ENTREVISTA

Cinco livros lançados, outros a caminho



diva miolo

 

Divanize Carbonieri é professora da UFMT e escritora, nascida no interior de São Paulo, mas radicada em Cuiabá desde 2011. Foi nesta cidade que ele emplacou sua carreira literária como autora. Em prosa e verso. Vem apresentando uma fertilidade incrível, desde que estreou em 2017, com seu primeiro livro.

Tem se destacado no cenário mato-grossense e também nacional. Na quinta-feira (22) uma notícia ribombou nas mídias sociais. O Prêmio Jabuti 2020 anunciou os finalistas em suas 20 categorias e, na de contos, lá estava o nome de Diva entre os dez finalistas. Leia no link abaixo a matéria sobre o Jabuti e também a relação completa dos finalistas.

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/noticias/13005/resultado-final-sai-em-26-de-novembro

Divanize é doutora em letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia "Entraves" (Carlini & Caniato, 2017), "Grande depósito de bugigangas" (Carlini & Caniato, 2018), "A ossatura do rinoceronte" (Patuá, 2020), e "Furagem" (Carlini & Caniato, 2020), além da coletânea de contos "Passagem estreita" (Carlini & Caniato, 2019), da qual, foi reproduzido este conto publicado no tyrannus em edição anterior. Confira o conto em...

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/cronicas/12818/ca-rebros

Na noite de quinta (22) acionei Diva, por telefone, convocando-a para uma entrevista e ela topou. Hoje (23) recebi as respostas e eis a conversa com a autora. Esta primeira foto é de Marli Walker, escritora e amiga querida, que saiu com Diva ontem à noite. Fica o meu agradecimento às duas por me ajudarem a alimentar o tyrannus com coisas boas, neste mundo que anda tão complicado, cheio de notícias ruins.

A conversação

Vamos começar explicando sua trajetória. Onde você nasceu e como veio parar em Cuiabá. E diga também se quando chegou aqui encontrou o que estava esperando encontrar. A motivação maior que te levou à literatura (como autora) é algo misterioso, ou você saberia discorrer sobre isso com plena certeza?

diva

Obra da autora selecionada entre os dez finalistas do Jabuti 2020, na categoria Conto

Nasci no interior de São Paulo. Depois me mudei para a capital para estudar na Universidade de São Paulo, onde fiz duas graduações, mestrado e doutorado. Em 2009, prestei um concurso para a Universidade Federal de Mato Grosso, Campus de Rondonópolis (hoje Universidade Federal de Rondonópolis). Lecionei ali por quase dois anos. Em 2011, fiz um novo concurso, dessa vez para o Campus de Cuiabá. Como fui aprovada, me mudei para a capital de Mato Grosso no mesmo ano e desde então resido aqui.

No primeiro concurso que prestei, apesar de ser para uma vaga no Campus de Rondonópolis, as provas aconteceram em Cuiabá. Nunca tinha estado em Mato Grosso antes. Naqueles dias, não tive muita chance de conhecer a cidade, pois estava concentrada para o exame. Apenas ao final, fui conhecer a Salgadeira na Chapada (que ainda não estava interditada, como depois ficou durante vários anos). Retornei para São Paulo e só voltei para Mato Grosso quando fui convocada alguns meses depois. Desembarquei em Cuiabá e peguei um ônibus para Rondonópolis. Ao chegar à cidade, me surpreendi positivamente. Também gostei muito de viver em Cuiabá posteriormente.

Vir para Mato Grosso foi uma das melhores decisões que tomei. Aqui me desenvolvi profissionalmente e pude, mais tarde, me dedicar à carreira literária, sonho que tinha desde a infância, mas que demorei bastante para realizar. Dediquei boa parte da minha juventude a me estabilizar na carreira acadêmica e só depois que isso aconteceu é que me atrevi a me arriscar na literatura. Escrevo desde criança, mas destruí tudo o que produzi por ter uma autocrítica muito rigorosa. Foi só a partir de 2015/2016 que eu parei de destruir o que escrevia e que comecei a mostrar para outras pessoas e publicar (meu primeiro livro foi publicado em 2017).

Como é essa história de escrever em versos e também enveredar-se pela ficção. Há mais prazer para a autora escrever assim ou assado? Como você se organiza intimamente nesse trato com as palavras?

Acho que tenho uma afinidade maior com a poesia. O fazer poético se aproxima mais do meu modo de pensar o mundo ou de me expressar no mundo. A narrativa sempre é mais dificultosa para mim, mas talvez por isso mesmo sinto mais satisfação de escrevê-la. Não durante o processo. Durante o processo de escrita, tenho mais prazer escrevendo poesia. Mas, quando concluo uma narrativa (ou um livro de contos, por exemplo), a satisfação é muito maior. Talvez justamente por ser mais difícil. Lembro novamente que a dificuldade não está no gênero em si (nenhum gênero é mais difícil ou mais fácil do que o outro). Tudo depende da autora ou autor, de como ela ou ele se sentirá diante de cada meio expressivo. 

Não sei se tenho organização íntima para nada. Acho que meu processo é sempre caótico, mas é possível que tenha alguma ordem que não percebo. Tanto na poesia quanto na narrativa tenho uma obsessão em explorar as potencialidades da linguagem. Então, nunca vai me bastar contar uma história só por contar. Às vezes o enredo já se desenhou na minha mente, mas enquanto não encontro a linguagem que me parece apropriada para contá-lo e também a perspectiva a partir da qual será contado, a história não se desenvolve. Gosto da expressividade e complexidade de todas as variedades do português, das mais cultas às mais populares, e gosto de pensar que posso tê-las à mão conforme seja necessário. A língua portuguesa é extensa e variada demais para que a gente fique presa apenas à forma padrão.


 

No ano passado (2019) você foi destaque no Off Flip nas categorias Conto e Poesia. Agora, em 2020, está entre os dez finalistas do 62º Jabuti, o galardão literário mais tradicional do Brasil, na categoria contos. Eu te conheci poeta, mas já começo a desconfiar que você está sendo tragada pela prosa. Pode ser que eu esteja redondamente equivocado... ou será que não?

Até o momento a minha produção mais extensa é na poesia, uma vez que tenho quatro livros publicados de poemas e apenas um de contos, justamente "Passagem estreita", lançado em 2019, que está entre os finalistas do Jabuti e que me possibilitou também estar entre os finalistas do Prêmio Guarulhos na categoria Escritor(a) do ano. Agora em 2020 tenho um outro livro de contos já no prelo, que deve sair em 20 ou 30 dias, antes do final do ano, portanto. Nas mesmas condições, tenho um livro de poesia voltado para pré-adolescentes, selecionado no Edital Estevão de Mendonça de Literatura. 

Meus planos para 2021 envolvem publicar dois livros de haicais, que estão praticamente prontos, e me dedicar à produção de mais um livro de poemas e possivelmente de uma narrativa longa, o que não significa que estarão prontos até o final do próximo ano. São apenas projetos. De qualquer forma, além de ter mais livros publicados de poemas, eu ainda tenho projetos para a poesia. Então, não pretendo abandoná-la pela prosa.

Sei que você é professora e isso absorve bastante o seu tempo. Mas imagino que, além de se dedicar ao trabalho autoral, também consome literatura. Você lê muito? Vai mais de poesia, ou de prosa?

Eu nunca acho que leio tanto quanto gostaria. Muita coisa que leio é pelo trabalho, para as aulas ou para a minha pesquisa acadêmica (sou professora de literaturas de língua inglesa, o que exige que leia principalmente obras escritas nessa língua). Muitas vezes as referências que me ocorrem mais rápido são de livros em inglês. Tenho apenas dois livros que têm epígrafes, "Passagem estreita" e o livro novo de contos que está para sair. Em ambos os casos, esses textos vêm de obras da língua inglesa. Em "Passagem estreita", trata-se de um trecho do conto “Hills like white elephants” de Ernest Hemingway. No outro livro, é um trecho do conto “Girl” de Jamaica Kincaid.

Mais recentemente, estou desenvolvendo um projeto na Revista Ser MulherArte, na qual sou editora-adjunta, para publicar semanalmente resenhas sobre livros escritos por mulheres. Já publiquei onze resenhas sobre autoras como Marli Walker, Sílvia Schmidt, Giovana Damaceno, Marta Cocco, Maya Falks, Sandra Godinho, Lu Ain-Zaila, Flávia Helena, Luciene Carvalho, ou seja, todas escritoras contemporâneas e brasileiras. Mas também faz parte do projeto a ideia de resenhar autoras do feminismo mundial. Já produzi uma resenha sobre "O mito da beleza" de Naomi Wolf, com a parceria de meus alunos da pós-graduação, e agora estou preparando um texto sobre "Calibã e a bruxa" de Silvia Federici.

Numa entrevista sempre tem aquela pergunta 'clichezão'. Vou encerrar com ela, pedindo para que cites autores que, ao longo da sua vida, como leitora/autora, te marcaram e te influenciam pelo caminho das letras...

Sempre acho difícil responder a essa pergunta porque acho que tudo o que li me influenciou ao mesmo tempo em que tenho a impressão de que nenhuma autora ou autor me influenciou mais que os outros. Já que mencionei as epígrafes dos meus livros na resposta acima, vou me referir mais uma vez a Ernest Hemingway. Hemingway tem um livro de contos chamado "Men without women" (1927), em que retrata homens, na maioria das vezes, fora das relações amorosas com mulheres. A exceção a isso é justamente “Hills like white elephants”, que tem como núcleo narrativo um conflito entre um homem e uma mulher que são namorados ou amantes. É uma das falas da personagem Jig (a mulher) que reproduzo como epígrafe em "Passagem estreita", justamente aquela emblemática em que ela pede insistentemente que o homem se cale.

Costumo brincar que "Passagem estreita" é o meu Women without men porque, nesse livro, eu quis explorar situações em que não são enfatizadas as relações familiares ou amorosas em que as mulheres estão envolvidas. Meu foco são situações em que elas contam apenas (ou principalmente) com os próprios recursos, sem depender do apoio masculino ou de familiares. Obviamente que, quando digo isso, é apenas uma brincadeira e não tive a intenção de fazer uma releitura do livro de Hemingway. Apenas pensei que, se ele podia escrever um livro com homens assim, independentes, eu também poderia escrever um em que as mulheres fossem igualmente independentes. 

divvvva

 

 


Voltar  

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet