O berro ou urro do poeta Nicolas Behr



masutti

Com esse sobrenome que parece um berro ou um urro, um grito no escuro, um soco ou um murro é o poeta de quem quero falar. Quero, mas não preciso. Preciso, mas não quero...quero um poema preciso que encontro em seu livro, que se chama “Umbigo”. Nome sucinto que foi escolhido a dedo. Dedo no umbigo, na orelha, no nariz... Nicolas é mais um poeta sujo deste país.

Escreve sobre a sujeira da crítica literária, as críticas ordinárias, que segundo o dicionário são o que estão na ordem natural, costumeira, habitual. Veja que até o Aurélio faz rimas, mas não são necessariamente poesia. Poeta Marginal escreve poema visceral, sem preocupação nenhuma com a minha, nem a sua opinião. O poeta tem a antevisão e usa a palavra como forma de expressão, coisa que aqui ninguém tem, expressão nenhuma, nem na cara, nem na fuça. O poeta desarruma, muda a ordem habitual (a estrutura), aliás, hábito é algo em demasia neste mundo atual. A hipocrisia também está em uso (e abuso) nesses dias. Por isso falo hoje do Umbigo, não do de Nicolas, nem de Narciso, mas se for preciso, mostro o meu aqui mesmo, para que você tire os olhos do seu e veja o que acontece á sua volta.

O mundo dá voltas, mas parece parado e é feito de fatos. Só a poesia pode ser novidade, numa cidade que parece esquecida. Esta é Cuiabá, de onde saiu Nicolas que foi parar em Brasília... ou melhor, foi movimentar a Braxília. Escrevo este texto num ritmo metrificado da poesia, que nos livros de Behr pode ser sim medida com fita métrica, tamanha sua abundância poética, sem a concordância patética de alguns escritos que vejo por aí, porque o poeta não concorda, mas contesta e se arrisca a levar um tiro na testa e morrer de tanto rir.

Mas a poesia deste poeta tem uma forma estética muito interessante, ao ler seu poema (incessante) que é maior que um soneto, sem tercetos ou quartetos acabo escrevendo deste jeito, correndo pelas teclas e pensando bem depressa para que a palavra não me fuja e as ideias tão confusas de poeta sejam o ponto de partida para sua leitura acelerada e bipartida. Porque a poesia é sempre de duplo sentido, assim como a vida.

A experiência que tive lendo o Umbigo do Nicolas foi importantíssima para minha escrita, portanto seria de suma importância também, mostrá-la á você que agora me lê. Mas se chegou até aqui, não precisa de dica ou conselho, pois ousar ler esse texto é o mesmo que ler seu poemeto.

Quem se arrisca a fazer isso, já tem meu respeito, pois saiu do mais do mesmo e agora, estou certo, passará a ler a poesia de que tanto falo, pois sugiro que procure este livro que se chama Umbigo, que não é definitivo nem te dá respostas, pois esta não é a tarefa da poesia, um bom poema te traz dúvidas e abre portas, para que procure sozinho suas respostas. Só digo que Umbigo pode ser um bom início. Depois busque os escritos dos poetas de que já falei, aqui mesmo nesta folha, pois os bons poetas se complementam e no fim, fazem o mesmo que os filósofos, geram conflitos para que reflita e faça suas escolhas.

Ainda bem que tenho este espaço, este pedaço de papel onde faço um buraco no jornal, para que você entre como a Alice, atrás do coelho e encontre neste texto, um abismo abissal e passe a procurar pelas perguntas e não pelas respostas. Este é um método não usual, assim como é o poeta de que falo hoje, que não pode ser normal. Nicolas além de livros, escreve nas escadarias de Braxília ou de qualquer lugar, pois cada verso é um degrau, que talvez não leve até aquele local que espera, mas espero que leia e tenha como eu, uma bela experiência, porque a poesia de Behr é mesmo experimental.

Dito isto, encerro meu texto que não é crítica, mas que incentiva á leitura da poesia, que gera senso crítico e torna o homem um pouco mais pensativo, vivo. Agora tire os olhos do seu, do meu, do umbigo do meu amigo (que não conheço) chamado Nicolas e os passe pelo livro que falei desde o início, ou outro qualquer, desde que seja poesia de primeira, que é aquela que incomoda de uma maneira não costumeira e passa uma rasteira em suas certezas.

Aqui vai apenas um trecho do poema de Nicolas Behr, que toma conta do livro inteiro:

“(...)minha poesia destrói tudo o que ama/minha poesia brota do papel como sementes/brotam do chão/minha poesia é o alicerce da casa do poeta/minha poesia é imitação de truques e modismos,/disse um crítico frustrado, infeliz e invejoso/

minha poesia tenta dominar seus demônios na unha. não consegue. minha poesia não tem unha/minha poesia é tão dolorida/que não deixa a vida sorrir/minha poesia se impõe pela força bruta da poesia/minha poesia está contaminada pelo vírus/do orgulho, do egoísmo, da soberba e da altivez/minha poesia não passa de uma simples hipótese/minha poesia não é alegre nem triste. nem é poesia/minha poesia adora brincar de morrer./vamos brincar? eu sou a faca e você é o sangue/minha poesia tem vergonha por ser honesta/minha poesia, ela sabe: poesia assim como esta/você também escreve/minha poesia passa imune entre blocos e quadras/minha poesia agora só lê comédia./tá lendo uma divina/minha poesia limita a militância militar/minha poesia tem uma dívida impagável com a tradição poética que ela mesma renega/minha poesia tem plena consciência de que está/escrevendo um clássico da literatura ocidental/minha poesia tem nojo de colunistas sociais/minha poesia é crematório, cinza das horas/minha poesia não é de confiança: o poeta abaixa/as calças na hora de receber o prêmio/minha poesia passa da teoria à prática e se mata/

minha poesia está a serviço do ego do poeta(...)”

*Vinícius Masutti é poeta

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