LETRAS DELAS

De um livro a outro: corte e costura



Em primeiro lugar, quero dizer que se deve respeitar um livro que foi escrito ao longo de mais de uma década. Em tempos de modernidade líquida, como diria Bauman, este detalhe não pode passar despercebido. Em que pesem variações ao redor do tema, As Avessas, de Telma Scherer já nasce clássico pela (des) pretensão de ser superficial para cativar leitores. 

Penso estar diante de uma caixinha de música, com múltiplas divisões internas e comandos secundários que, a exemplo de hipertextos, conduzem o leitor absorto par seus conteúdos mais (ou menos) recônditos. Pareço percorrer um hebdomadário (para me conectar a tempos anteriores) em que me encontro com uma espécie de Alice que, transformando em maravilhas sua opacidade existencial, submerge para renascer vigorosa, mesmo que escorada por outras mulheres que bordam sua costura fina e elegante pelas hábeis mãos de outra tecelã.

Telma Scherer/Luísa Pianto, irmãs (ou seriam primas entre si?) conduzem o leitor por sete partes desse espelho fragmentado e fazem do azar da quebra do paradigma certo talismã. Pausa para me lembrar de Telma e Louise, outra espécie de aventura, entretenimento, algo avesso ao que me refiro neste instante. Estamos, caros leitores, diante de uma narrativa de ficção. 

Pena que os romances acabam e a gente tem que voltar para esse lugar branco e sem janelas que é o mundo das personagens. (...) Antes dos trinta, meus senhores, sem maquiagem e sem provas para corrigir – e sem essas coisas inúteis que a gente acaba carregando, como o medo e a virgindade. (SCHERER, 2021, p. 19).

Não me deixo enganar por essa narradora. Não quero crer que o mundo da ficção não se construa à luz da existência de janelas e de outras cores. Claro que não faço aqui uma crítica velada à Scherer, quero dizer Pianto, pois sei bem, inclusive pela leitura de manuais, que “as personagens não têm vida alguma fora da página. Assim, suas vidas consistem quase exclusivamente na ação. (...) Refiro-me a qualquer pensamento, palavra ou gesto que envolve a personagem com alguma outra personagem, constituindo um acontecimento”. (KOCH, 2008, p. 111).  

A mescla de personagens em As Avessas constitui fator distintivo da construção narrativa. A passagem de um tempo a outro, de autor/livro a outro e a sucessão das descontinuidades apresenta um aspecto de construção, se não inovador, ao menos criativo para a fabulação. E quando uma personagem toma para si esse tipo de reflexão, acrescenta elementos metanarrativos interessantes, se não vejamos: “Não sabe que podemos influenciar, nem que seja um pouquinho, os nossos criadores”. (SCHERER, 2021, p. 30). 

O jogo de ir e vir na polifonia demarcada pelos intertextos provoca no leitor insuspeitadas situações no que diz respeito ao que lê. Há que se cuidar para acompanhar as vozes. “Lá estava eu, sem querer, pensando coisas, no meio da terceira pessoa deles”. (SCHERER, 2021, p. 33). Mas quem são eles, de quem se fala, como se subdivide a escrita? Questões múltiplas se apresentam para que o leitor se posicione acerca do que encontra. “As pessoas não tinham essa preguiça de pensar”. (SCHERER, 2021, p. 39-40).

Não escrevo resenhas, não se apresenta como preocupação em minha escrita explicações que sirvam de guia de leitura para quem me acompanha. Considero similares algumas das preocupações que absorvo das personagens da obra. Também eu “Sempre gostei de imaginar a pomba lá no céu, planejando as coincidências”. (SCHERER, 2021, p. 41). 2021 é um ano atípico, não necessariamente por conta da pandemia, mas pelo efeito acumulado de reflexões acerca do que se apresenta como contemporâneo. A presente narrativa não deixa escapar algumas dessas reflexões. “O Papai Noel, Deus e a Ditadura tinham poderes estranhos, botavam medo, viam no escuro o que a gente fazia”. (SCHERER, 2021, p. 57). 

Há muito mais entre o céu e a terra do que o próprio Shakespeare desconfiasse. “Deus também devia ter vindo da Alemanha”. (SCHERER, 2021, p.62). O tempo passa e a sombra de que nossa evolução é muito lenta é patente. “Os pecados são mais ou menos, os mesmos, desde o século dezoito”. (SHCERER, 2021, p.91). Mas estamos, é claro, falando de ficção. Essa maquinação simbólica em que o poder de imaginação vai sempre além do que se propõe a autoria. É assim também no cinema. 

Luísa Pianto (ou seria Telma Scherer?) consegue manter a atenção do leitor com elementos simples na construção da história. E a relação com a imagética fílmica pode apontar para além de meras suposições de enredo, roteiro, esqueleto da escrita. O desenvolvimento do tema indica tal (ou não) pertencimento. 

Se você permite que sua percepção flane pela rolança da vida, nada do que você perceba vai merecer foco ou organização: tudo é coisa qualquer da rolança da vida. Se você pauta a sua percepção por um tema, esse tema realça os pontos de foco relacionados a ele e organiza a rolança da vida que você vai percebendo. (CAMPOS, 2016,, p. 250).  

O leitor não deve abrir mão de seu papel de ressignificar os sentidos apresentados pela obra. Agrada-me sobremaneira referências e balizas históricas como pano de fundo das narrativas. Mas, como pano de fundo, não como descrições exageradas desprovidas da atividade imaginativa que cabe ao leitor. Há que se deixar espaço para a imaginação. Gosto quando leio que “O Brasil é o país da paz comprada à força e a pais baleados, ou sumidos, e a homens inteligentes, como o Vasco, sem trabalho, e à custa de Inglaterras e seus ídolos, seus mártires, suas literaturas” (SCHERER, 2021, p. 97).

Pareço aqui me reencontrar com Luiz Sérgio Metz, com Érico Veríssimo, com Tabajara Ruas, com Letícia Wierzchowiski. O lado gauchesco de Telma Scherer divide o protagonismo com Luísa Pianto. A leitura de “Inglaterras” demonstra como o legado da revolução industrial perpetuou no universo anglo-saxão o controle financeiro do Ocidente. Inevitável trazer à luz um clássico de Tabajara Ruas:

Na véspera da batalha onde foi ferido, às margens da lagoa Tuyuty, lembra de ter dito para Osório:
- Vender prisioneiros como escravos é uma indignidade. Mas esta não é uma guerra como as outras. 
Nunca vira o jovem comandante em chefe dos exércitos da Tríplice Aliança tão perplexo.
- Não, acho que não é – disse Osório, sombrio. E encarando Netto: - Vosmecê não pensa que eu concilio essas atitudes, general. Ou pensa? RUAS, 2016, p. 27).

A importância dos livros é fruto da reflexão proposta por este romance. Tantas são as medidas nesse sentido que talvez justifiquem o apelo de romance de formação. Mas deixo este assunto para os críticos profissionais. Prefiro orbitar outras esferas do livro e que me parecem mais interessantes. “O grande problema dos livros é que eles acabavam sem nos dizer tudo”. (SHCERER, 2021, p. 116). E que bom, pois seria muito cômodo para o leitor se tudo viesse pronto, empacotado, como a indústria cultural já oferece. O mundo parece que não, mas muda, lentamente. “Já tentei explicar à Clara que aqui, felizmente, as musas não envelhecem. Podem até modificar o resultado das eleições”. (SCHERER, 2021, p. 183). 

Apresento três reflexões fundamentais da narrativa, a meu ver, a fim de que o leitor se coloque no papel reflexivo que lhe cabe. Considero um bônus oferecido por Telma Scherer aos que se debruçam sobre o texto. Vamos a eles: 1)”Autores, sendo autores e personagens, também se comunicam, como puderam perceber”. (p. 223); 2) Eu, esta Luísa Pianto que sou, aqui dentro de As Avessas, também não faço ideia do que poderá acontecer comigo, quando vocês fecharem o meu livro; (p. 224); 3) Por que a gente só usa as roupas do lado direito? Sempre há algo para acobertar. O forro, a costura. A verdade – fica do lado avesso. (SCHERER, 2021, p. 229).

Ao branco, ausente de outras cores, na vida das personagens, contrasto a escuridão referente às apreensões do leitor, acerca do que lê. Telma Scherer traz para a narrativa sua paleta de cores. Ela sabe que “O poder do leitor não está apenas na sua capacidade de reunir informações, ordená-las e catalogá-las. Fosse isso, ele seria um mero bibliotecário ou estaria agindo segundo as perspectivas de cada autor”. (SCHITTINE, 2016, p. 40). É pegar ou largar: mas que seja agora para que ainda haja algum tempo para mudança...

 

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Flávio de. Roteiro de cinema e televisão. A arte e a técnica de imaginar, perceber e narrar uma estória. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.  
KOCH, Stephen. Oficina de Escritores. Um manual para a arte da ficção. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 
RUAS, Tabajara. Netto perde sua alma. 8. ed. Porto Alegre: BesouroBox, 2016. 
SCHERER, Telma. As Avessas. Itajaí, SC: Ipê Amarelo, 2021. 
SCHITTINE, Denise. Ler e escrever no escuro. A literatura através da cegueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. 

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

telma

Telma Scherer nasceu em Lajeado (RS). É professora de literatura brasileira, na UFSC, tem graduações em Filosofia e Artes Visuais e também fez mestrado (literatura comparada) e doutorado (relações entre poesia e performance na obra de Ricardo Aleixo), além de outras complementações acadêmicas. Sua formação é múltipla, já participou de oficinas de teatro, de dança e de música, além de literatura. Escreve e já publicou em prosa e verso, tendo recebido algumas distinções entre prêmios e indicações. Já protagonizou várias performances e lançou, entre outros, os livros "Desconjunto" (poesia - 2002), "Depois da água" (Poesia - 2014), "Lugares ogros" (prosa - 2019). Seus versos e sua prosa já foram publicados no tyrannus. Acima, um metaautorretrato da artista


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