LETRAS DELAS

Trajano para casar*



No ano de 2006 morava na cidade de Juína, noroeste de Mato Grosso, quando recebi um convite do professor Mário Cesar Silva Leite para participar de uma mesa literária em uma feira internacional de literatura que aconteceria em Cuiabá. Aceitei de bom grado e vim até minha cidade para o evento. Junto a mim, o escritor nacionalmente (já naquele tempo) André Vianco discorreria sobre sua carreira e eu falaria de minha minguada experiência como romancista até aquele tempo.

Havia um contraste gritante entre as duas experiências. Meu discurso era um tanto quanto negacionista, fruto de experiências contraditórias com a arte da escrita, ao passo que Vianco nos deixou extasiados com sua história, não necessariamente pelo sucesso, mas pela perseverança. Conheci naquele evento a poeta equatoriana Aleyda Quevedo Rojas, com quem troquei livros e agora, depois de quinze anos retomo o contato pelas redes sociais.  

Minha relação com os livros sempre foi crescente. De leitor para escritor, desta para leitor e certo avanço para o que se denomina hoje de ledor fez com que passasse a minimizar a importância do que se considera como bom livro, para o conceito mais subjetivo de livros de que gosto. E em que consiste essa reflexão?  Talvez no fato de que uma obra literária, independente do tema, da qualidade da escrita, do enredo, de suas especificidades, percebe-se que há leitores para todos os gostos. 

Gosto de ler romances. E de cada dez narrativas que leio, oito são dessas. As outras duas ora são crônicas, ora contos. E as descobertas vão se avolumando em meio aos pseudo-cânones da atualidade. Sempre a descobrir autores e obras com pouca visibilidade mercadológica. Vanessa Teodoro Trajano é mais uma dessas descobertas (para mim) recentes. Acabo de ler seu “Ela não é mulher pra casar”, coletânea que reúne vinte e cinco contos abrigados nesse guarda-chuva temático. 

Do conto “Amélia” destaco o vaticínio de que “A paixão não escolhe, e ela nos torna egoístas” (p. 73). Em “Paixão de bar”, “Ela durou cerca de alguns milésimo de segundos, no cruzeiro de um olhar, durante a ventura do encontro súbito e espontâneo das nossas almas, por meio de olhares assim meio curiosos, assim meio turvos, assim meio inquisidores” (p. 77). Mas nesses contos não estão entre os meus preferidos. “Alguém tem que sofrer”, “Tempo”, “Romance”, “Rayoahra”, “A última vez” e “Caligrafia”, sim.

Em “alguém tem que sofrer”, a relação de uma mulher com a arte, o fato de posar para um artista revela o fetiche do ser humano perante a obra de arte. Sentir-se parte do processo, fruto de certo inacabamento perene da obra divina textualiza sensações que somente os apaixonados pela contingência artística podem compreender. Gosto desse conto pelo que deixa se entreler no silêncio das pausas, nas cesuras momentâneas que o poder de um lapso propicia.

“Tempo” revigora o fetiche da mercadoria e potencializa a crítica subterrânea ao consumo da atualidade. Pareço revisitar a Santo Agostinho nessa clausura conceitual em que me aprisiono. Roubar seria uma maneira de se obter o objeto de desejo a qualquer preço? “Se alguém me disser que o tempo é o movimento dum corpo, mandar-me-eis estar de acordo? Não mandareis. Oiço dizer que os corpos só se podem mover no tempo. Vós mesmo o afirmais. Mas não oiço dizer que o tempo é esse movimento dos corpos. Não o dizeis”. (AGOSTINHO, 1977, p. 313).

“Romance” me posiciona em um ângulo obtuso ao deparar-me com a máxima de que “Uma mulher só é fiel até ser contrariada”. (TRAJANO, 2019, p. 84). Mas é em “Rayohara” que me encontro com outra faceta intrigante deste livro. O conto tem apenas duas páginas e cinco parágrafos. Pareço me encontrar diante de uma carta de baralho, uma dama, de copas, quem sabe? Como se houvesse certa ambiguidade entre Alice e a Rainha de Copas. Como se o baralho fosse viciado, como aqueles dos jogos de pôquer em que se vai de um polo a outro da miserabilidade em instantes.

O conto começa com a expressão “Descobri, no susto,” (p. 87) e se encerra com “aquilo que a gente perde no susto” (p. 88). Percebem-se referências metalinguísticas no registro escrito do instantâneo. Um corpo diante do espelho. Dois lados da mesma moeda. Um diálogo é forjado entre criador e criatura, entre imagem real e imagem invertida, entre o exterior e o interior de um corpo no espaço. Não se trata mais de tempo, mas de espaço, embora o tempo esteja imerso nas marcas cronotópicas que o espelho “reflete”. 

“A última vez” me coloca diante de uma das discussões do momento: ser ou não ser (cringe?). A mesmice de relacionamentos, o que leva duas pessoas a se unirem, a se separar, como seriam os reencontros ocasionais, as insuspeitadas realidades de após. Um encontro no supermercado aproxima duas famílias constituídas por um ex casal. O silêncio de um depois na resposta que ela dá ao (atual) marido coloca o leitor em uma posição de destaque, espécie de confessionário que a focalização externa vem acompanhada de um gostinho especial de quem sabe de tudo o que se está narrando.

“Caligrafia” é um conto especial. Assume um tom saudosista entre a máquina de escrever e a escrita de cartas, atitudes em desuso há algum tempo. Em tempos de ausência total de privacidade, a leitura deste conto me povoa a alma de saudosismos. Vanessa anuncia que tem três novos livros à espera de publicação. Penso que nunca se viu tantas publicações no mercado. O público é que define o padrão de comportamento leitor. Eu continuo experimentando a escrita praticada por mulheres. E tem sido favoráveis a maior parte das descobertas.

 

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, Santo. Confissões. 9 ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1977. 
TRAJANO, Vanessa Teodoro. Ela não é mulher pra casar. Teresina, PI: Quimera, 2019. 

vamessa trajano

Vanessa Teodoro Trajano nasceu em Teresina (PI), mas é radicada em Brasília. Escreve em prosa e verso e é professora de língua portuguesa. É ativista no meio literário onde participa de projetos e viaja por várias cidades como palestrante e oficineira. Ao todo, Vanessa possui 15 publicações, entre antologias e obras individuais, dentre as quais se destacam "Mulheres Incomuns" (2012, contos), "Poemas Proibidos" (2014, poesia), "Doralice" (2015, romance), "Ela não é mulher pra casar" (2019, contos), obra finalista do Prêmio Guarulhos; e "Supermulher e outras performances poéticas" (2020, poesia)

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

 


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