POESIA

Guilherme R. B. de Araujo

Pesadelo com a inocência das mãos*

 

as mãos, surdas às trombetas do fim,
lavam a louça sob os estalos de tiros.
não há sinais de melhora e, entretanto,
laboriosas, prosseguem as mãos.

compram e vendem o pão,
quebram os ovos, entregam o jornal,
tiram e embalam o leite.

é bem possível acordar de madrugada
surpreendentemente vivo
num continente pouco a pouco devastado
enquanto os mortos são jogados no mar.

 

*Reproduzido de https://escamandro.wordpress.com

 

Guilherme Rocha Braga de Araujo, poeta brasileiro


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