CONTO

O gato*



 

Entro na cozinha. Uma festa animada, organizada por um amigo.

Cheira bem.

Levanto a tampa de um dos tachos e vejo a cabeça de um gato preto. Assusto-me. Fecho a tampa. Estes tipos são loucos. Não gritei e não fiz barulho. Estou sozinho na cozinha.

Aquele tacho é o único que não está ao lume, era a cabeça de um gato preto, eu vi, como é possível? Sento-me numa cadeira da cozinha. Não sei o que fazer.

Penso: se este tacho tem isto o que terão os outros? e quase faço um sorriso a pensar no absurdo: cada tacho com a cabeça de um animal.

Não pode ser!

E depois penso: é só aquele tacho que tem uma cabeça de gato, o resto são comidas normais, convidaram-me para uma festa.

Pensei depois em arroz, em massa. em carne de vaca, enojei-me.

É a cabeça de um gato preto. A cabeça de um gato preto. Os olhos pareciam no mesmo sítio, estão no mesmo sítio, mas mortos, uma cabeça de gato preto, estão loucos.

Permaneço sentado. Não me aproximei mais do fogão. Não sei que fazer.

Na sala vão começar com leituras de poesia. Leituras de poesia. Estão loucos.

Lá de dentro chamam-me:

- Vamos começar!

É o dono da casa que me grita.

- Quero ouvir-te - diz.

A mulher dele tem uma saia curta e os joelhos vêem-se, e quando entro na sala ela sorri. Conheço os dois homens desta sala com quem ela fornicou. E o meu amigo não sabe. 

Alguém que não conheço começou a ler um poema. Depois outro e depois sou eu.

- Agora és tu.

O dono da casa agarra-me pelo cotovelo, obriga-me a levantar. A mulher dele bate palmas. Tem uma saia curta- vejo-lhe os joelhos, a coxa direita quase até às ancas, tem uma abertura na saia.

Um dia vim visitar o meu amigo e ninguém atendeu e eu subi. A porta do prédio estava aberta e existiam uns ruídos tremendos: fornicação. Esperei no andar de cima, como um miúdo, e espreitei quem saiu e vi os dois e conheci-o a ele. Não era o meu amigo.

Estava excitado e cim vontade de tocar a campainha de novo. Agora eu!, pensava. Mas fugi do prédio depois de esperar cinco minutos no andar de cima. Tinha trinta anos, estava entusiasmado e assustado.

E sei ainda de outro que a fornicou.

Comecei, então, a ler.

Foges a sangrar, o coração é disputado - as calças
                                         são atacadas pelos cães.
Adormeces, acordas a suar,
Uma mulher despe-se, dobra-se sobre a tua cama,
Encosta-te um punhal ao olho direito.
Estavas a sonhar, diz.

Acabo de ler. A mulher do meu amigo levanta-se, não endireitou a saia, agarra-me a cara, dá-me um beijo na testa.

- Adoro-te.

O dono da casa - o meu amigo - gritou, então, ao mesmo tempo que nos puxava:

- Todos para a cozinha! Tenho uma surpresa.

E todos o seguiram, alegres, a conversar e a beber. Mas o meu amigo (eu vi) não estava alegre.



*Conto reproduzido do livro "Água, cão, cavalo, cabeça" (2006), obra de pequenas narrativas ficcionais de Gonçalo Tavares

gonçalo

Gonçalo Manuel de Albuquerque Tavares nasceu em Luanda, capital de Angola, na África Ocidental Portuguesa. em 1970. Escreve em prosa e verso. Sua obra. não raro, costuma ser adaptada para versões em teatro, vídeos de arte, objetos artísticos e óperas. Ganhador de vários prêmios importantes, sua criação literárias já ultrapassa 220 traduções abrangendo 45 países. Sobre ele, há vários anos, escreveu José Saramago: "Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!"

 


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