ARTIGO

Convite à poética de Santiago Villela Marques



Este é um convite mais do que especial a todos os amantes de uma boa Poesia, aos apreciadores de poemas e aos praticantes de metáforas sensíveis. Invejo algo nos que ainda não pertencem a nenhuma dessas categorias diante da possibilidade do encontro e da troca sublimada de identificação inicial.

Para alguns de vocês, leitores, apresento; a outros, encontro ou desperto a lembrança. A todos falo alegremente sobre “santiagismos”, um dos meus assuntos favoritos.

Santiago Villela Marques foi um artista das palavras. Criou lendo, escrevendo e compartilhando a arte que habitou em si com tudo o que pode. Soma-se, em seu legado, contos e poemas reconhecidos por vários prêmios importantes no Brasil; narrativas infanto-juvenis, adultas, de mistério, de ação, de amor; poemas com métricas clássicas, escansões parnasianas, livres, poemas líricos, épicos, abstratos, concretos.

Sua biografia está pontuada pelos lugares em que publicou e – não incrivelmente, característica dos nossos tempos – é mais fácil encontrá-la do que seus textos: nasceu em São Paulo, mas o interior do Mato Grosso o escolheu para existir. Teve formação em Jornalismo e Letras, cursou percurso acadêmico, foi professor além de leitor e artista.

Suspirou e se foi.
Seu corpo não habita mais a Terra. 

Sua Arte, porém, paira infinita...

 

“No fim o Verbo”

 

Este convite é específico: à poética de Santiago, ao que se ornamenta em poemas, gênero literário que, infelizmente, é mais negligenciado na cultura leitora brasileira em comparação com os textos narrativos. Convido, portanto, de onde me encontro há alguns anos por labor e, principalmente, por prazer.

Sei que é necessário confiança ao gesto persuasivo da convidadora; logo, sigamos as argumentações.

A poética de Santiago existe como um cosmo próprio, um organismo configurado em encontro de corpos, consubstanciações, fecundações, partos e não-partos; elementos que, assim como a natureza, possuem uma lógica misteriosa e mística a nós, seres humanos, brutalmente reduzidos ao racional.

Assim, a planta, o bicho, o humano; a seiva, a garra, a carne; o sopro, o urro, o verbo participam de uma poiesis, de uma criação fortemente despertada pelo mítico. Pelos poemas, o mito emana em referência, em estilo, em estrutura, em imagem, implícito, explícito, e participa do que geralmente chancela um artista: sua autenticidade. O autêntico em Santiago configura-se, contudo, por uma ousadia elegante, uma rebeldia para os nossos tempos, que se dá não exatamente pela subversão, mas por uma espécie de resgate, em forma e conteúdo, que nos destina, enquanto leitores, a um encontro com o ancestral, o primevo, com uma condição quase molecular...

COMPENSAÇÕES 

Cigarra canta e estoura. É poeta. 

 

(Em Outro, 2008, p. 71)

 

Em forma, é possível traçar, pelos seus poemas, um percurso por experimentalismos marcados, nos movimentos literários, como “clássicos” e “tradicionais” até os mais modernos e contemporâneos. Descobrimos desde um regrado parnasianismo a poemas que flertam com o concretismo; sonetos e composições em versos livres e brancos; haicais e até uma epopeia lírica.  Por algumas vezes – em entrevistas e conversas informais – Santiago disse que experimentos estruturais como esses foram determinantes para a sua identificação como poeta. Sua paixão pela literatura o fez um leitor ávido – ou vice-versa? – e profundo admirador dos mais diversos jeitos de se fazer arte literária. 

Experienciar das formas mais variadas foi seu artifício concretizador de Poesia e que o registra com “um poeta poetizante”, aquele que “renuncia a falar de si para falar de um mundo em que se perdeu para aí aparecer apenas como um simples elemento.” (DUFRENNE, 1969, p. 119. Grifo meu).

É possível acharmos contraditório considerar uma poética autêntica que se edifica nas formas clássicas. Contudo, não podemos ignorar os limites formais: o que mais pode ser feito em termos de estrutura poética hoje? É a forma que determina a autenticidade? Percorrendo a poética de Santiago, fica evidente que há uma racionalidade formal, por vezes quase obsessiva, com ricos exemplos das mais variadas figuras de composição, e isso pode ser determinante para um estilo poemático nos tempos em que muito se exige uma performance “original” (e inexistente...). 

Santiago trouxe uma poética legítima ao criar com racionalidade formal onde o hit do momento é fingir que existe liberdade da forma.

Um parnasianismo romântico, um barroco modernista, um arcadismo lírico, chamemos como quisermos. Os poemas são nossos e são muitos!

Em conteúdo é que a poética de Santiago se espraia infinita. A presença mítica antes citada não vem na roupinha classicista das narrativas de criação, nos feitos heroicos ou nas tragédias moralizantes: ela nos agarra pelo dentro e nos conduz para um encontro com a natureza naturante, para nossa condição de seres físicos, tangíveis, orgânicos. O mito está na potência metafórica das vozes poemáticas que nomeiam e que, nomeando, geram, fundam, parem a existência. As palavras nomeadoras partem de uma perspectiva etimológica, de devolução delas a sua condição primordial e instauram novas experiências afetivas para o Tudo gregário, automatizado, banalizado.

Infelizmente, tenho de ser redutiva e há muito mais em riqueza de poemas, possibilidades de leitura, análise e afetação do que consigo pontuar neste espaço. Fingindo ser possível resumir as imagens poéticas mais recorrentes da Poesia de Santiago, carinhosamente selecionei alguns poemas de acordo com os sentidos do corpo humano e os elementos da natureza que, para a minha experiência tanto crítica quanto fruitiva, afetam nas esferas sinestésicas.

Poemas de sentir. 
Com eles, assino este convite:

O sopro da metáfora e os cheiros da audição


Ar, vento, suspiro, verbo: “A voz abre caminho para que se dê uma nova presença dos seres: a re-presentação do mundo sob as espécies de significados que o espírito descola do objeto. A voz produz, no lugar da coisa, um fantasma sonoro, a palavra.”, diz Alfredo Bosi (2000, p.72. Grifos do autor e meu), e essa perspectiva da voz lindamente traduz muito do que encontramos pelos versos de Santiago. São “nova presença de seres”, “espíritos deslocados”, “fantasmas sonoros”, matérias invisíveis, mas profundamente sensíveis a percepções auditivas e olfativas. Assim, temos o ar elementar no sopro criador, no canto, no escavamento do corpo, nas presenças do Nada primordial e nos poemas com imagens metapoéticas. 

Suspiremos:

 MAYA

Tudo finge, o Ser é
mais que a solidez do Nada;
a certeza de uma fé
pela própria fé criada.

Tudo é sopro sob a lama,
pó que pensa estar sofrendo.
Nada é carne, nada é chama,
só desejo, medo e vento.

Tudo é pleno de vazio,
faz que existe e faz que passa,
corpo é sombra sem pavio,
nada é fogo, só fumaça.

Tudo mente e acredita 
que respira por mentir
e se empenha audaz na vida,
tempo a mais pra se iludir.

(Em Primeiro, 2004, p. 11)

 NATUREZA MORTA

Esta mesa sob a fruta
é mais fresca porque ressuma
o perfume de outras frutas.
A fome de cor e a gula
na pele é a madeira dura
da mesa que aveluda.
À mesa a fruta é desculpa
à beleza, que se procura.
Sobre a fruta e a mesa vetusta
a beleza é a luz madura
do sol a se pôr na ruga.

(Em Outro, 2008, p. 45)

GEOFÍSICA

O mundo é largo e profundo,
mais que Deus, que mora no escuro
e por isso não tem tamanho.

O mundo é grande e estranho,
já disse um boliviano 
contemplando a planície excêntrica
do seu observatório andino.

O mundo é curvo e difícil
e certeiro como o destino,
onde leva melhor o desvio
que uma certeza de estrada.
E ambos naufragam no nada.

O mundo é brumoso e sombrio
mais anda em nuvens que em chão
e esconde no núcleo uma luz
centrífuga e espectral
a que homens jamais chegarão.
Ninguém, nenhum, nunca e não
são os verbos com que nos seduz.

O mundo renova-se e cresce
como a hora mortal sobre as horas,
com o tempo que obra e fenece
na criatura que doura.
Tanto se expande, que sobra
como a vida, o sonho, o verso
que menos alcança o universo
quanto mais nele se doa.

E eu, que no mundo confio,
sou, como ele, incompleto.

Pleno, profundo e plano.

Um mundo de mundos

                       e vazio.

(Em Selvagem, 2013, p. 52-3)

 

O que queima no gosto

 

O lugar onde o fogo mais queima certamente está na lírica amorosa de Santiago, proficuamente criada no início de seus escritos. Essa lírica fantasia-se no erotismo, principalmente, mítico, na imagem de Eros, figura mitológica concebida da antiga Noite e do Vento, chocado do Ovo de prata no colo gigantesco da Escuridão: “Do Ovo saltou impetuoso o filho do Vento, um deus de asas de ouro. Chama-se Eros, o deus do amor; mas este é apenas um nome, o mais lindo de todos os nomes usados pelo deus.” (KERÉNYI, 2015, p. 24. Grifo do autor). Muitos dos poemas da lírica amorosa de Santiago figuram a potência impetuosa do amor em “dupla chama” – emprestando da expressão de Octavio Paz – com o amor contemplativo de Orfeu, deus da lira, cuja canção evoca o amor perdido, a morte, o separado de si. 

Pelas vozes líricas, portanto, nos encontramos com Eros, “esse demônio ou espírito no qual encarna um impulso que não é puramente animal nem espiritual. Eros pode confundir-nos, levar-nos a cair no pântano da concupiscência e no poço do libertino; também pode nos elevar e levar-nos à mais alta contemplação.” (PAZ, 1994, p. 45). Tal erotismo é, por vezes, quente ao sabor carnal da imagem, traz um gosto lânguido à boca do poema, e canta a nós, leitores, a surpresa da ausência do corpo e da presença da chama.

Saboreemos:

A NOVA CIÊNCIA

Eu, que, descrente de tudo que leio, 
acabo descrendo da própria vida, 
descubro que existe vida não lida 
quando minha mão descobre teu seio. 

Eu, que sempre me mantenho no meio 
pensando que vive mais quem duvida, 
sem crer no amor, pra não crer na ferida, 
quando te vejo despida, eu creio. 

Percebo que apenas sei se te sinto, 
ciência de homens e de poetas. 
Eu, um filósofo entre tuas pernas, 

crio universos e, qual deus faminto, 
escondo minhas mentiras secretas 
nas doces verdades de tuas cavernas.

(Em Primeiro, 2004, p. 102)

FELAÇÃO

Reza àquela língua que rega aquela vulva 
e tua beleza será água e tua alma muita
e não terás que te ocultar a tua coisa, a mais pura, 
que à guia do lábio se fez viva e por minha saliva 
descobriu-se e desabrochou na pele úmida. 

Rega aquela água que na minha oculta 
a reza de uma vulva que a pureza guia 
de enfrentar-se o lábio e o lábio sob aquela língua 
que desabrocha à saliva coisa muita 
e embeleza sobre a pele úmida almas em rima.

(Em Outro, 2008, p. 144)

VISITA NOTURNA

Saudade bateu na porta
e eu não tinha lágrimas para dar, 
comidas todas na minha própria dor sem ti. 
Consumi-as antes de perceber a ausência
de tua mão carente de minhas horas, 
nelas banhei tua branca aparição
depois que foste à rua
esquecida de pôr à mala tuas lembranças.
Sorvi-as em dois copos, 
um para ti, 
acostumado ainda dividir-me, 
distraído de ser só. 
Saudade bateu à porta 
e convidei-a, mãos vazias, 
a passear os cômodos povoados de teu gesto: 
teu ombro na almofada do sofá; 
teus dedos sobre o prato sem sobras;
na banheira teus pêlos entre espuma
- um dorme em curva fetal 
colado na memória do sabonete; 
as pernas, muitas, abraçando o travesseiro;
teus olhos atravessando paredes 
e pensamentos. 
Saudade bateu para a porta 
comovida e assustada, 
pediu desculpas 
do incômodo em hora inoportuna, 
não teve intenção. 
Triste, só buscava consolo,
alimento no pranto 
de qualquer amante malfadado. 
Nunca pretendeu 
o choro de um morto. 
Vestindo de novo 
o chapéu roxo,
voltou à noite a saudade 
e bateu a porta.

(Em Outro, 2008, p. 151-2)

 

O oráculo das águas

 

Gaston Bachelard, importante filósofo das ciências e das “materialidades”, é outro dos meus companheiros fiéis em muitas leituras da poética do Santiago. No seu livro A água e os sonhos (2013), Bachelard parece ler as imagens aquáticas dos poemas de Santiago quando diz:

 "A água é realmente o elemento transitório. É a metamorfose ontológica essencial entre o fogo e a terra. O ser votado à água é um ser em vertigem. Morre a cada minuto, alguma coisa de sua substância desmorona constantemente. A morte cotidiana não é a morte exuberante do fogo que perfura o céu com suas flechas; a morte cotidiana é a morte da água. A água corre sempre, a água cai sempre, acaba sempre em sua morte horizontal. (2013, p. 7. Grifos meus)."

 Me perdoem a longa citação, mas, eu não consigo, até o momento, atingir tal precisão numa possível análise. Na poética de Santiago, o elemento água e o sentido da visão aliam-se em profundidade e em horizontalidade nas imagens da condição inevitável da existência: a morte. Mote bastante recorrente, a visão oracular do morrer está também intrínseca à matéria. É, portanto, vertigem, tão clara pela obviedade do ciclo da vida; tão densa pelos mistérios inatingíveis dos fins.

Mergulhemos:

ESPERANÇA

Tu virás.
Tua chegada
é inelutável
como a sede no deserto.
Mas virás?
Na miragem
a água seca
tão logo o lábio a toca.

(Em Primeiro, 2004, p. 30)

A PRIMEIRA CHUVA

Espera a primeira chuva
rezando aos santos de junho
que a seca seja curta
neste chão que abrasa o luto 
que a tua carne sua. 

Espera a primeira chuva 
que o maior sentido oculto 
sob a casca da imbaúba 
explodirá em flor e fruto 
sobre a tua vida escura. 

Espera a primeira chuva 
Beneplácito dilúvio 
que embala tua chalua
trazendo-te à mão o mundo 
e ao resto a ruína. Muita. 

Espera a primeira chuva
A primavera de outubro 
que rubra aurora derruba 
templos, torres e muros
e diz: “Planta, A Terra é tua!”

(Em Três Tigres Trêfegos, 2010, p. 77)


PRAIA DO FUTURO

Um sonho amanheceu 
malandro na palmeira. 
A praia arma cadeiras 
para sentar o mar. 
O dia cheio 
de peitos e expectativas. 
No alto 
o sol 
abençoa sombra. 
Um pombo belisca 
a areia sonolenta. 
A barraca se encabeça 
num panamá de palha. 
Alguma mulher 
consente lambidas 
do céu ao oceano. 
Ondas. 
         Ondas. 
                     Ondas. 

O tempo espuma 
a pergunta: 
Quem somos? 

Nadamos 
e afogamos.

(Em A musa corrupta, 2018, p. 16)

 

Útero, pele, Gaya

 
Toda poética do Santiago apresentada até então tem morada. Ela habita o espaço do lar regido pela Mãe: Gaya, Terra, buraco, cova, regaço, todos signos que figuram casa de Ser. Assim, a mítica, os elementos naturais e os sentidos do corpo têm destino, têm peito de nutrir, tem colo de dormir. Terra e sua matéria física e tangível é o elemento unificador, não por uma condição absoluta, mas mais como uma batuta harmonizante da Poesia potente e concreta que herdamos de Santiago. A Terra é mão que bate, afaga, empurra, embala, segura, solta... Útero que gera e aborta e reafirma o corpo natural e naturante... Sagrada...

Compartilho um poema, um pouco mais longo, que além de figurar a Terra – em mito e em elemento –, condensa as demais imagens elencadas até aqui.

 Fecundemos:

Verbotrágica

I. Gênese

No início era a víscera.
Deus com sangue no espírito.
Depois foi o vício do assassínio
– Crucifica-o!
E as bocas eram poucas
a tanta fome.
Babélicas
as línguas se alimentavam das pedras.
No topo da torre
enterrado em segredos
Deus escreveu seu poema. 

II. Criação

Anjo fulminado
repouso o corpo em Tuas coxas
agora grávidas
de uma lágrima queimada
na água-luz de tua boca.

Sopra
a ver se nasço então
Teu barro semelhante.

III. Dilúvio

Como quem se cansou de sede
inventei meu afogamento.
Água nos olhos e orelhas
limpos de ouvir e ver.
A boca silenciada de abismo.
Depois
defunto lavado
lacrei o corpo numa arca ao mar.
Só para ao sol levantar na praia.
Que mal
  dita onda
      ou navio
        me devolveu? 

 IV. Túmulo

Se a tudo digo
Que fome de plantar!”
é por haver decerto engolido
mais terra a boca aberta
e grão algum.

Gozo da cova:
Tudo a chuva sepulta.
E aduba. 

V. Fecundação

A lua
é mais calada
se abre a boca toda –
branca palavra muda. 

(Em Selvagem, 2013, p. 48-9-50)

 

Onde encontramos seus livros?

 

De se folhear entre os dedos, os textos de Santiago, além de nas antologias organizadas pelos prêmios que recebeu, estão em livros físicos distribuídos, por ordem cronológica, em:

 - Ângulo Bi (2002, contos. Edição e publicação em coautoria com Marcelina Oliveira, Paulo Sesar Pimentel e Gisele Mocci);
- Primeiro (2004, poemas. Edição e publicação de Santiago);
- Outro (2008, poemas. Edição e publicação de Santiago);
- Três Tigres Trêfegos (2010, poemas. Edição e publicação em coautoria com Henrique R. A. Alves e Juliana R. Aaestrup);
- Correspondências (2012, contos. Publicação da editora Carlini & Caniato);
- Selvagem (2013, poemas. Publicação da editora Carlini & Caniato);
- Sósias (2015, contos. Publicação da editora Carlini & Caniato);
- A musa corrupta (2018, poemas. Publicação da editora Carlini & Caniato).

Hoje (julho de 2021), disponíveis para aquisição estão uma versão digitalizada do livro Primeiro, em domínio público no site da Universidade Estadual de Mato Grosso – UNEMAT, no link de acesso http://sinop.unemat.br/site/2014/03/primeiro-poesia-de-santiago-villela-marques/ ; e o livro A musa corrupta, disponível para compra no site da editora Carlini & Caniato. Coincidências à parte, primeiro e último livros de poemas publicados por Santiago, sendo A musa corrupta publicado postumamente.

Já que me autoincumbi a convidar e instigar vocês à leitura, pontuo algumas características interessantes em ambos os livros. 

Em Primeiro manifesta-se a poética mais experimental de Santiago e por motivos óbvios: são os primeiros registros de um poeta que se descobre poeta. Nos encontramos com muitas das formas clássicas da Poesia – do parnasiano ao moderno, como disse anteriormente – e com as imagens que sancionam o estilo de Santiago por toda sua poética. Destacaria os sonetos por puro afeto pessoal...

Em A musa corrupta é perceptível uma poética fortemente crítica – tanto em forma quanto em conteúdo – que expõe o rizoma intrínseco entre o que muito se quer como oposição entre o objetivo e o subjetivo. É uma lírica engajada, numa metapoética autocrítica, em versos afetados e afetantes ao cenário do hoje, e sempre mítica, elementar, sensível. A corrupção anunciada no título é condutora da degradação do inspirador a serviço do labor do corpo no sentir e no trato poético, síntese – minha e bastante tosca, assumo – da Poesia de Santiago.

Os demais livros estão no mundo, nas mãos de seus leitores e de suas amizades, possivelmente em sebos e, por acaso da sorte mesmo, raramente disponíveis para compra em sebos virtuais. Foram edições com número pequeno de impressões e que o próprio Santiago vendia e, na maioria das vezes, distribuía generosamente a quem pedisse. Essa generosidade imanente... 

Parece até estupidez indicar leitura de livros difíceis de encontrar. Nos nossos devaneios de leitores, ensejamos reimpressões e reedições, para que muitas e muitas mais pessoas leiam e compartilhem experiências de leituras e suprem essa necessidade humana de alteridade..., mas sabemos que o mercado editorial não funciona ao nosso bel-prazer e que existem mais coisas entre um livro e um leitor do que supõe a nossa v...

Pois bem, usemos a internet a nosso serviço. 

As redes sociais são um importante veículo de publicação e compartilhamento para o nosso momento no tempo, e alguns de nós estamos dedicados a alimentarmos nossos feeds com poemas de nossos poetas afetantes, além da existência de blogs – como este! – e outras páginas que, eventualmente, abrem espaços para divulgação.

Outro lugar de acesso aos textos são os estudos acadêmicos que os centros de pesquisa em literatura publicam. Já é possível encontrar alguns artigos com estudos tanto das narrativas quanto dos textos poéticos de Santiago em plataformas digitais diversas. 


Destaco três trabalhos de pesquisa significativos:

 

- Eneida, de Virgílio, e “Roma Amazônica”, de Santiago Villela Marques: convergências e divergências a partir do conceito de entre-lugar literário, dissertação de mestrado produzida por Lany L. B. Moura – lanyletras@gmail.com –  que faz uma importante análise da epopeia lírica “Roma Amazônica”, presente no livro Três Tigres Trêfegos, um longo poema que certamente representa toda obra poética de Santiago em termos de estilo e que canta – entre diferentes lentes de leitura – o processo de colonização do norte de Mato Grosso aos moldes das epopeias clássicas, porém fortemente carregado de um lirismo trágico registrado num “nós lírico” autêntico às produções contemporâneas. O trabalho está disponível no banco de dissertações do Programa de Pós-Graduação em Letras da UNEMAT de Sinop-MT;

 - O civilizado no selvagem: marcas do pós-modernismo na poesia de Santiago Villela Marques, monografia produzida por Beatriz V. Boffo –  beatriz.valdeviezo@gmail.com – que traça um paralelo entre as imagens que figuram o humano nas escalas do primitivo ao civilizado contemporâneo nas composições poéticas do livro Selvagem. O trabalho está disponível no banco de monografias da UNEMAT de Sinop-MT;

 - A mitopoética consubstancial de Santiago Villela Marques, dissertação de mestrado produzida por mim, Iouchabel S. de F. Falcão – iouchabel@gmail.com – com um percurso pelas recorrências em formas e imagens do divino, do sagrado, da natureza e do metapoético em poemas de três de seus livros. O trabalho está disponível no banco de teses e dissertações da UFMT.

 (Deixo o contato para todos que forem tocados ou convencidos por este convite e desejem mais informações ou compartilhar experiências de leitura.)

Para além das formalidades e burocracias acadêmicas, a cientificidade da cultura e da arte permite-nos o que considero de mais importante na literatura: partilhar e, assim, eternizar humanidades, nos encontrarmos na palavra e nos afetos que ela gesta e pare, gestos autenticamente “santiaguianos”. 

Data e local do evento:

A quem chegou até aqui no regozijo, nos sentimos na Rua Poesia, na hora que a Lira toca.

Com afeto e Poesia:
Iouchabel Falcão,
Aspirante à desencoscoradora de palavras,
“duro mas útil ofício” – (E. Gilliard).
Julho de 2021.

Referências citadas

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. 8 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
DUFRENNE, Mikel. O poético. Tradução de Luiz Arthur Nunes e Reasylvi K. de Souza. Porto Alegre: Globo, 1969.
KERÉNYI, Karl. A mitologia dos gregos: a história dos deuses e dos homens. Tradução de Octavio M. Cajado. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
PAZ, Octavio. A dupla chama. Tradução de Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1994.

 

santiago

Santiago Villela Marques (1967-2018) é o pseudônimo de Paulo Sérgio Marques, natural de São Paulo-SP, que mudou-se para Sinop (MT) com sete anos de idade. Publicou livros de poesia e de contos algumas de suas obras conquistaram premiações nacionais, entre elas, o Prêmio Sesc Monteiro Lobato de Conto Infantil (1º lugar, em 2009 e em 2010), o Prêmio Sesc Machado de Assis de Contos (2º e 3º lugares, em 2009 e 2011, respectivamente), o Concurso de Contos de Ituiutaba Águas do Tijuco (1º lugar, em 2012) e o Prêmio Cataratas de Contos e Poesias (3º lugar, em 2015). A foto acima foi reproduzida do site http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com/

 

 

iouchabel

Iouchabel Falcão é doutoranda em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMT), na área de concentração dos Estudos Literários e dedicada à pesquisa da lírica contemporânea. Quando acorda, devaneia no blog Sarau às Três da Tarde: https://sarauas3datarde.blogspot.com/ . É literática, fáunica, flórica e, às vezes, proparoxítona nas horas cheias

 


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