Segunda, 01 de fevereiro de 2021, 18h00
PROSA
Serotonina (trecho de romance)

Michel Houellebecq

Aquelas garotas, especialmente a de cabelo castanho, poderiam ter dado um sentido à minha estadia na Espanha, e a conclusão decepcionante e banal daquela tarde nada mais fez do que destacar cruelmente uma evidência: eu não tinha motivo algum para estar lá. Havia comprado aquele apartamento com Camille, e para ela. Foi na época em que tínhamos projetos a dois, uma ancoragem familiar, um romântico moinho romântico perdido em Creuse ou sei lá o quê, acho que a única coisa que não planejamos foi a produção de filhos, e mesmo assim, num dado momento, faltou pouco. Aquela foi a minha primeira aquisição imobiliária, e até hoje a única.

Ela tinha gostado do lugar desde o início. Era uma pequena colônia de nudismo, tranquila, distante dos enormes complexos turísticos espalhados da Andaluzia até o Levante espanhol, e cuja população se compunha principalmente de aposentados do norte da Europa: alemães, holandeses, em menor número escandinavos, e, naturalmente, os inevitáveis ingleses, embora curiosamente não houvesse belgas, apesar de tudo naquela colônia (a arquitetura dos pavilhões, a distribuição do comércio, o mobiliário dos bares) exigir a presença deles, enfim, era de fato um lugar para belgas. A maioria dos moradores passara a vida profissional atuando na área de educação, ou no funcionalismo em sentido amplo, entre os quadros médios. Agora estavam terminando a vida de maneira aprazível, nunca eram os últimos na hora do aperitivo e desfilavam cheios de bonomia do bar até a praia e da praia até o bar, com suas bundas caídas, seus seios redundantes e seus paus inativos. Não se metiam em confusão, não provocavam o menor atrito com os vizinhos, estendiam com civismo uma toalha nas cadeiras de plástico antes de sentar no No problemo e se entregar, com uma atenção exagerada, à análise de um menu que no entanto era bastante breve (no interior da colônia de nudismo, uma cortesia esperada era evitar o contato, com o uso de uma toalha, entre o mobiliário de uso coletivo e as partes íntimas, possivelmente molhadas, dos consumidores).

Outra clientela, menos numerosa porém mais ativa, era formada pelos hippies espanhóis (adequadamente representados, como entendi com pesar, por aquelas duas garotas que tinham me pedido ajuda para calibrar os pneus). Um breve percurso pela história recente da Espanha pode ser útil aqui. Depois da morte do general Franco, em 1975, o país (mais exatamente, a juventude espanhola) se viu diante de duas tendências contraditórias. A primeira, que vinha direto dos anos 1960, dava grande valor ao amor livre, ao nudismo, à emancipação dos trabalhadores e esse tipo de coisas. A segunda, que acabaria se impondo nos anos 1980, valorizava, pelo contrário, a competição, o pornô hard, o cinismo e as stock options, enfim, estou simplificando mas é preciso simplificar porque senão não chegamos a lugar nenhum. Os representantes da primeira tendência, cuja derrota já estava prevista a priori, foram recuando pouco a pouco para reservas naturais como aquela modesta colônia nudista onde eu tinha comprado um apartamento. Por outro lado, será que afinal essa derrota prevista ocorreu mesmo? Alguns fenômenos muito posteriores à morte de Franco, como o movimento dos indignados, por exemplo, podiam nos levar a pensar o contrário. Assim como, mais recentemente, a presença das duas jovens no posto Repsol de El Alquián naquela tarde perturbadora e funesta — será que o feminino de indignado é indignada? Eu tinha conhecido, então, duas adoráveis indignadas? Nunca vou saber, não pude ligar minha vida à delas, e no entanto podia ter proposto que as duas viessem conhecer a minha colônia nudista, lá estariam em seu ambiente natural, talvez a morena fosse embora, mas eu ficaria satisfeito com a de cabelo castanho, enfim, as promessas de felicidade eram um pouco vagas na minha idade, mas durante várias noites depois daquele encontro sonhei que a garota de cabelo castanho batia na minha porta. Tinha voltado para me buscar, minha perambulação por este mundo havia chegado ao fim, ela veio salvar ao mesmo tempo meu pau, meu ser e minha alma. “E em minha casa, livre e audazmente, adentra como senhora.” Em alguns dos meus sonhos ela me explicava que a amiga morena estava no carro e queria saber se podia subir e ficar conosco; mas essa versão onírica foi se tornando cada vez menos frequente, o roteiro se simplificava e afinal não havia sequer um roteiro, imediatamente depois de abrir a porta entrávamos num espaço luminoso, inenarrável. Essas divagações se prolongaram durante pouco mais de dois anos — mas não vamos nos adiantar.

Por ora, na tarde seguinte eu teria que ir esperar Yuzu no aeroporto de Almería. Ela nunca estivera aqui, mas eu tinha certeza de que ia detestar. Sentiria nojo dos aposentados nórdicos e desprezo pelos hippies espanhóis, nenhuma das duas categorias (que conviviam sem grande dificuldade) se encaixava na sua visão elitista da vida social e do mundo em geral, toda aquela gente não tinha definitivamente um pingo de classe, e, de todo jeito, eu também não tinha a menor classe, só dinheiro, aliás bastante dinheiro, devido a certas circunstâncias que talvez descreva quando tiver tempo, e ao dizer isso estou dizendo tudo o que é preciso ser dito sobre minha relação com Yuzu, naturalmente eu tinha que me separar dela, isso era óbvio, e também era óbvio que nós nunca deveríamos ter nos juntado, só que eu precisava de tempo, muito tempo, para voltar a assumir as rédeas da minha vida, como já disse, e na maior parte do tempo era incapaz de fazer isso.

 

*Reproduzido do site https://www.companhiadasletras.com.br/ , pequeno trecho do romance "Serotonina", do escritor francês Michel Houellebecq, traduzido por Ari Roitman e Paulina Wacht. Lançado no Brasil em 2019 pela editora Alfaguara

mariusz kubik

houellebecq

Michel Houellebecq é romancista, poeta e ensaísta francês. É um dos autores mais importantes da literatura francesa contemporânea. Um dos mais traduzidos e controversos autores do seu país atualmente. Publicou, entre outros livros, os romances "Partículas elementares", "Plataforma", "A possibilidade de uma ilha" e "O mapa e o território", sendo este último, vencedor do Prêmio Goncourt de 2010, o mais badalado da literatura francesa

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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