CONTO

O inventor do martelo-de-orelha*



Foi um francês muito esperto, chamado Charles Martel, o inventor do martelo moderno.

Composto de um apêncide metálico em forma de orelha, tirou do mercado o martelo mesopotâmico, simples sem nenhum adereço prático.

Com esta invenção, Charles Martel, então um nobre da corte de Luiz XIV, ficou cada vez mais rico, por ser o detentor de tão importante patente: a partir dela, o trabalho de retirar os pregos entortados na madeira ficou bem mais simplificado.

A França se orgulhava de ser o país de mais um invento importante. Charles Martel ficou famoso, sendo que seu país se transformou no maior exportador de martelos-de-orelha do mundo.

Vinte anos se passaram e Charles Martel já estava bem velho e senil.

Megalomaníaco, mandou construir milhares de martelos de ouro, de todos os tamanhos. Para curiosidade de seus contemporâneos mandou expor em praça pública um martelo de sua propriedade, pesando meia tonelada.

Cansado de tantas extravagâncias e já louco, assassinou com marteladas silenciosas toda sua família, aproveitando o sono inocente de sua mulher, de seus filhos e netos, que dormiam em seu castelo de verão.

Preso depois pela polícia imperial, ainda tentou reagir com um martelo na mão, mas não houve jeito de escapar.

Capturado, foi entregue a um juiz muito cruel, que sem dó, deu cem marteladas na tribuna, condenando-o a cem anos de prisão. Pouco tempo depois, Charles Martel morreria ali encarcerado.

Como não tinha deixado testamento, o Estado confiscou e leiloou toda a sua fortuna, composta basicamente de martelos de todos os tipos.

Assim, toda a riqueza do inventor do martelo moderno foi a leilão, gritado por um leiloeiro gorducho que, com um martelo na mão, ao final de cada arremate, martelava três vezes na mesa dizendo:

- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendido para o cavalheiro!

 

*Conto de Antonio Sodré, originalmente publicado na Revista Vôte!, em abril de 2001, pela editora Tempo Presente. Já publicado no tyrannus, em março de 2014

mario friedlander

sodrezinho

O poeta multiartista Antônio Sodré, também era conhecido como Sodrezinho. Nascido em Juscimeira, estabeleceu-se em Cuiabá na década de 70. Faleceu em fevereiro de 2011. Era chamado de "el poeta de la transmutácion" e cursou Letras na UFMT, onde manteve uma banca de livros. Foi um artista vigoroso e único, participando ativamente de diversos movimentos culturais. Atuou com destaque no grupo Caxemir-Bouquê, fundado em 1984. Deixou livros como "Besta Poética" (Entrelinhas) e "Empório Literário, Versos Diversos" (Carlini & Caniato). Que saudades do Sodrezinho

 


Voltar  

Confira também nesta seção:
29.11.21 20h00 » Contos dos bosques de Curitiba*
29.11.21 20h00 » De um livro a outro: corte e costura
22.11.21 18h36 » Entrevistas sobre uma obra prima
22.11.21 18h36 » Filósofo francês revolucionário
19.11.21 16h17 » Historinhas em tempo de lua
15.11.21 20h00 » Uma outra*
15.11.21 20h00 » Aliança*
08.11.21 19h00 » Presente de grego
08.11.21 19h00 » Seleção de frases*
01.11.21 17h00 » Baleia*
01.11.21 17h00 » A faca e a motocicleta*
28.10.21 16h32 » Cego dos “óio”
25.10.21 14h43 » Ícone da Geração Beat
25.10.21 14h43 » O afogado*
18.10.21 22h28 » O inventor do martelo-de-orelha*
18.10.21 22h28 » A orelha pouco explica*
16.10.21 11h57 » O que foi
16.10.21 11h33 » Breve notícia sobre um centenário II*
11.10.21 19h00 » Relações siamesas e/ou complementares?*
11.10.21 19h00 » Na floresta do alheamento*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:


  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet