PROSA

Aliança*



Sentada em sua mesa na pequena sala de espera do consultório: arquivo de pacientes, televisão no alto de uma parede, bebedouro, sob a mesa computador e telefone, papelada. Consultório de ginecologista. Ginecologista... ela, a regente do caos da sala de espera. O desfile diário de mulheres velhas,maduras, sozinhas, acompanhadas pelo marido - de mãos dadas às vezes - tinha as imensamentes solitárias, contritas de passado amoroso doloroso. Ela, um pouco psicóloga, vai acalmando, aconselhando. Ah! E tinha as sedutoras, com roupas cavadas, esvoaçantes, transparentes. 

Ela, 26, parda, de vastos cabelos encaracolados, sabe exatamente o que a mantém nesse emprego: aquela aliança, Dr. Rodrigo chama a última paciente da tarde - caso grave de HPV  virando problema no colo do útero - o marido entra junto. Vai demorar, melhor já ir adiantando a arrumação da salinha. Sai a última paciente, prognóstico ruim, nem exames pediu.

Ouviu Dr. Rodrigo se lavando, ela foi para o banheiro de pacientes e fez o melhor que pode. Escutou o Dr. Rodrigo chamando seu nome: "Catarina", ela entrou no consultório  e o médico já foi enfiando o nariz no cabelão dela e empurrando a cabeça para baixo do umbigo, esse movimento possibilitava a ela ver o rebrilhar da aliança grossa no anular esquerdo dele. Pronto! Ficou louca, acendeu a brasa, caprichou no vai-e-vem até arrancar gemidos da boca daquele doutor de 45 anos, carreira firme e bem casado há vinte anos.  A aliança, a aliança, a aliança sempre fora o fascínio, o fetiche, depois voltaria para sua casa de mãe, irmãs e sobrinhos, depois; agora era ele no vai-e-vem dentro dela, ela sempre fingia entrelaçar as mãos, mentira! Ela queria ter o controle para ficar olhando aquela aliança sólida. Aham ela gozou, ele logo em seguida. Rapidamente o médico foi se limpar, tirar as marcas e odores do havido.

Ela ficou uim pouco lassa para, na sequência, se recompor. Saíram juntos para tomar o elevador. Ele a deixaria no ponto onde seu ônibus seria de melhor acesso. Ele partiu para o condomínio do Sucuri, ela seguia para os lados do Osmar Cabral. Não tinha importância, amanhã teria mais.


*Ficção reproduzida do livro "doze contos - interpretando a miragem", lançado recentemente, junto com o livro de poemas "Gula D'Água", ambos pela Carlini Caniato Editorial. Interessados em adquiri a(s) obra(s) devem entrar em contato com Raul, pelo telefone (65) 99635 3486.


luiz marchetti

lu

Luciene Carvalho é escritora e poeta nascida em Corumbá (MS), mas radicada em Cuiabá desde pequena. É uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea produzida em Mato Grosso. Já lançou vários livros, com os quais foi vencedora de prêmios e condecorações. Ocupa a Cadeira 31 da Academia Mato-grossense de Letras. Vem batendo ponto no tyrannus desde que o site surgiu, por causa de sua extensa folha de serviços prestados à cultura e às letras mato-grossenses. É sempre um grande prazer publicá-la no site passarinho

 


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