REFLEXÃO

Mente ou Pedra



Esta cidade é conhecida em todos os arredores por possuir as maiores estrebarias para bois, vacas e cavalos, construções que não ficam a dever nada nem sequer aos edifícios públicos; por outro lado contam-se aqui pelos dedos os locais onde se pode rezar ou discursar com total liberdade.

Em vez de se autocelebrarem por meio da arquitectura, não deveriam as nações fazê-lo pelo poder do seu pensamento abstrato? O Bagavad-Gita é muito mais admirável do que todas as ruínas do oriente. Torres e templos são luxo de príncipes. A mente simples e livre não moureja sob as ordens de nenhum príncipe. O espírito não é privilégio de nenhum imperador, nem são exclusivos deste, a não ser em insignificante medida, a prata, o ouro e o mármore. Com que finalidade, digam-me lá, se talha tanta pedra?

Quando estive na Arcádia, não vi pedras a serem lavradas. As nações são possuídas pela louca ambição de perpetuarem a sua memória com a soma das esculturas que deixam. Que tal se esforços semelhantes fossem despendidos no sentido de aperfeiçoar e polir a sua conduta? Uma obra de bom senso seria mais memorável que um momumento da altura da Lua. Prefiro contemplar as pedras no seu local de origem.

 

*Texto reproduzido do site https://www.citador.pt/

 

thoreau

Henry David Thoreau (1817-1862) foi um estadunidense ao qual são atribuídas qualidades como poeta, naturalista, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista. O pequeno texto aqui publicado é parte de uma de suas obras mais famosas, "Walden", que nos provoca reflexões em torno de uma vida simples e cercada pela natureza. Apesar de ter vivido no século 19, tudo que ele já escreveu (e que eu li e não é muito), ainda permanece bastante atual


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