AÇÃO SOCIAL

Invisibilidade e fraternidade na crise



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O café solidário vem acontecendo na Praça da República, todos os sábados, a partir das 7 horas da manhã

Café Solidário. Uma ação voltada às pessoas em situação de rua em Cuiabá, na capital do estado de Mato Grosso, Brasil. Ele surgiu de ato solitário e silencioso. Lembro que familiares se opuserem e se mantiveram à distância. No início, não me auxiliavam nas ações e nem no preparo dos alimentos. Diziam ter medo. Eu os entendo. 

A princípio o café solidário ocorria de modo esporádico e em um formato onde eu, Juliano Batista dos Santos, então doutorando na UFMT, com uma caixa de isopor e uma garrafa de café, perambulava pelos pontos com maior concentração de moradores de rua na região Centro Norte da cidade. A finalidade era fazer-me conhecido ao máximo. 

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Passados alguns meses, a logística mudou. Por repetidas vezes dizia: “Em breve o café da manhã será na Praça da República, todos os sábados, a partir das 7 horas da manhã. Espero todos lá”. No primeiro dia, não apareceu quase ninguém. De tantos sujeitos, estamos a falar de centenas, apenas sete compareceram. Apesar de poucos, significou o marco zero de algo inesperado: a criação, no período de dois anos, de uma ação solidária em rede com mais de vinte colaboradores diretos e indiretos, inclusive pessoas jurídicas.

No intervalo de um, dois, três anos, o número de pessoas em situação de rua subiu, em média, de 40 para 60, de 60 para 90, de 90 para 120, respectivamente. Embora, não raro, tenha ocorrido casos, sobretudo em feriados em que o setor terciário estava fechado, onde mais de 180 sujeitos se alimentaram em uma única manhã de sábado. Nessas condições, a quantidade de alimentos ofertados a cada indivíduos se reduz pela metade. A proposta é atender a todos. 

A oferta de comida busca conciliar finanças, sujeitos atendidos por sábado e logística (do preparo ao transporte). Entre acertos e erros, percebemos que o denominador comum mais eficiente à tríade mencionada é a oferta de alimentos perecíveis, preparados no dia anterior ou poucas horas antes do café. Na praça, monta-se uma “mesa” onde as bebidas, bolachas e pães de mel ficam à disposição de todos. Os demais alimentos (pães, bolos e salgados) são entregues em mãos por um único colaborador que tem a tarefa de não permitir a ninguém comer duas vezes até que todos os presentes tenham recebido ao menos uma refeição. 

A comida dada a cada indivíduo, sua quantidade e direito a repetição, ou repeteco como eles gostam de chamar, é definida tão-somente ao chegar à praça. Ali, conseguimos mensurar como será o café. Quando percebemos que o alimento do dia será insuficiente bate uma apreensão, misturado com preocupação e tristeza. A falta de alimentos pode gerar bate-bocas, ofensas e ameaças. Um comportamento bem diferente de quando há alimentos em abundância.  

É um delicado jogo de equilíbrio e sorte. Tudo a depender de arrecadações e solidariedade dos envolvidos. Pouco antes do surgimento da pandemia causada pela covid-19, eram, geralmente, oferecidos 12 litros de leite, 12 litros de suco, 10 litros de café, 5 litros de chá, 1 quilo de margarina, 900 gramas de achocolatado, 2 formas de bolo, 8 pacotes de bolachas, 7 pacotes de pão de mel, salgadinhos e pães (recheados ou não). Também eram oferecidas pequenas porções de rações aos pets dos moradores de rua 

A chegada do coronavírus reconfigurou a maneira como servimos, o que servimos, onde servimos e a quantidade de alimentos (porções) servidas a cada morador de rua. Os impactos econômicos, éticos, psicológicos e político-jurídicos obrigaram-nos às mudanças e adequações.  A questão financeira e o medo sobressaíram-se em relação as demais. Houve um sábado sem refeição mês de março. Algo impactante aos colaboradores. Para se ter uma ideia, nos anos de 2018 e 2019, nem mesmo com as festas de final de ano, houve ausência de café aos sábados. Estávamos, a princípio, sem saber o que fazer e como fazer. A estrutura pensada e criada era incompatível com as exigências da vigilância sanitária. Optamos, então, pela inércia.

Um único final de semana foi suficiente para pensarmos e repensarmos. Decidimos oferecer alimentos industrializados e não perecíveis e, algo novo, material de higiene pessoal. Tudo entregue em pequenos kits. Os colaboradores em situação de risco ou com familiares nessa condição, passaram a auxiliar à distância com campanhas de arrecadação em redes sociais e entre familiares. O novo modelo onerou as ações. A oferta da refeição matinal, aos sábados de manhã na praça da República, foi suspensa para evitar tumulto e aglomerações. A logística de distribuição retoma às origens operacionais do Café Solidário, ainda em 2017: ir até os moradores de rua, nos pontos onde eles mais se concentram. 

A novidade é que agora, de dentro de nossos veículos ou a pé, entregamos os kits e saímos. Não há conversas, abraços, causos. Não há brincadeiras, calor e corpos se encostando. Há apenas silêncio e olhares. Às vezes um breve sorriso, tímido, ao conto da boca. Um tipo de afeto entre grades onde duas mãos se juntam sem se tocar. Sabem do perigo da pandemia. Demostram preocupação. Mantém-se a distância, mais para nos proteger do que a si próprios.

Seus dias seguem as rotinas. Não de isolamento, pois não têm casa; não de prevenção, pois não têm acesso à água; não de contato, pois precisam estar próximos ou em grupos para se protegerem. A vida para eles, em uma cidade onde administradores públicos pouco ou nada se importam com população de rua, é um jogo de sorte (estar no lugar certo na hora certa) e de solidariedade (motivada pela empatia e/ou fé). Tudo a depender de uma transmutação simples, porém difícil de ocorrer na época em que vivemos: ser apenas humano.

café juliano

*Juliano Batista dos Santos é doutor e mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT, especialista em Educação do Campo pelo IFMT, bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua como docente de Filosofia do Instituto Federal de Mato Grosso, campus Cuiabá

 


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