CAPÍTULO

Supercerrado*



Vós que chegastes a ver de perto, majestoso JKhan, a vegetação nativa que aqui havia antes da construção da vossa eterna Ailisarb. Vários registros  fotográficos atestam vossos passeios por entre gramíneas e árvores tortas desse enorme bioma. Sim, aqui havia o rico cettado, a savana mais incrível do mundo.

Com a construção das superquadras e das cidades vizinhas, com o cultivo de legumes e hortaliças no cinturão verde e com os grandes plantios de capim e grãos em volta de Ailisarb, o cerrado desapareceu para sempre. Nada sobrou, nada.

Aliás, sobrou esta superquadra.

Agora o cerrado observa seus algozes através de grossos vidros. É o último resquício dessa vegetação que um dia dominou mais da metade do império que erigistes.

Quando o último pé de pequi do mundo floresce, em meados de julho, a cidade toda se rejubila, celebrando o gozo dos pólens não fertilizados. Germina uma semente de cagaita e as intrigas políticas cessam, os negócios são suspensos.

Durante a noite, imagens holográficas de tamanduás-bandeiras, lobos-guarás e antas são exibidas. Todos os animais da rica fauna do cerrado estão extintos. O mundo que começou com bactérias termina em bactérias.

Antes que me pergunteis, já vos digo que não tenho a resposta da próxima questão. Como colocar em uma área de apenas 78.400 metros quadrados toda a beleza cênica do cerrado, com seus vales, rios, campos e veredas?

Restam fotografias e filmagens, mas isso os ailisarbianos evitam ver, tamanha é a culpa que sentem por deixar desaparecer tão lindo pedaço do planeta.

 

*Texto reproduzido do livro "As superquadras invisíveis de ailisarb" (edição do autor), obra lançada recentemente que acabou de chegar ao tyrannus. Interessados em adquiri-la podem procurar o autor via facebook ou instagram

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niki

Nicolas Behr nasceu em Cuiabá mas vive em Brasília desde a adolescência. Grande poeta contemporâneo que também sabe fazer prosa. Como é "arroz de festa" aqui no site passarinho, me dispenso de publicar mais dados biográficos dele. Mas, é bacana dizer que o presente/livro foi inspirado em Italo Calvino


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