PROSA

"Corpo Interminável" (trecho)



"Sinto muito, digo à Melina, mas olho o que escrevo como uma tentativa, um esforço. Qualquer coisa que escrever agora será ao redor de um centro inseguro, uma descrição que pouco alcança, nada revela, uma junção de palavras e efeitos, não me reconheço e não posso me reconhecer em nenhum lugar ali. Não lembro de nenhuma sensação de conforto ao dormir na cama da minha mãe, não era nela nem em seu sorriso que pensava, mas na sua ausência e na sua morte nunca confirmada, no seu corpo que não estava, que não se podia ver nem tocar, isso me assombrava, como um monstro no armário, mas muito pior do que um monstro no armário, porque eu sentia em minha pele, era um horror real. E o adesivo arranhado na janela, é verdade, existe, está lá, na casa do meu avô, no apartamento em que fui criado e para o qual não consigo voltar, o apartamento que esvaziei o mais rápido possível assim que ele faleceu, que está à venda, à espera de outros moradores, outras ocupações. Há mesmo um pedaço de adesivo arranhado na janela de madeira do quarto da minha mãe que depois se tornou o meu, mas para que fazer disso algo importante? Para que essa melancolia, uma moça olhando a janela antes de dormir, antes de acordar e desaparecer, olhando a imagem de um ator ou de qualquer outra coisa de que ela gostasse, para quê, me pergunto, te pergunto, essa visão idílica de algo que se esvai, mas resiste. Eu quase escrevi, talvez tenha escrito, não importa o quanto se tente apagar algo, destruir alguém, sempre há alguma coisa que sobrevive: mas não, cairia mais uma vez nessa busca idílica, uma imagem literária de uma sofrida e bela esperança, não, até os restos são abandonados, escondidos ou destruídos. Nada sobra. Ninguém. É tão pouco falar do adesivo na janela e da moça que o olhava, um esforço, sei, de arrancar essa moça do passado desse menino, desse filho, como algo inalcançável, uma imagem etérea e única num retrato, e trazê-la para o quarto, para a casa, colocá-la andando entre os cômodos e se preparando para dormir, ou acabando de acordar, esse é o verdadeiro sofrimento desse filho, que não consegue imaginar a mãe como uma pessoa que se pode encontrar na esquina, uma pessoa que existiu, mas é tão pouco quando há algo maior aí que se cala, pessoas que foram arrancadas de suas casas, de suas famílias, e sumiram depois de longas sessões de torturas, jogadas no fundo do mar, incineradas em fornos a lenha, industriais, ou enterradas em cemitérios clandestinos. São a essas pessoas transformadas em corpos que a moça que olhava o adesivo na janela se une, e não é que a agonia desse filho que perdeu a mãe, que só a encontrou no momento da despedida, não importe, não só importa como se junta a outros filhos e filhas, uma grande massa de crianças e adultos arrancados da própria vida. Se fosse escrever novamente sobre isso, o que não farei, eu contaria que antes de fechar o apartamento do meu avô pela última vez, antes de olhar a sala e os outros cômodos vazios, a pintura velha e ressecada, as paredes com as marcas dos móveis, o chão desgastado de tantos passos, eu, munido de pano e detergente, pano e alvejante, pano e removedor, escova de cerdas finas, escova de cerdas grossas, tirei o restante do adesivo, a maldita cola grudada havia décadas na madeira, arranquei tudo com vigor, com empenho, e, por que não dizer, por que não enfatizar, com raiva, e depois ainda passei óleo de peroba, uma camada, duas, três, muitas, não há nada mais ali."

 

*Reproduzido do livro "Corpo Interminável" (Editora Record)

claudia lage

Claudia Lage nasceu no Rio de Janeiro, é escritora e roteirista. Formada em Teatro pela UNIRIO, em Letras pela UFF e mestre em Literatura pela PUC-Rio, foi finalista dos Prêmio São Paulo de Literatura de 2010 e Prêmio Portugal Telecom, e recebeu o Prêmio de Literatura de Brasília. Ministra cursos de roteiro e criação literária no Rio de Janeiro. "Corpo Interminável? (Editora Record), (trecho) aqui reproduzido conta uma história familiar prestes a ser relembrada e resgatada, de uma mãe, guerrilheira, desaparecida na ditadura militar no Brasil. Livro condecorado como "Melhor Romance de Ficção do ano de 2019" no Prêmio São Paulo de Literatura


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