PROSA

“No fundo os olhos nem doem”



Doem mesmo não, eles doem na superfície, vazam, copiosamente, lágrimas de papel, de cera, de solidão e solidez. “Rasuras Negras” é uma coletânea de sete mulheres poetas, extravaso linguístico em forma de versos. Uma poesia feito fogo que aquece a alma e lança um pouco de lava nessa calmaria. O cheiro de queimado venta em minha direção

defuma meu corpo
com a fumaça do desejo
benze as minhas feridas
com a sua saliva
(...)

vai me enfeitiçando
protegendo
curando.

rasuras

 

Com essa gradação Luana Soares de Souza abre a antologia, prefaciada por Cristiane Sobral, organizada por Helenice Faria. Time que faz, não que faria. Que faz tremer o verso, estampar em cada folha uma identidade; que tem alma; que tem cor. Preto no branco, como a capa da edição demonstra e bem. 

O livro é um projeto, cada uma das autoras apresenta outra e assim sucessivamente. Há um roteiro, um percurso da palavra que percorre seu itinerário em que eu, sigo, persigo as notas impregnadas de linguagem. E que suga, transpira.

Sigo a rota desenhada
No meu mapa indecifrável
Amanhã quem sabe eu chegue
Naquela ilha no horizonte,
Ou quem sabe a luz do farol
Me afaste para bem longe.

Neta etapa da viagem o roteiro é de Betsemens Barbosa de Souza Marcelino. Dessa rota vem o mapa, vem a ilha, no horizonte o farol. Lá longe a palavra espera pelo próximo verso, sua casa, sua estrofe tardia com rimas ausentes. Solitário poema.

Quem conta comigo
(...)
Atende os sussurros
(...)
Mastiga e degusta cada sentido.
(...) 
Cheiro exalado pelos sábios lábios.
(...)
É cônscio da pele,
Rejeita olhares

Helenice Joviano Roque de Faria organiza seus versos, organiza o livro, bagunça o coreto patriarcal com sua pena/espada afiada. A linguagem cortante vai sangrando na veia aberta todos os excessos de outros lugares de fala, de falo. A garganta engole a seco o pedido de um bom café. Mas que seja preto.

Acordo 
para um café
sento com o livro
e a xícara
a fumaça
perturba-me

Jacinaila Louriana Ferreira estanca no coador letrado cada gota de palavra na quentura desse pó preto e gostoso que me encarde a garganta, o palato quente. A asa da xícara se prepara para receber meus dedos e os nós enquanto a fumaça se liberta do café. Um verbo se faz presente. E também tem cor.

Verbo voz 
Voz preta.... voz de cor.
(...)
Vozes negras
Aquilombai-vos!

É de Claudia Miranda Franco que pulsa essa voz. Ela é quem proclama que “tudo está sem forma e vazio”. E seu eu-lírico sai à francesa, vestido de vermelho flanela nesse nosso calorão. 

Vão te contar um segredo.
Uma coisa que não pode ser falada
Vão encobrir
Dificultar e vender
Vender tão caro esse segredo
Um segredo...

Um segredo de Maria Fernanda Ferreira. Cuidado! As estrofes têm ouvidos. E a noite com suas sombras de gala perseguem os incautos da sabedoria. Os imperadores da língua, os governantes do verbo, os representantes da Corte que, sob júdice, entoam vernáculos de quinta categoria desprovidos totalmente de mistério. E a noite, com seu tempo fechado anuncia seus poréns.

“Rasuras negras” não são manchas desgastadas de linguagens, nem avatares de um novo tempo. São recortes espelhados de verdade, encrespados de lisura. Aqui a química é de outra ordem. Da ordem do desejo, da vitória, de uma luta pela qual a palavra se dissolve e engrossa o caldo. Filhas da lua com as quais me irmano, pois também

sou o milagre do sol
A resiliência dos anjos
Inadiável paz
(...)
Tomo um café ouço boa música
Aprendo a falar com sabedoria
(...)
Uma menina imaginativa
(...)
Bem me quer mal me quer.

Palavras de Marlene Santos da Silva. Com essa obra se passa a limpo um pouco da poesia escrita por mulheres em nosso Mato Grosso. Para que não haja mais rasura em qualquer certidão de nascimento. Para que o borrão não seja sinônimo de preto; para que o asfalto receba outras cores. Para que a sombra seja elevada a mais alta potência. Que o arco-íris vença a monocromática idiotice contemporânea. 

Que a poesia seja essa “benzeção” eterna, Luana, querida; que os “instantes”, de Jacinaila possam ser lidos de outra forma, quero inverter seus tercetos à minha maneira, e peço licença:

corpo são e a mente a maquinar
para os anos que me restam
como trapacear o tempo

uma nova forma para o mundo
o que fazer com essa encardida
fazer voltar minutos desatentos

resquícios de esperanças
fita de medir vida vivida
que meus instantes dissiparam.

Na “Moenda” de Cláudia, no “Espelho Moderno” de Maria Fernanda, no “Criado-mudo” de Marlene. Que não haja mais mucama, nem ajudante de ordens. Que as cotas sejam preenchidas pelo que se desprende do caráter. O resto, que passe em branco, feito tábula rasa, ignorada, Luana, na correnteza da linguagem...


REFERÊNCIAS
FARIA, Helenice. Rasuras Negras. Peruíbe, SP: Laseco Editorial, 2020. 

 


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