PROSA

O marido silencioso*



Vinte e quatro horas antes do casamento, d. Eunice viu a tristeza da filha e estranhou:
— Que é isso, minha filha?
Maria Lúcia quis disfarçar:
— Nada, mamãe, nada. Por quê?
E d. Eunice:
— Estou achando você meio assim, esquisita. Houve alguma coisa entre vocês, houve?
Maria Lúcia ri:
— Ora, mamãe! Mas que bobagem! Teria cabimento a gente brigar na véspera do casamento? — Trancou os dedos: — Isola!
Sem desfitar a filha, d. Eunice suspirou: “Ótimo. Antes assim”. Mas não estava convencida. Achou na alegria de Maria Lúcia algo de artificial, de falso. Meia hora depois surpreende a pequena com a pergunta:
— Você está feliz, minha filha?
— Eu?
— É.
Maria Lúcia teve uma brevíssima hesitação: “Estou, sim. E não é pra estar?”. Pausa e pergunta: “Tenho um noivo quase perfeito”. D. Eunice faz espanto: “Quase?”.
A garota parece desconcertada. Termina admitindo:
— É o seguinte: Abelardo é formidável, estou satisfeita com ele. Mas tem um defeito. Um único defeito.
— Qual?
Maria Lúcia ergue o rosto:
— Fala pouco. Quase não fala. É um boca-de-siri!

Parecia pouco. E d. Eunice, que estava sentada, levantou-se:
— Se ele só tem esse defeito, você deve dar graças a Deus!
Pararam por aí. E d. Eunice, que era uma otimista, não pensou mais no assunto. A união de Maria Lúcia e Abelardo era, teoricamente, o que se pode chamar de um matrimônio perfeito. Ambos sadios, bonitos, com afinidades profundas de educação, temperamento e fortuna. Aliás, d. Eunice já ponderava:
— Minha filha, lamba os dedos porque partido como Abelardo, hoje em dia, é difícil, muito difícil.
— Eu sei, mamãe.
Quanto ao feitio pouco comunicativo, taciturno do rapaz, Maria Lúcia teria suas razões. E, com efeito, Abelardo falava pouco, pouquíssimo. Economizava cada palavra, vivia imerso quase sempre num silêncio que chegava a incomodar. Por vezes, com surda irritação, Maria Lúcia pedia: “Fala, diz alguma coisa, meu filho!”. Ele sorria, sem responder. Fosse como fosse, a garota gostava do noivo e gostava muito. Suspirava: “A gente se casa com as qualidades e defeitos do marido. Paciência”. E, de fato, casaram-se, no dia seguinte. Nas emoções do dia, Maria Lúcia esqueceu-se de tudo o mais: entregou-se com todo o ser à sua felicidade de noiva. Na volta da igreja, ela muda a roupa. E, uns quarenta minutos depois, já sem véu, sem grinalda, num vestido normal, parte com Abelardo para o hotel da montanha onde viveria a sua lua-de-mel.

O automóvel corria na Rio — Petrópolis, numa velocidade macia, quase imperceptível. Passada a barreira, Maria Lúcia, já triste, tem um lamento:
— Meu anjo, desde que nós saímos de casa você ainda não disse uma palavra!
Nenhuma resposta. Abelardo limitou-se a apertar, um pouquinho mais, a sua mão. Decorrem dez minutos mais de silêncio. Dói, na pequena, que o noivo vá tão silencioso quanto o chofer. E não se contém. Crispa a mão no seu braço. Pede com angústia:
— Fala, meu filho. Diz alguma coisa.
Maria Lúcia espera. E nada, ainda. Sente que o noivo sorri. Insiste:
— Mas, Abelardo! Você não tem uma palavra para me dizer, num dia como o de hoje? Será possível?
Como resposta Abelardo dá-lhe um beijo curto e rápido, na face. Em seguida, passa a mão nos seus cabelos. Sem uma palavra, porém. E, então, com o coração apertado, Maria Lúcia suspira:
— Você só não é perfeito, meu bem, porque fala pouco! Eu daria tudo para que você falasse mais!

Segundo os cálculos feitos, a lua-de-mel devia durar um mês. No fim de doze dias, porém, com surpresa e escândalo para a família, os noivos aparecem na cidade. D.Eunice, ao vê-los, arremessa-se:
— Mas o que foi isso? Voltaram por quê?
Abelardo, em pé, responde, lacônico:
— Foi ela.
E, então, atribuladíssima, d. Eunice vira-se para o genro: “Mas sente-se, Abelardo”. O rapaz obedece; apanha, bocejando, um jornal. Já a velha se apoderava da filha e levava a pequena para fora. E, no quarto materno, sozinha com a mãe, Maria Lúcia começa a chorar. Cobre o rosto com as duas mãos e soluça:
— Não agüento mais! Não posso, mamãe! Quero e não posso!
Aterrada, d. Eunice não sabe o que pensar, o que dizer. Senta-se ao lado da filha. Toma entre as suas as mãos da moça: “Mas que foi que houve?”. Maria Lúcia ergue-se. Anda de um lado para outro e, súbito, estaca:
— Esse homem não fala, mamãe! Não diz uma palavra! A senhora sabe o que é passar horas, dias inteirinhos, ao lado de um marido que não abre a boca? — Aperta a cabeça entre as mãos: — Eu acabo maluca, mamãe! No duro que acabo!
D. Eunice, sem uma palavra e cada vez mais assombrada, escuta, só. Procura compreender. Finalmente, pergunta: “Mas vem cá: é só isso?”. Maria Lúcia a interpela com violência:
— E a senhora acha pouco? Oh, minha mãe!
A outra perde a paciência:
— Quem diz “oh” sou eu! Parece incrível que você esteja fazendo tamanho barulho por um motivo tão bobo! Sossega! E a outra, fremente:
— Pode ser bobo, mas o fato é o seguinte: eu vou me separar, mamãe! E das duas uma: ou me separo, ou a senhora não terá filha por muito tempo!

Foi um pânico na família. E o patético da situação era a inexistência de um motivo real, de um motivo legítimo. O pai apareceu, em polvorosa: “Que negócio é esse? Você está maluca?”. Ela, desmoronada, respondia: “Eu não posso, meu Deus!”.Tias, irmãs, primas se entreolharam na suspeita já de um desequilíbrio mental. E, de fato, só a insanidade parecia justificar o comportamento da menina. Houve uma romaria de parentes; variavam as palavras, mas o argumento ou argumentos eram os mesmos: “Isso não é defeito, carambolas! Ninguém se separa porque o marido fala de menos!”. O pai foi mais além:
— Eu toparia a separação, o desquite, o diabo, contanto que você me arranjasse um motivo decente. Mas isso não é motivo, nem aqui, nem na China! Sua mãe sofre do coração. Você quer dar esse desgosto à sua mãe? Chorando, Maria Lúcia explica:
— Quando eu vejo o meu marido calado, sem dizer nada, horas e horas, eu penso que ele está tramando algum crime!
O pai, feroz, esbravejava: “Mas isso é cômico, minha filha! Dá vontade de rir!”. A pequena, sob verdadeira obsessão, parecia irredutível: “Vocês querem que eu volte, não é? Mas eu não volto!”. — Berrava, esganiçando a voz: “Não volto, não volto e não volto!”.

Mas voltou. Passara, longe do marido, sete dias. Ele, que a deixara ir sem uma palavra, a recebeu, no retorno, mais silencioso do que nunca. Dir-se-ia que não acontecera nada, absolutamente nada. Com uma naturalidade inumana, abriu a porta para Maria Lúcia e a beijou na testa. Só. O pai, que levara a filha, esfregava as mãos, numa falsa euforia:
— Tudo OK, o que passou, passou. Já vou. Au revoir.
Era de noite e a mesa estava posta. Marido e mulher jantaram no silêncio mais desesperador que se possa imaginar. Maria Lúcia pensava com o espírito trabalhado pelo sofrimento: “É demais, meu Deus, é demais!”. Depois do café, passaram para a varanda. Ele, impassível, apanhou um cigarro e o acendeu. Então, fora de si, a mulher crispa a mão no seu braço e faz o apelo:
— Fala! Diz qualquer coisa! Uma palavra! — Elevou a voz, enfurecida: — Basta uma palavra, mas diz essa palavra, diz!...
Ele, mudo, calcou a brasa do cigarro no cinzeiro. Ela não pôde mais. Ergueu-se, entrou correndo. Abelardo continuou sentado, pelo espaço de umas duas horas, mergulhado numa meditação ardente e vazia. Tarde da noite, já com sono, resolveu subir. Ao chegar no alto da escada, pára. No fundo do corredor vê, suspenso, um vulto. Desesperada do marido, que falava pouco, quase não falava, Maria Lúcia enforcara-se. Uma corrente de ar mexia nas suas saias.

 

*Reproduzido de https://www.itatiaia.com.br/

nelson

Nelson Rodrigues (1912-1980) nasceu pernambucano e faleceu carioca. Dizem que ele é o mais influente dramaturgo brasileiro. Foi escritor, jornalista, romancista, contista e cronista de costumes e de futebol; além do grande legado que deixou para o teatro brasileiro. Trabalhou como repórter policial durante vários anos e essa experiência, certamente, lhe valeu nas outras habilidades que comprovou ter com a palavra

 


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