PROSA

Entrevistas sobre uma obra prima



 A primeira versão de "Graça Infinita" — que se chamaria, a princípio, Um Entretenimento Fracassado — foi escrita à mão, a partir de 1993, em um quartinho tão minúsculo que Wallace, para arranjar espaço para trabalhar, precisava reorganizar os livros à sua volta. Depois, para entregar o material à editora, digitou tudo em um computador — usando apenas um dedo, sendo este o nível de intimidade que ele tinha com a máquina. “Mas era um dedo bem rápido”, garantiu em entrevista a David Lipsky.

Para se preparar para essa história de mais de mil páginas, nas quais aparecem terroristas cadeirantes, viciados lutando contra seus demônios e os Estados Unidos se juntaram ao Canadá para formar a Organização das Nações da América do Norte (ONAN), Wallace passou centenas de horas em três casas de recuperação. “No fim das contas você pode simplesmente ficar sentado na sala de estar — ninguém é tão gregário quanto alguém que parou de usar drogas recentemente”, foi o que também contou a Lipsky.

Apesar dos temas pesados, que ainda envolvem severas críticas à epidemia do entretenimento, e de toda a fabulação fantástica da narrativa, o objetivo era criar um romance que pudesse ser desafiador e aprazível na mesma medida. O velho tom da literatura de vanguarda que o precedeu, afinal, com exibicionismos que se encerravam em si mesmos, não lhe interessavam em nada. Além disso, havia algo bem certo em sua mente: “Eu queria fazer um livro que fosse triste. Na verdade, era a única ideia que estava na minha cabeça”, disse em entrevista de 1996 a Mark Caro, do Chicago Tribune.

A jornada é longa e pode assustar — são 1.141 páginas na edição da Companhia das Letras, traduzida por Caetano W. Galindo, com 388 notas de rodapé. Mas DFW garante que há uma recompensa no final da leitura, ou pelo menos é o que ele gostaria que houvesse. “E? um livro estranho. Ele não caminha como os livros normais. Tem uma porrada de personagens”, explica em entrevista de 1996 a Laura Miller. “Eu acho que o livro pelo menos tenta, do fundo do coração, ser divertido e fascinante o suficiente a cada página para não parecer que estou te marretando a cabeça, sabe, ‘Ei, olha aqui esse treco difícil pacas e inteligente demais. Va? se foder. Tenta ler isso aqui se puder’. Eu conheço livros que são assim, e eles me deixam puto.”

Os comentários do autor deixam claro as preocupações já mencionadas. E um outro episódio, também retirado do livro Um Antídoto Contra a Solidão, mostra que toda a energia gasta na composição do calhamaço fez que com Dave não admitisse ser confrontado quanto à organização da narrativa. “Pode ser uma zona, mas é uma zona para lá de cuidadosa”, disse a Anne Marie Donahue, do Boston Phoenix, em 1996. “Deu muito trabalho fazer o livro ter aquela aparência. Isso pode parecer uma mentira patética, mas não é. Agora, como você já percebeu, estou perdendo a linha.”


*João Lucas Dusi é redator do jornal de literatura Rascunho e do portal Bienal 360º. Publicou o livro de contos O Grito da Borboleta (2019). Vive em Curitiba (PR). Para ler a reportagem especial completa, reproduzido da Revista Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, clique no link https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Noticia/ESPECIAL-Nos-bastidores-de-Graca-Infinita

 

dfw

O estadunidense David Foster Wallace (1962-2008) foi romancista, contista, ensaísta e professor. Tornou-se famoso, principalmente, pelo seu livro "Graça Infinita", escrito em 1996, que teve sua edição brasileira em 2014. DFW já foi reportado no tyrannus inúmeras vezes. O livro em pauta conquistou o reconhecimento internacional como um dos melhores romances das últimas décadas


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