FRASES

Aforismos*



Bíblia
A resistência obstinada contra a Bíblia, que durante décadas me manteve afastado dela, deve-se ao fato de eu nunca ter querido ceder à minha origem. Não importa em que parte eu abria a Bíblia, ela sempre me parecia familiar.

Filósofos
Filósofos nos quais nos dispersamos: Aristóteles. Filósofos com os quais oprimimos: Hegel. Filósofos para se gabar: Nietzsche. Para respirar: Chuang Tse.

Montaigne
O que há de mais belo em Montaigne é que ele não se apressa. (…) Seu interesse por si próprio é inabalável, ele nunca tem vergonha de sua pessoa, não é um cristão. (…) Ficar consigo mesmo é para ele uma espécie de liberdade.

Cervantes
Dostoiévski sabe muito da humilhação, é o seu verdadeiro conhecedor. Sinto-me mais próximo do grande conhecedor do orgulho, Cervantes. Para mim, este é o único critério de uma tendência épica: conhecer a vida até em seus aspectos mais tenebrosos e mesmo assim ter-lhe um amor apaixonado, um amor que nem é desesperado, pois mesmo em todo o seu desespero é intocável.

Hobbes
Entre os pensadores que não estão presos a uma religião só me impressionam aqueles cujo pensamento é suficientemente radical. Hobbes está entre eles; no momento é o mais importante para mim.

Goethe
Se, apesar de tudo, permaneço vivo, devo isso a Goethe, da forma que só se deve a um deus. Não é uma obra, é o estado de espírito e o zelo de uma existência cumprida que subitamente me arrebataram. O que frequentemente parece enfadonho em Goethe é que ele é sempre completo.

William Blake
Somente desde que li o poema de Blake sei o que é um tigre. Stendhal Acho que não existe ninguém a quem eu ame tanto quanto a Stendhal. Ele é o único que invejo. Talvez pudesse ser parecido com ele, se eu não fosse eu.

Flaubert
Flaubert – hipopótamo que geme.

Dostoiévski
É preciso lembrar que Tolstói chegou aos 82 anos e Dostoiévski só aos 59. O poeta cuja arte consiste em sua falta de distanciamento: Dostoiévski.

Tolstói
Ainda prefiro Deus a Tolstói. Às vezes penso que ele se agarra a Deus para não assumir a sua fé em si próprio, para não se dar um peso excessivo.

Nietzsche
Os ataques de Nietzsche são como um ar venenoso, mas um ar que é inofensivo para mim. Inspiro e expiro este ar com orgulho e desdém e lamento pela imortalidade que o aguarda.

Freud
Freud só se tornará interessante depois de ficar totalmente esquecido durante muito tempo. Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo.

Proust
Não quero jamais me render aos adjetivos, mesmo aos triplos. Eles são o que há de oriental em Proust, o prazer pelas pedras preciosas. Estas não me importam absolutamente, pois amo todas as pedras. (…) A sociedade, em que Proust encontrou o seu caminho, o seu esnobismo, foi sua maneira de experimentar o mundo.

Robert Walser
Diante dele, Kafka empalidece. Robert Walser me toca mais e mais, especialmente em sua vida. Ele é tudo aquilo que não sou: desamparado, inocente e, de uma maneira sedutoramente pueril, genuíno. Ele é genuíno sem atacar a verdade, ele se torna verdade ao rodeá-la. (…) Ele quer ser pequeno, mas não suporta ser acusado de pequenez.

Kafka
Kafka realmente carece de qualquer vaidade de poeta, jamais se gaba, não sabe se gabar. Enxerga-se como sendo pequeno e anda com passos pequenos. (…) Não existe nada na literatura mais recente que nos torne tão modestos. (…) Tornamo-nos bons quando o lemos, mas sem ter orgulho disso. Para ele, os mandamentos se tornam dúvidas. De que te envergonhas tanto ao ler Kafka? – Envergonhas-te da tua força.

Musil
Diante de Kafka, estou prostrado, Proust me preenche, Musil é, para mim, exercício espiritual.

James Joyce
Os mitos representam mais para mim do que as palavras, e é o que mais profundamente me diferencia de Joyce.

Fernando Pessoa
Como posso crer que, durante trinta anos, fui contemporâneo de Pessoa? No fundo, nunca nada me importou mais do que me dividir – como pessoa – em alguns poucos personagens, aos quais me apego coerentemente.

Sartre
Jamais o considerarei um poeta, e sim um analista (…). Sempre me repugnou o seu “engajamento” como um tipo de atividade. Nenhuma de suas formulações foi um pensamento. Nada seu foi novo. Ele tinha logo uma resposta, que existia já antes da pergunta.

 

*Reproduzido de https://www.extraclasse.org.br/

canetti

Elias Canetti (1905 - 1994) foi um romancista e ensaísta, com nacionalidades búlgara e britânica, que escrevia em língua alemã. É considerado ícone da crítica literária no pós guerra e também um dos intelectuais europeus mais relevantes e controversos da Europa, por seu rigor literário e posições extremadas. Ganhador do Nobel de Literatura em 1981, ele acreditava que "uma postura moderada ou pretensamente sóbria nada têm a ver com literatura. O que importa é amar ou odiar o autor e sua obra". A maior parte da sua obra ainda não foi publicada e, de acordo com seu testamento, só sairá em 2024. Os aforismos reproduzidos acima, reveladores da acidez do seu pensamento, são um spoiler do que vem por aí

 


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