RESENHA

Abobrinhas na cristaleira*



Lorenzo Falcão herdou os últimos despojos do modernismo, aquele bibelô que se partiu na mudança e está lindamente restaurado com durex. Colecionando esses fragmentos do passado, Falcão mantem a tonalidade da vanguarda, isto é, fazer do passado um alvo. Seu mais novo livro, “Abobrinha”, publicado pela ed. Carlini e Caniato, liga-se intrinsecamente à verve oswaldiana, brutamente irônica. Desse vínculo com a vanguarda a pedra fundamental não poderia ser outra: constitui-se como arma para estilhaçar os vidros da antiga cristaleira. Reproduzo “pedra fundamental”:

vidros vindos d´eras distantes
expectoram na sala da casa
e disputam olhares com artes
trepadoras de paredes

vidros trancafiados
armação de madeira
mais vidros e espelhos
a gerar luxo chique

vidros vidrados vibrantes
envidraçados tementes
pedradas extraviadas
cristalizados

vidros metidos a besta
dentro da cristaleira
se achando empoderados...

lá vai pedra!

abo

Os interessados em experimentar "abobrinha", por favor, entrem em contato com o seu autor pelo fone (whatts) 65 996269657. Hoje é quando o editor usa o seu próprio espaço pra emplacar sua poesia. Obrigado Mahon

Minha vantagem de sermos contemporâneos é conhecer o poeta e sabê-lo egresso do que intitulei de Geração Coxipó, um conjunto de autores antiacadêmicos que nasceu às margens da lírica hegemônica de Mato Grosso. O ímpeto radical do quebra-quebra marinettiano é o signo geracional que se confirma em Lorenzo Falcão, muito embora completamente amadurecido em termos estéticos. A ironia é uma estratégia, não uma mera espontaneidade como se pode pensar à primeira vista. O poema inaugural do livro deixa claro que, da filtragem, sempre vaza uma abobrinha. Sem dúvida, uma mentira absolutamente calculada. Esse jogo de aparência com a modéstia pretende quebrar o mobiliário de conhecidos salões.

Os vidros representam o passado, uma belle époque tão refinada quanto elitista que, na prosopopeia, ganha foros de velhos expectorantes. Esse passado está protegido. O que o poema denuncia é que a segurança oferecida ao passadismo é apenas aparente e frívola. O que protege os vidros? São mais vidros. Vidros e espelhos, isto é, uma bolha artificial e autorreferente que encontra no isolamento local fértil para a conservação. O passado guardado em cristaleiras, ou seja, consagrado a um lugar quase mítico não está assegurado por nada que não seja uma ilusão especular. Essa frivolidade passadista que se “empodera” não sobrevive a um questionamento mais sério, representado aqui por uma pedrada. 

Aliás, nosso debochado poeta hortifrúti, faz troça com o modismo do empoderamento, ou seja, nem o jargão contemporâneo sobrevive à comicidade que draga tudo o que vê. Falcão não aceita antolhos, scripts, roteiros predeterminados. Para o escritor, as coisas são como são por inércia. O passado empoderado só se mantém por um acaso, por uma pedra extraviada, talvez uma crítica não realizada ou não suficientemente divulgada e, portanto, permanece cristalizado. Falcão abusa da paronomásia ao sugerir que uma “cristaleira” (oculta no texto) guarda o passado cristalizado que, para o vanguardista, é mais do que um pecado, é um horror. Aí está o destino dos “vidros metidos a besta” – pedrada! Eis o “revival marinettiano” que radicaliza o modernismo para criar o turbilhão das vanguardas.

Enquanto lia esse poema, pensei ouvir Panis et Circenses dos Mutantes com seu incômodo e proposital polissíndeto: Mas as pessoas da sala de jantar/ Essas pessoas da sala de jantar/ São as pessoas da sala de jantar/ Mas as pessoas da sala de jantar/ São ocupadas em nascer e morrer. Não é assim com Lorenzo Falcão? A vanguarda odeia a “cultura de salão”. Noutras palavras, questiona contundentemente a estandardizada estética europeia do século XIX. Se há alguma coisa que um vanguardista não suporta é o bem-comportado aparelho de chá vitoriano. O “luxo chique” não se trata de uma redundância, portanto. É um tipo de luxo, um padrão de sofisticação europeizado, distante, elitista e frágil. O que seria o luxo do poeta?

Haverá outros que não sejam o convencional raffiné... no caso da obra de Lorenzo, a irreverência vanguardista é conservada, o que é um certo paradoxo. A tônica da obra do escritor é a dessacralização. Troca-se uma valsa de Chopin por cachorros que ladram e gatos no cio: “menos solidão/ e mais ou menos sossego”. Ao inverter imagens convencionais, o poeta pretende trocar a louça da Companhia das Índias Ocidentais por um estoque de abobrinhas. O verso aparentemente descomprometido é uma constante, mas já sabemos ser essa mesma a estratégia. O poema? É preciso “acabar com a raça dele”, como prescreve o poema baboseira. Essa dessacralização da lírica moralista, tão ao gosto de fungos e traças que vivem entre nós, está presente em Lorenzo Falcão desde o início de seu percurso literário. Quem nunca leu sobre o “cachorro que mordeu a sambiquira de mamãe” deveria fazê-lo urgentemente.

O moderno envelhece? Evidentemente! Resiste o quanto pode, mas sucumbe sempre na armadilha de eterna renovação que impõe a si mesmo. Nessa altura, convém refletir sobre o poema “bravata” no qual me parece um balanço da carreira literária que Falcão procede:

longe de qualquer 
possibilidade futura
caminho retaguarda
adentro

aquilo que escrevo
é resto e presto-me 
a serviço do passado
a limpo

e sujo-me agora
desse emplastro rubro
e porco e pouco

não me satisfaço

de onde venho 
há citações e farofas
ovais enfumaçadas
neblinam-me o olhar

enxurradas de palavras
minhas perseguidoras
me acompanham 
ao lindo limbo

toda sujeira do mundo
devastado e parco
arco e flecha
alvo

O poeta arma-se para a batalha. Pressente a morte e não quer fugir da maior luta de todas: o tempo passado a limpo. Recusa-se a se manter na vanguarda. Essa atitude deliberada inaugura uma guerra particular. O problema de Falcão é sempre retrospectivo, a investida é na retaguarda. Da artilharia lírica, não há mais munição. São apenas restos, fragmentos de um antigo arsenal recusado. O que vê no retrovisor não satisfaz o poeta. Era de se esperar. As citações empoladas operam como farofa na boca, enchendo o papo de uma tradição caduca. Mais uma vez, o poeta está querendo o quebra-quebra. 

Qual a estratégia de Lorenzo? No poema “pedra fundamental” já se viu que a pedrada é o fundamento para a renovação (como seria do agrado de Apolinaire essas abobrinhas!). No poema “bravata”, temos outro plano. A enorme coleção vernacular precisa ser esquecida no limbo. Não deixam de acompanhar o poeta para a vida toda, é bem verdade. Contudo, a inflação barroca, os maneirismos passados, toda essa quinquilharia de latinismos que o escritor acredita empapuçar o contemporâneo merece o esquecimento. Por fim, um último ataque ao passado e às mazelas do presente: arco e flecha/alvo. 

Roberto Schwarz afirma que a “singularidade oswaldiana é a total ausência de saudosismo na exposição de figuras e objetos do mundo passado” e, refletindo sobre a pauta modernista, alcunha essa lógica de “miragem de um progresso inocente”. Mais adiante, Schwarz desnuda a ideologia da informalidade, isto é, a manobra de se afirmar despretensioso é igualmente pretensiosa. Essa “inocência oswaldiana” está presente a todo momento em Abobrinha de Lorenzo Falcão como, de resto, em toda a perspectiva do quebra-quebra vanguardista. Afinal de contas, o que o poeta mirou não foi a cristaleira e sim o jogo de chá e os copinhos de cristal. Se substituir essa velharia por abobrinhas, ainda assim, haverá a cristaleira. Certamente, algum dia, novas poetas dirão que as abobrinhas apodreceram e precisam de urgente substituição. 

Se, de um lado, a destrutiva vanguarda é ingênua a ponto de acreditar francamente que os ataques ao passado surtirão algum efeito, pergunto: o que seríamos nós sem as pedras e as flechas? Continuaríamos caminhando? De outro lado, não deixo de me questionar: até que ponto é válido esse desejo beligerante? Não é certo que a escalada crítica vai nos legar um mundo sem expressão? O paradoxo de se conservar em eterna mutação exige enorme energia dos escritores e pode condená-los à paranoia. Ou pior: ao abandono da escrita, o rompimento fatal pelo silêncio ou pela recusa dos padrões de comunicação, radicalismo último das vanguardas que Falcão não se perfila. Se quebrarmos a cristaleira, não haverá nem lugar nem para a porcelana nem para a abobrinha. 

O novo livro de Falcão comprova o notável amadurecimento intelectual, temático e estético de uma geração de escritores que escrevem a partir de Mato Grosso. Particularmente, é não só uma retrospectiva da própria obra de Lorenzo Falcão, como um acréscimo consistente em seu currículo poético. A provocação do título está concentrada na primeira parte, intitulada de “poemas gerais” que me tomou algumas semanas. Ninguém se engane. É preciso atenção no proposital descuido, na fictícia despretensão, na aparente desimportância que o poeta se dá. Até a opinião sobre si mesmo é uma ironia de Falcão, talvez a melhor ironia na produção dele.

Particularmente, não gosto de abobrinha. Nem de berinjela, chuchu, maxixe, quiabo, nada de natureba que inspire a evasão do cosmopolita. Do livro de Falcão gostei imensamente, o que me causou uma inusitada simpatia com a sobredita hortaliça. Nunca provei o poeta, mas a poesia chegou-me refogada num pirex transparente. Uma delícia!

 

*Eduardo Mahon é escritor e metido a crítico literário.

 

 


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