PROSA

A ficção mágica de um sertanejo inquieto



livro

 

O livro de ficções intitulado "Apoteose de Demerval Carmo-Santo" de Wellington Amancio da Silva, ou W.A. Silva, tem o poder de nos deixar diante de uma missiva, uma missiva com cacos da história da humanidade e do indivíduo, que nos convida a refletir sobre a mentira da palavra e sobre a veracidade da mentira.  O realismo fantástico, ou realismo mágico, ou ficção nua, que encontrou um porto seguro na América Latina, afinal a América Latina, quando se apresenta à Europa já possuía um componente mágico: guerreiras amazonas, uma parte da Índia, seres antropofágicos, um verão eterno, os sinais na abundante e distinta vegetal dos trópicos, enfim, a nossa história é uma mistura de ficção e essa ficção anda despedaçada, cabe aos artistas juntarem cacos, juntarem um mosaico tal qual o autor faz quando narra a vida dos cristãos novos, que de fato vieram para o nordeste, ou sobre nossa violência com balas perdidas, e sumiços de crianças, sem deixar de lado a poesia dos ébrios e a busca do amor, ou de uma musa, há Liúnas espalhadas em vários corações.

A verdade histórica vira mentira na verdade do indivíduo, ou nas palavras, por exemplo, quando João alega que a chuva o faz de trouxa e é advertido por Liúna, ou a conclusão de Joseph de que todas as narrativas são mentiras e “só é verdade aquilo que não se diz”, ou mesmo quando a mentira ganha um sabor estético como ocorre com a sinfonia Júpiter de Mozart “no tape deck Gradiente Ds-20 que possuía o rotor de borracha desgastado”. Ou a constatação de que a mentira faz parte da época, a mentira é o Zeitgeist do século XXI: “Todos mentem! Somos todos uns mentirosos! Escondemos que a felicidade, hoje, é uma abstração repleta de aporias.”

Mas aqui se diz algo, a exploração do homem pelo homem, o sentimento de abandono, as variações da linguagem e os conflitos que essa proporciona, são cacos de diálogos, cacos de esperança, cacos de línguas do passado que ainda vivem, cacos de autores que tão bem passearam por essa vereda de uma ficção que convida o leitor a subjugar a realidade, percebemos o passeio por uma adega onde temos J.L. Borges, Murilo Rubião, Moacyr Scliar, Guimarães Rosa, Garcia Marquez, e outros não tão latinos como Joyce, sim, não apenas um passeio nessa adega de autores, mas alguns tragos, que deixam o leitor mais desavisado também ébrio, curioso com as pistas de uma enredo dentro do enredo, como se a sombra traduzisse o gesto do ator, ou o neologismo, entrasse como o sonho da palavra, pois os limites da denotação não são suficientes.  Assim acompanhamos um processo de novas palavras, normalmente por prefixação como “desentoante”, “renovo”, “refluente”, “desandamento” , “destijolada” etc. 

Esse processo de busca de palavra, de busca de comunicação, de mensagem de vida, que não precisa ser longa, como a do menino sequestrado, ou do que recebe uma bala perdida, vida pujante que não se olvida, não se entrega fácil, mesmo com objetos que também dizem algo, nesse simbolismos mágico, de cacos, como a ratoeira, ou os sapatos novos que  revelam partículas de vida, fazem o leitor despertar para o seu entorno, atentar para os “fantasmas” e ter muito cuidado, afinal o leitor pode se tornar um personagem dessa apoteose.


*Ricardo Gomes Pereira é formado em Letras e Pedagogia. Leciona  Língua Portuguesa e Literatura. Ganhou o prêmio de edição do Mapa Cultural Paulista em 2002, publicou na antologia poética: tempos e territórios da Prefeitura Municipal de Diadema em 2004 e os fanzines Laboratórios de Poéticas 2007 e  Omnibus em 2021. Atualmente possui o blog contexto gramatical (https://www.contextogramatical.blogspot.com/)

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Wellington Amancio da Silva é escritor e poeta nascido em Delmiro Gouveia (AL). Já publicou livros, ensaios e artigos. "Apoteose de Demerval Camo-Santo" (ficções) é sua obra mais recente, aqui resenhada. Ele é membro do corpo editorial da Utsanga - Rivista di Critica e Linguaggi di Ricerca; revisor/avaliador da Revista de História da UEG; Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental pela Universidade do Estado da Bahia - UNEB; Especialista em Ensino de Filosofia (UCAM); e é graduado em Pedagogia e em Filosofia (UNEB; Metodista)

 


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