Niemeyer



Glorinha Albues

A notícia da morte do Niemeyer, pelo site do Tyrannus , me pegou assim de jeito. Com a idade que ele tinha já era uma morte mais que anunciada. A gente sabia que podia acontecer a qualquer hora... Poderia ter sido ontem, anteontem, há uma semana atrás, amanhã, no próximo mês, ou quem sabe, no próximo ano...

Gente como o Niemeyer não tem tempo certo pra morrer, faz parte daquela coisa da física quântica: o tempo não existe; o tempo é uma invenção humana. E inventar era o seu prato de cada dia, e dizem, também - uma, ou seriam duas ? - doses de Whisky, no final da tarde. O que eu quero dizer, com muita honra, é que conheci o Niemeyer de perto. Na verdade fomos vizinhos.

Explico. Há uns quinze anos eu tive um câncer de mama e após a operação feita por um onconlogista cuiabano fantástico, o meu querido amigo Guilherme Bezerra , resolvi fazer as sessões de radioterapia no Rio de Janeiro . Afinal depois de um câncer, achei que precisava estar próxima do mar, sentir a sua força, deixar-me embalar pelas suas ondas. O mar é o mar, não precisa de adjetivos. E não há lugar como o Rio de Janeiro pra gente dar gracias a la vida, como cantava Violeta Parra.

Alfredo, meu marido, com a prontidão que seu amor me dava, tratou logo de alugar um apartamento na Av. Atlântica, ali no Posto Seis. Todo dia, muito cedo, eu caminhava pela orla pois não podia pegar o sol depois das sete horas da manhã. Foi assim que aconteceram os meus encontros diários com o Oscar Niemeyer, pois ele chegava também muito cedo ao seu escritório, que era - advinha onde? Ao lado do meu prédio, no Posto Seis. Eu o via praticamente todos os dias, descendo do carro e entrando no edifício do seu escritório. Por absoluta timidez nunca consegui falar com ele. Imaginei muitas vezes, como eu o interpelaria, as palavras geniais que eu diria, a expressão da minha admiração incondicional, etc, etc... mas não deu, ou melhor, não consegui.

Sou uma pessoa muito tímida, embora muitos não acreditem. O fato é que vivi esse ritual platônico, em plena luz do sol na Cidade Maravilhosa. Um dia até achei que ele tinha me percebido. Pode não ter sido verdade, mas, para mim, uma verdade inventada é a mais pura realidade. Enfim, tô de luto, como imagino, todo o povo brasileiro. Mas, como ele mesmo dizia, a vida é um sopro. Há um provérbio cigano que fala a mesma coisa : "O homem foi criado pelo sopro de Deus. A vida se mantem pelo sopro e com ele se despede ". Afinal , toda morte é anunciada, na hora mesmo que acabamos de nascer. Viva o Oscar Niemeyer! E muitas, muitas palmas.

Ps: Gostaria, como o Lorenzo, que estas minhas mal traçadas linhas fossem lidas ao som de Dave Brubeck.
 

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1 Comentrio(s).
Glorinha só você para expressar sentimentos de forma limpa, direta e rica de sentimento que nos faz sentir normais. Parabéns você continua sendo dumaravilhosamente maravilhosa. e espaço também
enviada por: edward bertholine de castro     Data: 09/12/2012 20:08:00

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