LETRAS DELAS

A máquina mercante e a literatura contemporânea



                                     Adília Lopes, uma poeta portuguesa de minha predileção, diz que escrever
um poema é como apanhar um peixe com as mãos. Não à toa, toda
pescaria pede algum silêncio e, claro, ação. Amor e poesia,
coisas vivas que saltam de profundidades. Bolem na água,
desarrumando entornos, emergem, desenham formas vivas
no ar e desaparecem. Antes deles, tudo é apenas superfície,
ilusão de paz, azul ou verde (KÁTIA BORGES, 2020, p. 88).

 

Com o tempo a gente aprende que na prática a teoria é outra. E Kátia Borges sabe disso. Lendo “A Teoria da Felicidade” já se fica sabendo disso logo nas primeiras páginas: “Saber nunca é por inteiro” (BORGES, 2020, p. 19). A gente sempre sabe alguma coisa sobre algo que outros sabem muito mais.  Como professor aprendo com os alunos, como pai, junto aos filhos e assim por diante. A facilidade com que se lê este livro deve ser inversamente proporcional à que Kátia escreveu, está provado que a simplicidade, embora esteja ao alcance de todos, não é plenamente atingida por muitos, mas “para aquela menina tola, com suas antenas de arame” (BORGES, 2020, p. 23) parece natural.

Kátia Borges me parece uma operária da linguagem. Pelo trato que dá a esse amálgama linguístico; a junção das palavras uma a uma como tijolos que vão levantando paredes, até a cumeeira. O tempo frio de cada vocábulo, o rejunte que vai completando o mosaico de cores que explode como aqueles bichinhos que no Paraná, em minha infância distante, chamávamos de cavalinhos de Deus. Acho que na Bahia tem outro nome; e mais legal, penso: “E as esperanças. Já repararam como elas somem no inverno?” (BORGES, 2020, p. 26). A autora não espera que a dispensem, ela mesmo sai: “catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda;” (p. 31).

O trato com a memória vem acompanhando o voo dos pássaros. Pareço vê-la de seu décimo segundo andar na observação das aves enquanto se lembra da infância, de tempos que não voltam mais. “falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros” (BORGES, 2020, p. 32). O livro não é melancólico, como o de muitos escritores que povoam suas lembranças de saudades infindáveis, são como “recuerdos de Ipacaray”. Sendo paranaense, essa e outras polcas e guarânias também me povoam o imaginário. Também tive tias mais velhas que me faziam rir com suas histórias e me deliciar com suas presenças em minha vida, além de lembrar saudoso “o riso quase sem dentes das tias mais idosas, sempre se despedindo” (BORGES, 2020, p. 35). 

Um pássaro, uma begônia, os cadernos de desenhos. Poderia desfrutar de outras passagens do livro que me frutificaram algo. Imagens de uma plasticidade considerável, como a que segue: “O Diabo vive nos detalhes, dizem os alemães. A nostalgia, esse demônio, mora na saudade” (p. 49). TOCA RAUL! “Numa homenagem, que em sua cabeça conectava para sempre a Bahia com a melhor cantora do mundo, entregou a peça ao mar, lá pros lados do Rio Vermelho” (BORGES, 2020, p. 56). VIVA SERGUEI e JANIS JOPLIN! “Borges emoldurado no peito” (BORGES, 2020, p. 58). “Pedra, papel, tesouro” (BORGES, 2020, p. 59), ao invés deste jogo de pôquer, dessa roleta russa em que vivemos. A tesoura como tesouro, a pedra de Drummond, o papel que revela a escrita, ou nos projeta para dentro. “Livros de Cortázar” (BORGES, 2020, p. 59). 

Por um lado, a lição borgeana no sentido de me ensinar a economia. “Não a de escrever duro, mas sim enxuto, eliminando todo o eliminável, que é muito” (CORTÁZAR, 2014, p. 76). Cortázar aplica a lição de Borges; Kátia Borges o traz “emoldurado” em seu próprio nome. E dá conselhos, não apenas em suas aulas de escrita criativa: “tentem escrever um poema de amor sem usar palavras que remetam a sentimento” (BORGES, 2020, p. 86). Eis que a contenção lírica exerce atração. E o caminho segue com “David Le Breton, o sociólogo francês que prega no deserto e, na contramão do caminhando e cantando, afirma que o grande barato contemporâneo é caminhar pensando” (BORGES, 2020, 97).

Ou ainda “Como no belo poema de Maiakovski, que virou pop pela mão dos Irmãos Campos, é imperativo criar versos luminosos em um mundo escuro” (BORGES, 2020, p. 112). E avança com referências que pululam em seu texto o tempo todo: “Poetas vivem sempre às portas de cidades invisíveis” (BORGES, 2020, p. 114). Damos um salto para o universo lendário de Marco Polo, via Calvino, em que se apresenta ao leitor um diálogo ente o Grande Khan e o navegador veneziano:

                                                                                                                                                                                                                                      Ao final de seu livro, o diálogo apresentado entre o Grande Khan e o navegador Marco Polo, este diz                                                                                                                                                                                                                                          àquele: - O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no                                                                                                                                                                                                                                          qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A                                                                                                                                                                                                                                            primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de                                                                                                                                                                                                                                            deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber                                                                                                                                                                                                                                          reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço (CALVINO,                                                                                                                                                                                                                                         2003, p. 158).

 

Navegar é preciso: Camões, Colombo, Fernando Pessoa e Caetano Veloso sabem disso. E não são apenas os piratas do Caribe os perigosos e malfeitores nesse mar de lama. Ah, senhor capitão: “A noite inteira as esperanças cantam” (BORGES, 2020, p. 126). Concordo com muito do que li e tenho me apegado a muito do que revi nesta obra. “Há mais escritores que leitores neste mundo, de modo que há de haver seletividade pelo bem de incerta qualidade que muda de acordo com a época” (BORGES, 2020, p. 134). Mas, como diria Aldir Blanc, a gente vai ficando por aqui, “entre o torresmo e a moela” e vivendo tal qual “o bêbado e o equilibrista”. Aceito a companhia de Rilke e Eisntein, ou o espaço relativo entre o conhecimento de ambos. No mais, aceito o conselho que Kátia Borges nem me deu: “O resto é silêncio” (BORGES, 2020, p. 38).

 

REFERÊNCIAS

BORGES, Kátia. A Teoria da Felicidade. São Paulo: Patuá, 2020.
CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003. 
CORTÁZAR, Julio. In: GADEA, Omar Prego. A formação das Palavras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

sora maia

katia borges

A baiana Kátia Borges é escritora e jornalista, com expressiva trajetória acadêmica. Já publicou livros de poesias como "De volta à caixa de abelhas" (2002, Selo As Letras da Bahia), "Uma Balada para Janis" (2010, Edições P55), "Ticket Zen" (2011, Escrituras), "São Selvagem" (P55, 2014), "Escorpião Amarelo" (2012, Edições P55) e "O exercício da distração" (Penalux, 2017). Seus poemas foram publicados nas coletâneas, "Sete Cantares de Amigos", "Concerto Lírico para 15 vozes", "Roteiro da Poesia Brasileira - Anos 2000", "Traversée d´Océans - Voix poétiques de Bretagne et de Bahia", edição bilíngue organizada por Dominique Stoenesco, "Autores Baianos Um Panorama"(2013, Secult/P55), edição trilíngue lançada durante a Feira do Livro de Frankfurt, e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Review, 2013), publicada em inglês nos Estados Unidos e México

 


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