CRÔNICA

A antiga dama*



Morava numa pensão da rua São Clemente. Era volumosa, e cheirava a quando a galinha vem meio crua para a mesa. Tinha cinco dentes e a boca seca, árida.

Sua reputação passada não fora inventada: ainda falava francês com quem tivesse oportunidade, mesmo que a pessoa também falasse português e preferisse não corar com a própria pronúncia. A ausência de saliva tirava-lhe qualquer volubilidade da voz, dava-lhe uma contenção. Havia majestade e soberania naquele grande volume sustentado por pés minúsculos, na potência dos cinco dentes, nos cabelos ralos que, escapando do coque magro, esvoaçavam à menor brisa.

Mas houve a segunda-feira de manhã em que ela, em vez de sair de seu minúsculo quarto, veio da rua. Estava lisa e com o pescoço claro, sem nenhum cheiro de galinha. Disse que passara o domingo na casa do filho, onde pernoitara. Estava de vestido preto de um cetim já fosco. Em vez de ir para o quarto mudar de roupa, vestir um de seus vestidos de algodão barato, e ser apenas uma pessoa sozinha que mora numa pensão, sentou-se na sala de visitas, prolongando o domingo, e disse que a família era a base da sociedade. A propósito de qualquer coisa, referiu-se de passagem a um banho de imersão que tomara na confortável banheira da nora – o que explicava a sua falta de cheiro e o pescoço não encardido. Deixando sem jeito os pensionistas ainda de pijama e robe, ficou sentada horas junto ao jarro da sala, só tendo conversas adequadas a um suposto salão invisível.

De tarde, via-se que os sapatos abotinados já lhe apertavam demais os pés. Continuou, porém, de dama na sala de visitas, levantada a grande cabeça de profeta.

Mas, na hora em que elogiou o jantar magnífico da casa do filho, seus olhos se fecharam de náusea. Depressa foi para o banheiro, ouviram-na vomitar, recusou ajuda quando lhe bateram à porta do quartinho.

Na hora do jantar, apareceu e pediu apenas uma xícara de chá: estava de olheiras marrons, com o largo vestido de estampadinho de ramagem, e de novo sem cinta e sutiã. O que ainda restara de estranho era a pele mais clara. Alguns pensionistas evitaram olhá-la e à sua derrota. Não falou com ninguém. O rei Lear. Estava quieta, grande, despenteada, limpa. Fora feliz inutilmente.


*Texto reproduzido do livro "Todas as crônicas" (Editora Rocco - 2018), publicado originalmente no Jornal do Brasil, edição de novembro de 1971

lispector

Clarice Lispector (1920-1977) foi tradutora, escritora e jornalista brasileira, nascida na Ucrânia. Escreveu romances, contos e ensaios. Em nosso país é apontada como uma das personalidades literárias mais importantes do século 20. Segundo levantamento da UNESCO, de 2012, Clarice é a escritora brasileira mais lida do mundo. Seus livros foram traduzidos para 32 idiomas e publicados em 40 países. Claro que sua literatura já foi replicada inúmeras vezes aqui no tyrannus




 

 


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