PROSA

O Primo Basílio (trecho)



Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.

Fora, outrora, diretor-geral do Ministério do Reino, e sempre que dizia “El-rei!” erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre “o nosso Garrett, o nosso Herculano”. Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política: tinha composto os Elementos genéricos da ciência da riqueza e a sua distribuição, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão! Havia apenas meses publicara a Relação de todos os ministros de Estado desde o grande Marquês de Pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e óbitos.

 

*Reproduzido de https://almanaquenilomoraes.blogspot.com/ , os dois parágrafos escritos por Eça de Queirós que descrevem o célebre Conselheiro Acácio, personagem que se tornou universal e faz parte do romance "O Primo Basílio"

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José Maria de Eça de Queirós (1845-1900), atualmente grafado assim, nasceu em Portugal e morreu na França. Ao lado de Machado de Assis compõe a dupla dos dois maiores expoentes do século 19, no que tange à literatura em língua portuguesa. Foi ficcionista, jornalista e diplomata português, deixando um vasto legado. Já mereceu cerca de 70 traduções pelo planeta, em aproximadamente vinte idiomas. A crítica social, disparada contra o clero e seu próprio país, está presente em seus escritos. Entre seus principais livros estão "Os Maias", "O Crime do Padre Amaro" e "O Primo Basílio"

 


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