RESENHA

Presente de grego



Debaixo de um céu cinza compacto, baixo e ameaçador como um bloco de ardósia, vovó passeava entre os canteiros, abaixando-se ligeiramente para aparar um galho, botar fora uma folha seca, colher uma flor, trauteando uma de suas canções favoritas. 
(ARNAUD, 2021, p. 183).

Depois da leitura de “Liturgia do fim” e “Suíte de silêncios”, reencontro-me com Marília Arnaud, por meio da literatura. A linguagem romanesca que soçobra em seus livros encharca o peito do leitor atento e reverbera lá dentro, onde a tal da “Coisa” habita silenciosamente na calada da noite e no usufruto dos abraços de seu filho mais pródigo, quer seja o dia. O silêncio da suíte agora ocupa a casa toda e, incômodo, se espaça por todos os cantos, da cozinha à sala, enfim, todos os cômodos. “Nos lugares onde nada acontece, conferimos mais atenção ao que acontece dentro de nós”. (p. 108).

Heleno, Luísa, Eufrosina, Aglaia, Heitor, Thalie, a vovó. A constituição das personagens do romance segue uma simetria (pérfida) que costura elementos da cultura grega com fragmentos shakespereanos para construir nova modalidade de tragédia. A narradora não me disse, mas intuo que Tia Clara se matou, dada a identificação certeira de Aglaia com o olhar perenizado em uma fotografia. O instantâneo é capaz de registrar coisas que até Deus (ou deuses) duvida (m). 

Uma de suas imagens impressionava-me particularmente. Tia Clara subira em uma árvore e, de lá do galho que montara, olhava séria e diretamente para a câmera ou para a pessoa que a fotografava de baixo. Em seu olhar havia algo que me obrigava a continuar ali, uma energia concentrada, uma obstinação secreta, e me perguntava onde e em que circunstância eu me deparara com aquele olhar. (p. 140).

Esse olhar obtido por Aglaia na foto de sua tia remonta a uma visão panóptica que sobrevoa quem observa. Em ensaio encomendado por Paloma Vidal, Natalia Brizuela disserta detalhadamente sobre a arte da fotografia como fenômeno de construção estética, não fruto de um mimetismo qualquer, fato que afronta os conceitos clássicos da poética aristotélica, por exemplo, e faz insurgir até mesmo como prática narrativa o congelamento em que se isola do todo uma parte e se constrói analiticamente um fato. Para ela, 

A fotografia é uma operação sobre os materiais da vida – é isso o que habita as fotografias pessoais, essas que passariam por uma oficina qualquer de revelação, sem pretensões artísticas – porque provém da “prosa do mundo” e ao mesmo tempo é o meio para recusar-se ao mundo
(BRIZUELA, 2014, p. 23-24).

Entremeada por relações de contiguidades literárias, musicais e cinemáticas, a escrita se constrói com lances que trazem a psicanálise a reboque, quer seja pela mediação de crises familiares, alterações de consciência e lapsos psicóticos que escondem sob o manto da família unida, quer seja por meio de aspectos trágicos que se pautam por segredos inolvidáveis que vão sendo apontados pela narrativa, o que se justifica, por exemplo, com o discurso de quem narra: “Aprendera com meu pai que as palavras certas podiam tornar extraordinária qualquer coisa que se falasse. Todavia, não aceitava aquela tese de que a linguagem usada por um sujeito pudesse revelá-lo”. (p. 68).

O pai é um exemplo de erudição, mas por detrás da volumosa relação com o teatro traz na espécie de um duplo o estatuto trágico banhado pelas peças de Shakespeare que inundam sua formação acadêmica. Trancafiado no escritório, alheio à constituição familiar, vive fechado e circunspecto ao redor de livros. “Eu não compreendia por que meu coração ardia de compaixão pelos miseráveis de Victor Hugo e Dostoiévski, e não por aquelas que, de tão próximas, eu podia sentir o odor rançoso do corpo”. (p. 80).

A arte é um grande escopo para a compreensão do discurso de Aglaia. Mas sua relação com a psicanálise facilita uma visão metodológica, ainda que incrustada em um universo bem mais amplo de compreensão da vida. “Mas Shakespeare me ensinara que julgar é uma das coisas que mais dá prazer ao ser humano. Também aprendera com as suas tragédias que o silêncio é um dos muitos disfarces usados pela culpa”. (p. 159). 

A mãe, por sua vez, professora que gerencia as diferenças entre os filhos Heitor, Aglaia e Eufrosine, têm que administrar também a chegada de outra irmã, desconhecida, que surge da França e cai de paraquedas naquela família. A filha bastarda de Heleno chega para ficar e aí é que as coisas desandam de vez para quem nos conta essa história. “- nunca mencionamos o passado e ainda assim ele continua pairando sobre nós como a sombra de um pássaro impossível”. (p. 64). 

Voltando à antiguidade clássica, é curioso pensar que Helena de Tróia, casada com Menelau, foge e ao fim da guerra o casal surge novamente, fato registrado na “Ilíada” de Homero. Esse “babado” forte ainda incomoda os conservadores que leem as obras de Homero, se não vejamos:

Os primeiros anos dessa união foram felizes, mas durante uma ausência de Menelau, o troiano Páris, filho de Príamo, foi à Grécia, a pretexto de oferecer um sacrifício a Apolo, e fez com que Helena o amasse. Raptou-a e acarretou sobre a sua pátria a longa e sangrenta guerra descrita na Ilíada. Esse sucesso não extinguiu a paixão de Menelau, que depois da guerra de Tróia assassinou Deífobo, filho de Príamo e a trouxe para Esparta. Deífobo amara Helena depois da morte de Príamo e a abandonou. Dessa união nasceu uma filha, Hermíone.
(COMELLIN, 1957, p. 292). 

E se Heleno na verdade espelhar esse contraste e, ao invés da bela grega, ser ele o gerador de um (a) filho (a) bastardo (a)? E se Aglaia, Heitor e Eufrosine representarem a reprodução dos filhos de Zeus e Hera? E se a bastarda for Tália, a outra filha do casal? A mãe de Aglaia se referia ao escritório em que o marido se fechava como “a concha dourada de Heleno” (p. 17). A fenomenologia de Bachelard se aplicaria bem para uma análise espacial da trama. “Minha avó Sarita costumava dizer que o casamento é uma espécie de caixa-preta de avião, as pessoas só têm acesso ao que se passa lá dentro quando tudo vai pelos ares”. (p. 59). 

Mas e Demian, esse primo pelo qual a narradora se encanta e que a trai com a nova irmã? “Não conseguia sequer ir adiante na leitura do Hermann Hesse, que meu pai descrevera como extraordinário e eu aceitar ler especialmente por conta do título”. (p. 106). As referências vão se sobrepondo, interpondo e os frutos da noite insone acometem os pensamentos de Aglaia, aproximam-na do niilismo de um Sartre, para não nos delongarmos mais no tempo em busca de Schopenhauer e Nietsche. “O inferno não era um lugar. O inferno era eu”. (p. 178).

Não me parece que Aglaia traga para si a ideia sartreana de que o inferno sejam os outros, uma vez que seu registro escrito, fruto dessa elucubração sistemática e mal resolvida no âmbito familiar, sustente o discurso de incompreensão. Entre as páginas 24 e 31 do romance destaco ao menos três reflexões acerca da escrita que lançam luzes sobre o que atormenta a garota que narra, se não vejamos:

Dizem que narrar é um modo de iluminar nossas zonas escuras, as palavras têm o poder de fazer cair o lençol branco das assombrações e escrever é uma forma de se desgarrar de si mesmo e se entregar. (p. 24).
Havia pouco o que contar, pelo menos até a chegada de Thalie, mas escrever era sempre uma forma de não deixar minha vida se desmanchar no ar. (p. 29).
Tinha a sensação de que mãos me urdiam, ou de que eu escorregava no tear, e que, ao final, penteada, puxada, torcida, já não era mais eu, e sim parte de uma trama de incontáveis fios, seda, lã e algodão, uma história contada em variadas cores e cenários. (p. 31).

Demian, Werther e tantos outros que sofreram na adolescência por alguma “Coisa” invisível, no fundo sabiam bem do que se tratava. Cada qual tolera até certo ponto os seus fantasmas, ou, no mínimo aprende a conviver com eles. Agora, depois dessa viagem, acho que também concordo com Iago acerca do que a gente seja neste mundo, de coração. Que cada leitor faça a sua escolha e suporte a grandiosidade e consequências do livre-arbítrio em sua vida. 

 

REFERÊNCIAS
ARNAUD, Marília. O pássaro secreto. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021. 
BRIZUELA, Natalia. Depois da fotografia. Uma literatura fora de si. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. 
COMELLIN, P. Mitologia grego-romana. Salvador: Livraria Progresso, 1957. 

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

marilia

Marília Arnaud escreve contos, romances e crônicas. Seu romance "O pássaro secreto", aqui resenhado, venceu a 5ª edição do Prêmio Kindle de Literatura. Ela nasceu na Paraíba e é formada em direito pela UFPB. Seus contos foram incluídos nas antologias "30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" e "Contos cruéis".É autora dos romances "Suíte de silêncios" e "Liturgia do fim"

 

 


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