voluntariamente refinada, com um engomado colarinho falso, um quépi sem nenhuma inclinação, um ar de profunda honestidade, de leve amargura, de uma firmeza que não excluía a bondade, essa que os maus artistas tão bem sabem transmitir, escondia o grande espelho central. 

Yolanda também tinha conseguido arranjar um quarto. Tal como o do seu marido, pequeno demais para dois poderem dormir nele. Mas não era uma coisa que o arreliasse excessivamente. Estava num tal estado de abatimento, que preferia dormir sozinho. Tinha amado muito a sua mulher; mas depois do Armistício e sem reparar muito nisso, afastara-se um pouco. Ela tinha demonstrado repentinamente vontades, desejos que já não eram os seus. Também fora atingida pela catástrofe, e parecia ter descoberto que havia coisas na vida mais importantes do que o bom entendimento num casal.

Ela inquietava-se com a família que tinha ficado em Paris, uma coisa que durante anos não lhe tinha dado preocupação nenhuma. Estava impaciente por voltar a ver pessoas que até ali lhe tinham sido indiferentes. Falava constantemente da sua pequena loja de modas na rua Saint-Florentin, do seu apartamento, como se tivesse vivido lá sozinha. Bridet não sentia que aos seus olhos se tivesse feito um estranho, mas a pouco e pouco uma dessas criaturas a quem não se liga porque nada podem fazer por nós, apesar do amor que nos dedicam. E, no fundo do coração, achava-a com razão para tomar esta atitude. De facto, nada podia fazer por ela. Enquanto tinha havido um exército do qual fazia parte, defendera a sua mulher. Mas naquele momento já não a defendia.

 

*Trecho do primeiro capítulio do romance "A armadilha" (Editora Sistema Solar - 2021), tradução e apresentação Aníbal Fernandes Louis Parrot

bove

Nascido Emmanuel Bobovnikoff e conhecido como Emmanuel Bove (1898-1945), este autor francês foi jornalista e escritor de sucesso nas décadas de 1920 e 1930, muito apreciado por outros escritores, como Albert Camus, James Joyce e Samuel Beckett. Sua carreira foi, entretanto, interrompida pela invasão alemã na Segunda Guerra Mundial, que o obrigou a exilar-se na Argélia. Morreu pouco após a libertação da França, ao retornar a Paris e retomar sua carreira com a publicação de "A armadilha".


Voltar  

Confira também nesta seção:
19.07.21 17h22 » Bem pra lá de Araçatuba*
19.07.21 17h22 » Seleção de frases*
16.07.21 16h18 » À flor da pele
12.07.21 17h00 » Primeiro dia de aula*
12.07.21 17h00 » A armadilha*
05.07.21 19h08 » A matemática não falha*
05.07.21 19h07 » Embaçado na vista*
30.06.21 22h40 » 8.916.100.448.256 = 12¹² *
28.06.21 18h07 » Gestalt*
28.06.21 18h07 » O ato criador*
21.06.21 18h17 » O Eclipse*
21.06.21 18h17 » A ficção mágica de um sertanejo inquieto
14.06.21 18h50 » O Inominável (trecho inicial)
14.06.21 18h50 » Quando somente a arte parece simbolizar a liberdade*
14.06.21 13h47 » Ruptura
07.06.21 18h58 » A antiga dama*
07.06.21 18h58 » Seleção de frases*
31.05.21 18h57 » Governo*
31.05.21 18h53 » A escadaria do esquecimento*
24.05.21 19h17 » Abobrinhas na cristaleira*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:


  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet