LEITURA

Ler em um formato diferente é ler pior?



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Estudo coordenado por especialista da Noruega comparou as leituras impressa e digital e concluiu que alunos do ensino médio, que leram a versão impressa, tiveram entendimento melhor dos textos, principalmente na hora do ordenamento cronológico

O circuito neural que nos dá a capacidade cerebral para ler está mudando rapidamente para todos. Tablets, computadores, laptops, Kindles e celulares estão substituindo os antigos livros, promovendo uma transformação silenciosa em cada um de nós. O ser humano não nasceu para ler. A aquisição da alfabetização é uma das conquistas mais importantes do Homo sapiens. O ato de ler reorganizou completamente um circuito de nosso cérebro. Mudou a própria estrutura das conexões neurais e isso transformou a natureza do pensamento humano. Em 6.000 anos, a leitura deu impulso ao nosso desenvolvimento intelectual. A qualidade de nossa leitura não é apenas um indicador de nosso pensamento, é a melhor maneira que conhecemos para desenvolver novos caminhos na evolução cerebral de nossa espécie. Mas, como mudou a qualidade de nossa atenção à medida que lemos mais e mais em telas e dispositivos digitais? Este processo vem sendo reforçado durante o confinamento. Nossa capacidade de percepção estará, como afirmou o filósofo Josef Pieper, diminuindo ao nos depararmos com um excesso de estímulos e informações?

Em seu livro "O Cérebro no Mundo Digital - Os Desafios da Leitura na Nossa Era" (Editora Contexto), a neurocientista Maryanne Wolf, diretora do Centro para a Dislexia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, observa que no cérebro impera uma máxima: "Use essa capacidade ou perca-a". Assim, cada meio de leitura beneficia alguns processos cognitivos em detrimento de outros. Wolf lança uma pergunta: a mistura de estímulos que distraem continuamente nossa atenção e o acesso imediato a várias fontes de informação dá ao leitor menos incentivo para construir suas próprias reservas de conhecimento e pensar criticamente por si mesmo?

A plasticidade do nosso cérebro nos permite formar circuitos cada vez mais extensos e sofisticados, dependendo do que lemos e em que plataforma o fazemos. Como sugeriu o psicólogo cognitivo Keith Stanovich, aqueles que não leram muito e bem terão menos bases para a inferência, a dedução e o pensamento analógico, ficando propensos a serem vítimas de informações falsas ou não comprovadas. Wolf acredita que não vemos mais nem ouvimos com a mesma qualidade de atenção porque vemos e ouvimos muito e, além disso, também queremos mais.

Ela mesma vivenciou a mudança. Teve que se esforçar para reler "O Jogo das Contas de Vidro", de Hermann Hesse, um dos livros que a marcaram em sua juventude e que lembrava que não era especialmente leve. Depois de um primeiro fracasso, teve que definir períodos de leitura de 20 minutos para terminar o livro, o que lhe tomou duas semanas. “O ritmo vertiginoso com que eu costumava ler meus gigabytes diários de informações não me permitia parar o tempo suficiente para entender o que Hesse estava transmitindo”, escreve ela em "O Cérebro no Mundo Digital".

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A plasticidade do nosso cérebro nos permite formar circuitos cada vez mais extensos e sofisticados, dependendo do que lemos e em que plataforma o fazemos

A linguista Naomi Baron é, com Wolf, a ponta de lança dessa questão nos Estados Unidos. Baron comenta que os jovens trocam de mídia 27 vezes por hora e, em média, consultam o celular entre 150 e 190 vezes por dia. Por sua plasticidade, afirma o neurocientista argentino Facundo Manes, o cérebro se adapta às mudanças ambientais e a atenção que dedicamos aos avanços possíveis graças às novas tecnologias nos faz enfrentar uma nova maneira de processar informações. O cérebro tem que se adaptar a essas mudanças, e as crianças e os jovens que estão crescendo entregues às novas tecnologias possivelmente desenvolvam e potencializem a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo "em detrimento de outras habilidades”.

Nem todos os especialistas concordam com essa tese ou acreditam que nossa leitura seja afetada pelo formato escolhido. A Comissão Europeia quis fomentar o debate, por isso, apoiou entre 2014 e 2018 (com um milhão de euros no total, cerca de 6 milhões de reais) o projeto E-Read, que financiou 200 professores universitários de toda a Europa para estudar o assunto e se reunirem regularmente. Anne Mangen, do Centro de Leitura da Universidade de Stavanger, na Noruega, foi uma das coordenadoras do grupo. Vários estudos merecem destaque nessa experiência, dois deles da própria Mangen: ela comparou o entendimento impresso e no Kindle de um conto apimentado e de outro de mistério de 28 páginas (o mais longo estudado até o momento) entre um grupo de alunos do ensino médio. Concluiu que os alunos que leram o livro impresso entenderam melhor as duas histórias, principalmente na hora de ordená-las cronologicamente.

Ladislao Salmerón, professor de Psicologia Evolutiva e Educação da Universidade de Valência, foi com seu então estagiário, Pablo Delgado, o autor do estudo mais relevante da equipe conhecida como Grupo Stavanger. Eles realizaram um metaestudo de 54 estudos realizados entre 2000 e 2017, com um total de 170.000 participantes de diferentes idades, que demonstra que a compreensão de textos expositivos e informativos (não narrativos) é maior quando são lidos em papel do que em mídia digital, especialmente se o leitor está com um tempo de leitura limitado. “O que descobrimos é que, em igualdade de condições, sistematicamente se entende melhor o que é lido em papel”, diz Salmerón. E o que mais o surpreendeu: quanto mais jovens as pessoas, maior a diferença de compreensão entre os dois formatos.

Durante a década passada, houve um importante esforço para aproximar as telas das escolas. O projeto One Toplap per Child, planejado para reduzir o fosso digital, levou minicomputadores para crianças do Uruguai a Ruanda. Outros projetos os levaram a Glasgow ou ao Estado do Kansas. Também na Espanha houve esforços para aproximar a tecnologia dos pequenos. O Governo da Andaluzia entregou um minicomputador a 390.000 estudantes. Salmerón, que está em contato com a comunidade educacional, diz que recebe cada vez mais pedidos para falar sobre os possíveis efeitos negativos da leitura excessiva nas telas. "A tecnologia entrou nas escolas levada por esperança e fé", diz Anna Mangen, "e muita gente tem vergonha de se tornar antiquada vetando a tecnologia". Ladislao não se esquece da reação de um alto funcionário dinamarquês que participou de uma das apresentações do Grupo Stavanger: "Mas o que fizemos?”.

Um dos assuntos que preocupam os especialistas em ensino é o efeito que essa nova maneira de ler pode ter nas universidades. Uma pesquisa realizada por Baron e Mangen com professores universitários dos Estados Unidos e da Noruega, que será divulgada no próximo ano, revelou que 40% dos 150 entrevistados pedem aos alunos menos leituras que antes e um terço deles respondeu que fazia isso porque diretamente não liam o que lhes pediam que lessem. No total, 81% afirmaram que em sua opinião a tecnologia digital está levando os alunos a leituras mais superficiais.

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Aqueles que não leram muito e bem terão menos bases para a inferência, a dedução e o pensamento analógico, ficando propensos a serem vítimas de informações falsas ou não comprovadas

Distintos graus de interesse na Europa

Antes de decretar o estado de alarme, Salmerón preparava um estudo com cerca de 100 estudantes universitários para detectar, por meio de um eletroencefalograma, o nível de atenção durante a leitura em formato impresso e digital (o financiamento era do BBVA). Atualmente, ele está computando os resultados de uma pesquisa com 4.000 espanhóis sobre as mudanças nos hábitos de leitura durante o confinamento. O professor acredita que, embora o aumento da leitura digital ajude a se chegar a alunos que, de outra forma, não teriam acesso às leituras em papel, é urgente encontrar soluções para limitar os efeitos negativos que o formato digital tem na compreensão da leitura. Ele vê um contraste importante no interesse por essa questão em relação ao norte da Europa. Diz que, para fazer um estudo sobre o benefício da leitura nas telas, encontra inúmeros candidatos. Por outro lado, para estudar seu lado negativo, é difícil encontrar participantes e patrocinadores. Cita André Schueller-Zwierlein, responsável pela biblioteca da Universidade de Regensburg (Alemanha), por seu esforço na promoção da leitura profunda. Schueller-Zwierlein considera que as bibliotecas têm a responsabilidade de criar salas diferentes para diferentes tipos de leitura (em sua biblioteca há 13 salas diferentes) e promover o ensino das habilidades de leitura.

Há pouco mais de um ano, o Grupo Stavanger divulgou uma declaração resumindo os resultados obtidos pelos pesquisadores participantes. Um dos responsáveis ??pela redação, Paul van den Broek, especialista holandês e membro do grupo de profissionais que prepara o relatório PISA, destaca que não se opõe à leitura digital, mas ressalta que cada formato tem um público para o qual é adequado e que o assunto precisa ser aprofundado. A declaração defende a relevância do texto impresso para a leitura de textos longos, especialmente quando se trata de compreender em profundidade e reter informações.

Dentre as recomendações incluídas, três se destacam: 1) ampliar a pesquisa sobre as condições em que o aprendizado e a compreensão em textos impressos e digitais aumentam ou diminuem, 2) o ensino aos estudantes de estratégias de domínio da leitura em profundidade no ambiente digital e que as instituições educacionais motivem os alunos a ler livros impressos em sua grade curricular e 3) que os professores estejam cientes de que intercambiar o aprendido mediante papel e lápis não é indiferente à mudança para o digital.

Ler nem sempre é divertido. Implica esforço, diz Anna Mangen. “Devemos pedir evidências de que a leitura digital melhora a leitura”, diz a especialista norueguesa, que enfatiza: “É importante, pois é uma questão de saúde mental”. Como disse o visionário tecnológico Edward Tenner, seria uma pena se uma tecnologia tão genial acabasse ameaçando o tipo de intelecto que a tornou possível. (*reproduzido de https://brasil.elpais.com/ )

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O cérebro se adapta às mudanças ambientais e a atenção que dedicamos aos avanços possíveis graças às novas tecnologias nos faz enfrentar uma nova maneira de processar informações.


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