LETRAS DELAS

O umbigo de Maria



Não me encontro em todas as metáforas do Chico Buarque, em poemas de Caetano, na melodia prestigiosa de um Gilberto Gil. Não é de Francis Hime, dos arranjos malucos de Tom Zé que me recordo; nem de Zé Ramalho, Ednardo, ou Zé Geraldo que falo quanto penso, de Belchior me traduzindo em ser humano. Quando leio de Luciana Hidalgo o “Rio-Paris-Rio”, vou para além de Zuenir Ventura e, de fato, chego à conclusão de que 1968 é mesmo o ano que ainda não acabou.

E pareço mergulhar nas páginas de Sérgio Ricardo para compreender algumas dessas razões: “As discussões tinham lugar no bar da Líder, que viu nascer o Cinema Novo. Nos vários arranca-rabos que presenciei naquele nascedouro, fui percebendo que Gláuber era o criador mais liberto, mais polêmico, lúcido, contundente. Genial. Ruy Guerra, o mais articulado, rebatia seu discurso com seu embasamento europeu, mas o baiano era duro na queda, e balançou mesmo os conceitos da época” (RICARDO, 1991, p. 148).

hidalgo

"Hoje ainda precisamos de faculdades críticas e criativas, afinal qual é a função social da universidade, qual o papel dos estudantes nas lutas revolucionárias dos países desenvolvidos..." (Luciana Hidalgo, em `Rio-Paris-Rio´)

Há na escritura de Luciana um quê de passado que insiste em se fazer presente. Não por despertar saudosismos inglórios, nem mesmo por aquele lugar comum de achar que as consequências daquele todo se fazem presentes em nossas vidas. Sem qualquer tipo de clichê estrutural, creio que a narrativa de que falo se inscreve em uma tradição que busca intermeios de se contar histórias factíveis, verificáveis a partir de pequenas (mas nem por isso) relações bilaterais escondidas por entre binômios clássicos, como por exemplo, o dos eixos Norte-Sul. 

Maria e Arthur são seres ambivalentes, personagens-tipo de um mundo que transgride a ordem natural das coisas. Trazer o maio de 1968 para falar do golpe de 1964 é buscar balizas espaço-temporais que nos ajudam a contar a história de nós mesmos. Da Sorbonne para os subornos; do Arco do Triunfo para os Arcos da Lapa. Do mediterrâneo como medida, para o Atlântico, enquanto condição. Esse cheiro de além-mar como expectativa de mudança. 

Penso no umbigo de Maria como o X marcado no chão do quarto, quadrado da personagem, moldura de uma geração de conflitos. Local circunvizinho a um espaço de questionamentos, de subversões: “Reúne o material humano disponível, pouco importa de onde cada um venha, apenas que carregue um trauma em relação ao seu país” (HIDALGO, 2016, p. 14). 

Há poucos experimentos de linguagem neste livro. A forma poética de determinados fragmentos, o jogo de movimento de palavras em cena (no caso, a página), são alguns desses conclaves estéticos. Talvez fruto da própria reflexão trazida à tona por quem narra a história. “Provável herança do pai fixado em Rimbaud, imagina. Os versos são excessivos, palavrosos, adjetivosos, por isso já propôs cortá-los, enxugá-los ali onde a umidade encharca, e, às vezes, estraga a poesia” (idem, p. 34). 

rioparis

 

A ideia de um correio arisco, que violava correspondências, de jovens que levantavam paralelepípedos contra os militares, dentre outros símbolos da resistência daquela juventude joga na cara do leitor a imagem de que “não existe paz-e-amor na barbárie” (idem, p. 100).  Mas não é desse passado que estamos falando. Em tempos de certo future-se, olhar para trás é buscar elementos cíclicos que perigosamente nos arrodeiam. “Hoje ainda precisamos de faculdades críticas e criativas, afinal qual é a função social da universidade, qual o papel dos estudantes nas lutas revolucionárias dos países desenvolvidos...” (idem, p.104).

Essência e existência, conceitos tardios emoldurados pelo existencialismo francês estão às voltas com as questões sugeridas pela leitura de Hidalgo. Cirurgicamente a narrativa nos embota conhecimentos enclausurados em meio ao revanchismo ideológico, ao pragmatismo pós-moderno, à liquidez de um reacionarismo que inibe manifestações políticas de profundidade para além da macroeconomia. O que faz com que aquele saudosismo a que me referi há pouco nos atire, feito tomates podres, à outra face mundana a da cena clássica: “Quando Sartre fez aquele discurso na Sorbonne, mostrando o quanto era importante incentivar o acesso de jovens operários à universidade... nossa, aquilo me emocionou” (idem, p. 120).

O livro também não tem um fim. As últimas páginas guardam dentro da gente segredos de uma intimidade corruptível. Luciana Hidalgo produz um autorretrato profundo de dependência cultural, mais do que qualquer outra coisa que eu possa sentir. Uma importante reflexão acerca dos mecanismos coercitivos de controle social. A ideia de que a continuidade histórica ainda perdura está materializada, a meu ver, na sucessão de imagens que finaliza a obra (das páginas 154 a 157), mediadas pelo uso inconteste de polissíndetos que prolongam a continuidade histórica da qual somos prisioneiros.

É como se eu estivesse agora, no saguão do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e me deparasse com Maria e Arthur, de volta ao Brasil. E a voz narrativa do romance olhasse fundo em meus olhos e me dissesse, de maneira tranquila e homogênea: “Tantas estradas retas, curvas, encruzilhadas, tanta peregrinações, solidões, distâncias, e o mundo termina aí, no umbigo de Maria, corpo-cidade, corpo-exílio” (idem, p. 157).

Não quero olhar para trás como única maneira de prolongar um ponto de vista. Mas se é para ter saudade, há tanto do que se lembrar, não é mesmo? A começar por Elis Regina sambando com os pés sobre a mediocridade que tanto nos subjugou. “O Brasil não conhece o Brasil”.

 

REFERÊNCIAS

HIDALGO, Luciana. Rio-Paris-Rio. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. 
RICARDO, Sérgio. Quem quebrou meu violão. Rio de Janeiro: Record, 1991. 


*Luiz Renato Souza Pinto é poeta e escritor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

 

 

 


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