ENTREVISTA

“Não há nada mais contagioso que o medo”*



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Epidemiologista diz que o vírus é menos grave que a SARS [síndrome respiratória aguda grave, na sigla em inglês], que é o outro coronavírus já "experimentado" no mundo, e talvez mais facilmente transmissível

Antoni Trilla (Barcelona, 63 anos), chefe do Serviço de Medicina Preventiva e Epidemiologia do Hospital Clínic de Barcelona diz acreditar que as medidas adotadas até agora para conter o coronavírus de Wuhan foram adequadas, “levando-se em conta que não existe nem vacina nem tratamento contra o agente patogênico”. Define as quarentenas da China como “algo sem precedentes” e acredita que o sistema sanitário do seu país, a Espanha, está agindo corretamente para conter o avanço da doença: “Tentar a detecção de um possível caso viajante, isolá-lo e reduzir o risco de que ocorra uma transmissão aqui”. A Espanha, assim como o Brasil, ainda não tem casos confirmados do coronavírus. Na quinta-feira (30), um grupo com 19 espanhóis deixou a cidade de Wuhan e ficará em quarentena por 14 dias em um hospital militar em Madri.

Pergunta. Como avalia as repatriações dos espanhóis que estavam retidos em Wuhan?
Resposta. Não representam nenhum risco para a nossa população. Seria possível inclusive fazer essa quarentena em domicílio. A solicitação é lógica, e a considero totalmente aceitável.

P. A quarentena de quem chegará de Wuhan é um excesso de zelo?
R. Pelo que parece, decorre do acordo a que chegaram com a China. Não facilitavam a saída dos cidadãos se os países não se comprometessem a seguir uma quarentena. Por segurança, para cumprir esse trato, interná-los durante 14 dias com um regime tranquilo, pensando que não vai acontecer nada, me parece bem.

P. Pelo que sabemos do vírus, qual é o seu potencial?
R. A chave é o “pelo que sabemos”. Ele pode se comportar de diferentes maneiras, e há dados que podem mudar, ou coisas a serem ajustadas, num sentido ou em outro: a taxa de letalidade [em torno de 2%] provavelmente é calculada só em relação aos casos mais graves. Hoje há três cenários possíveis. Um: que se consiga conter a epidemia em alguns dias na China, e que sua magnitude diminua de maneira rápida. Acho pouco provável, mas não impossível. O cenário intermediário é que a prorrogação das medidas faça a epidemia durar de 12 a 14 meses, e que possa ser controlada. A terceira: que a epidemia não seja controlada na origem, que haja cadeias de transmissão em países que não podem tomar medidas como a China, e que o vírus se instale entre nós e seja mais um dos que nos dão problemas. Mas eu acho que este é o cenário menos provável.

P. Se ele se instalasse entre nós, seria comparável ao vírus da gripe, ao de uma pneumonia mais comum?
R. Eu diria que é menos grave que a SARS [síndrome respiratória aguda grave, na sigla em inglês], que é o outro coronavírus com o qual temos experiência, e talvez mais facilmente transmissível. Compará-lo a uma gripe é complicado porque muda todo ano, passa por mutações, afeta centenas de milhares de pessoas e tem uma mortalidade nada desprezível pelo número de afetados. Acredito que seja mais comparável à SARS, que desapareceu. Estará dando voltas por algum inseto pela Ásia, mas as medidas de controle nos países afetados conseguiram controlar as cadeias de transmissão.

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"Se levarmos em conta a definição de uma emergência, acredito que seja justificada. As infecções na China estão aumentando, e há vários países com casos importados" (Trilla)

P. O que significa a emergência internacional ativada pela OMS?
R. É a ativação de um artigo do regulamento sanitário internacional que autoriza duas coisas: dar avisos e/ou recomendações (não tem poder executivo) e, por outra parte, que no caso da China é pouco aplicável, permite mobilizar recursos tanto econômicos como humanos para ajudar o país de origem.

P. É acertada sua aplicação?
R. Se levarmos em conta a definição de uma emergência, acredito que seja justificada. As infecções na China estão aumentando, e há vários países com casos importados.

P. Quando seus amigos e familiares lhe perguntam se devem se preocupar, o que lhes responde?
R. Não temos esta doença na Espanha [No Brasil, até esta sexta-feira o Governo monitorava 13 casos suspeitos em seis Estados], e esperemos que, se houver um caso importado, seja detectado e controlado a tempo. Aqui estamos em plena epidemia de gripe. Devemos levar uma vida normal e tomar as mesmas medidas de precaução: não tussa na cara do vizinho, lave as mãos… É uma situação de normalidade para nós. Mas é preciso olhar com os olhos bem abertos para o que acontece na China e em outros países, para observar como evolui. Sobre viajar ou não, é uma recomendação muito variável: se for, as medida são também as habituais, talvez ali usar máscaras.

P. Há farmácias em várias partes do mundo onde as máscaras se esgotaram. Estamos exagerando?
R. Existe uma boa frase do filme Contágio [2011] que diz: “Não há nada mais contagioso que o medo”. Portanto, um apelo à calma. As pessoas podem fazer o que quiserem [como prevenção], mas não é de forma alguma necessário.


*Reproduzido de https://brasil.elpais.com/

 


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