OCTAVIO PAZ

Encontros virtuais com "Seres de Poesia"



gorka lejarcegi/divulgação

iouchabel

O mexicano viveu em países como França, Espanha, Japão e Índia

Octavio Paz (1914-1998) nasceu na Cidade do México e, na infância, viveu um tempo nos EUA. Começou a escrever na adolescência e, de volta ao México, estudou Direito para depois emveredar-se pela Literatura, o que o levou a conviver com as maiores expressões da poesia hispânica. Foi poeta, pensador, ensaísta, tradutor e diplomata. Venceu memoráveis certames literários como o Prêmio Jerusalém (1977); Nobel de Literatura (1990); e Prêmio Cervantes (1981), dentre outros.

A contribuição de Paz para a literatura universal, creio, ainda não foi devidamente mensurada. Digamos que ainda esteja "em aberto" e vamos lá. A pernambucana Iouchabel Falcão chegou ainda criança em Mato Grosso e já residiu em várias cidades. Atualmente, está sediada em Nova Mutum, onde prossegue sua trajetória acadêmica. É professora de educação básica e faz doutorado em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMT), na área de concentração dos Estudos Literários e dedicada à pesquisa da lírica contemporânea. 

Seus experimentos literários investigativos podem ser conferidos no endereço podem ser conferidos no blog Sarau às Três da Tarde: https://sarauas3datarde.blogspot.com/ . Há pouco mais de um mês ela começou a realizar encontros virtuais na internet em torno dos escritos de Octavio Paz. Uma iniciativa que Iouchabel insiste em dizer que não é um projeto. É um lance que não tem uma sequência, nem mesmo uma continuidade pra ser seguida. E, claro, está aberto para novas adesões. "Seres de Poesia"... se você se identifica como portador dessa característica, confira nesta entrevista o que Iouchabel Falcão tem a dizer. Depois é só chegar junto


Como foi que surgiu essa história de colocar o Octavio Paz na roda, e já peço que você explique do que se trata essa série de encontros virtuais.

A história surgiu de duas necessidades: acadêmica e poética. A acadêmica foi de minha parte, pois estou em processo de escrita de tese de doutoramento em que investigo a conexão entre Poesia e afetos, e os textos de Paz, além de serem referências para os estudos poéticos, são construídos por uma linguagem que sugere essa conexão no próprio exercício crítico. E poética pelo mesmo motivo (risos)! Paz investigou a “experiência poética” (em suas palavras) como uma espécie de fenômeno e sua maneira de escrita é quase como uma materialização dessa experiência, da experiência poética de Paz. Isso nos instiga a uma busca pela nossa “experiência poética”, ou pelo menos a algo que se aproxime a sua. Amor, Desejo, entre outros afetos são tecidos pela erudição de Paz, naturalmente, entre percursos poéticos (em termos de forma), históricos, míticos, e a Poesia toma um estado de Presença fascinante pra qualquer pessoa que a aprecie pra além do poema ou até mesmo da Arte. Paz considera o estado poético uma condição orgânica, como um “sétimo sentido” – posso estar delirando (risos) – e esse encantamento atinge acadêmices da área, ou não, poetas, ou não, geógrafes, ou não... São videoencontros quinzenais via Skype, às quintas-feiras, às 19h, onde nos reunimos pra, despretensiosamente, conversarmos e trocarmos impressões de leitura sobre um ensaio de Octavio Paz previamente escolhido pelos membros do grupo pelos nossos canais virtuais de comunicação (E-mail e Telegram).

zonaoctaviopaz.com

iouchabel

Octavio Paz e Gabriel García Márquez

 

Você referiu-se a ele como 'inclassificável' mas, no entanto, te convoco a falar um pouquinho sobre ele.

Paz recebeu, em 1990, o Prêmio Nobel de Literatura e peço licença para citar a motivação do prêmio, disponível no site nobelprize.org: “pela escrita apaixonada com horizontes amplos, caracterizada pela inteligência sensual e integridade humanística.” Muito embora tenha um poder de síntese – até meio perturbador, algumas vezes –, a obra de Paz, pra mim, envolve uma complexidade que não poderia receber qualitativos mais exatos: “sensual” e “humanística”. “Sensual” pela força da fusão que coloca o “humano” em uma realidade tangível com a existência pela linguagem. Penso que isso é proeza de poucos... Quanto à classificação, me refiro especificamente ao gênero dos textos dele. Sua produção é crítica e criativa, de ensaios a poemas, mas essa definição é uma tentativa didática que nós, leitores, tentamos estabelecer, pois sabemos que, na prática de leitura, há uma convergência estilística que coloca isso em dúvida, comparando com a maneira tradicional de classificação dos gêneros. Dificilmente saímos de um texto ensaístico de Paz sem passar por instantes de mergulho intenso (e afogamento...) no poético e, naturalmente, muitos de seus poemas se confundem ou são a materialização de seu pensamento crítico. Por essas e outras que prefiro chamá-lo de “inclassificável” a “poeta”, “crítico”, “ensaísta”. 

 

Dois encontros já foram realizados. O terceiro vem por aí e quem não participou dos anteriores ainda pode participar dos próximos. Apresente um passo a passo pra que os interessados possam ingressar no projeto.

Seres de Poesia são sempre bem-vindes! (Risos). Não existe uma sequência, nem mesmo uma continuidade pra ser seguida. Como a maioria dos textos de Paz são no formato ensaístico, por isso também mais curtos, não há a necessidade de estabelecer sequências. Não existe uma proposta de aula ou nada que precise de cronograma. Também não é necessariamente um “grupo de estudos”. A proposta é de compartilhamento de “afetos poéticos” a partir da leitura dos textos, uma vez que as reflexões dele sugerem esta espécie de “filosofia da poesia” – posso estar delirando novamente! (risos) –, movimento de perguntas pra mais perguntas pra mais perguntas... É no encontro dessas perguntas que buscamos compartilhar possíveis “experiências poéticas”, do poema a outras Artes, dos fenômenos da natureza aos digitais, da política às manchas pretas das cascas de banana. Pra participar do grupo, basta procurar e mandar mensagens pelo @sarauas3datarde no Twitter, Instagram ou iouchabel@gmail.com, ou pelo grupo do Telegram “Octavio Paz: Ensaios e crítica”.

Em relação aos dois encontros anteriores, você diria que o projeto está correspondendo com suas expectativas? Destaque algo nesse sentido.

Os videoencontros têm sido adoráveis! Um dos adjetivos que mais surgem é “provocador” e esse é nosso conatus, nossa “alegria, movimento de vida”, nas palavras de Spinoza. São várias as experiências de leituras e todas as conversas são como descobertas. Não conseguiria pontuar expectativas propriamente ditas. Não houve necessariamente essa pretensão. A motivação pra criação do grupo foi apenas Vontade. Ainda somos poucos, mas todos têm participado com os seus afetos – positivos e negativos – provocados pelos textos. Como disse, não temos a pretensão de sermos “produtivos” e em termos de compartilhamento de afetos os encontros são ótimos e sempre deixam algo de “mágico”, algum encanto ou perturbação inexplicável (seria isso a Poesia, Paz? Mais perguntas...).

Fale um pouco sobre a dinâmica do projeto. Os textos que foram objeto de estudo e as contribuições do público envolvido podem ser conferidos?

Presamos pela simplicidade! Decidimos o texto alguns dias antes, pra dinamizar a leitura e nos reunimos, nós, nossas leituras e afetos, pra os videoencontros. Se alguém não conseguir ler o texto, mas quer participar da conversa, também é bem-vinde. “Puxamos o assunto” por meio dos trechos que nos instigaram ou perturbaram ou pelas dúvidas e mistérios que permaneceram. Quem se sente à vontade pra compartilhar textos seus e/ou de poetas/escritores de qualquer era, ou qualquer experiência, de Arte e/ou situação em que sentiu a Poesia, tem toda a liberdade. Já nos encontramos em experiências parentais, na flora e fauna, em animes, em poemas escritos pelos participantes totalmente provocados pelos textos de Paz. As contribuições são simultâneas e os registros – escritos ou afetivos - seguem o desejo individual. Não estabelecemos compromisso de registros a serem divulgados pelo grupo. Como disse, não é necessariamente um “grupo de estudos”. 

jonn leffmann

iouchabel

Octavio Paz foi poeta, pensador, ensaísta, tradutor e diplomata. Venceu memoráveis premiações literárias e conviveu com as maiores expressões da poesia hispânica

E o cronograma desses encontros virtuais... Há um prazo para finalizar o projeto? E o que você pretende fazer com o material produzido?

A obra de Paz é extensa, então é possível que, enquanto houver participação, sigamos pela leitura de diversos de seus textos. Não há um cronograma. Não é necessariamente um “projeto” (risos). Pode parecer meio sem objetivo e acho bom que pareça, pois, se há alguma proposta, é a do encontro com a Poesia de maneira mais “intuitiva” que “racional”, por assim dizer. Ousaria dizer que o convite é pra quem, de alguma forma, sente demasiado ou sente falta de sentir, e isso não pode ser medido em calendário (por mais que, paradoxalmente, precisemos marcar as datas dos encontros). Assim como o pensamento de Paz, acredito que os afetos são construídos pela linguagem principalmente poética; por isso, a liberdade – podada pelo tempo do relógio – é essencial. Não se marca data pra sentir; Poesia não tem agenda nem objetivos amarrados à realidade mecanizada. Ela se basta, como diria Paz. Posso falar por mim: mesmo sem expectativas, tenho algumas pretensões e uma delas é pensar a relação entre afeto e Poesia que possivelmente me ajudarão na escrita da tese, mas não é laboratório de coleta de dados. Sou defensora do pensamento de que a Arte e a Poesia só existem quando compartilhadas. O material produzido é o Encontro.

Chegou a hora de 'pitaquear' sobre a literatura brasileira produzida em MT. Há uma expressiva performance editorial com volume de lançamentos nunca registrados por aqui, alguns autores daqui se destacando em nível nacional e, o que é muito importante, a comunidade acadêmica participando ativamente desse processo, estudando e esmiuçando autores contemporâneos estabelecidos no Estado. Será que estou sendo otimista em demasia? Diz aí...

(Risos) Se você está, eu também estou! Penso que há uma ascensão editorial nacional, com uma profusão de editoras também chamada de “independentes” que defendem e promovem seus selos de maneira bastante curiosa e motivadora tanto aos leitores quanto aos estudiosos. Posso estar equivocada, mas penso que isso acaba motivando também poetas e escritores à publicação, através da segurança àqueles que, por qualquer motivo, precisam de uma conexão concreta com possíveis leitores que as editoras promovem. Felizmente, poetas e escritores de Mato Grosso participam dessa onda. Penso que não existe mais um suposto “fantasma do regionalismo” que por muito tempo perseguiu a produção escrita do Estado, causando o preconceito que esse gênero promoveu, conforme apontam vários estudos. Existe uma espécie de configuração “multi-trans-inter-pluscultural” no Estado cujo sintoma – arrisco em dizer – é uma produção literária ousada e surpreendente, do estilo à temática. Muitas das produções – felizmente não conheço todas, pois são muitas – são erigidas através de uma mitopoética que cria seus próprios mitos – o gênero mais encantador de todos –  e cumpre com o misticismo que sustenta o encanto da palavra, enquanto outras exploram a metapoética de maneiras surpreendentes, tanto aos leitores quanto aos críticos, do tradicional ao contemporâneo. Acredito que, por alguns desses motivos, leitores e a comunidade acadêmica não precisam – literalmente – de um corpus fora deste locus. Temos poemas, narrativas e epopeias, aos moldes ou subvertendo clássicos, com a qualidade estilística – falando enquanto profissional da literatura – semelhante, igual e/ou superior a literatura produzida no Sul e Sudeste, regiões que por muito, muito tempo determinaram, além de padrões, a literatura produzida no Brasil. Não há mais com o que se preocupar, pois não existem mais limites geográficos pra literatura produzida em Mato Grosso.

iouchabel

Iouchabel Falcão é doutoranda em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMT) e quer parcerias para esmiuçar as literaturas do autor mexicano. Sua área de atuação pode ser conferida no blog Sarau às Três da Tarde

 

 


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