PROSA

Réquiem por Laís*



Minhas conversas com Laís Reis começaram em nove de julho. Sempre à prestação. Fomos aproximados por um professor amigo de São Paulo, onde residia Laís, também professora. Respeito muito essa profissão, que é de fé. E admiro a dedicação e a disciplina de quem a exerce. E tem mais... ela também estudava, com um mestrado em curso.

Jamais ousaria roubar a atenção ou o tempo de um professor, em detrimento do seu compromisso profissional. E então, através dessas janelas cotidianas, trocávamos ideias em torno do que nos aproximou. Formar uma parceria que resultasse em poemas visuais. Audiovisuais, melhor dizendo. Meus versos, minha voz e as imagens que furto do cerrado cuiabano (ambiência inspiradora para muitos poemas meus), editados e idealizados por Laís, que iria formatá-los num poema visual. Ah... que tentação!

Nada como experimentações pra adrenalizar a cabeça de dois poetas (eu e ela). Literatura costuma ser uma arte solitária, entonces, quando escritores têm a chance de compor parcerias... não tem coisa melhor.

Enviei-lhe imagens e poemas, ela me mandou poemas visuais que já tinha feito. E a coisa ia se materializando, tomando corpo. O ritmo da nossa criação só não foi mais rápido, devido às minhas dificuldades com as novas tecnologias desse mundão digital. Apesar disso, estávamos os dois empolgados.

Minhas conversas com Laís, escritas e orais, estão gravadas no meu whatts. Repassei tudo tudinho para escrever este texto doloroso. Me dói a partida precoce dela, a quem não cheguei a conhecer em carne e osso, mas nossos espíritos parece que tinham um encontro marcado pela atemporalidade.

Sua voz e seus trejeitos na comunicação via celular ainda estão - e deixa estar, pra sempre - cravados em minha memória.  

Agradeço ao Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida por ter encaminhado meu encontro com Laís. As letras, a literatura e a vida girando em torno da palavra e a expansão de seu uso, seus sentidos, suas imagens e possibilidades; foi o que nos tornou pessoas próximas e queridas.

Em seis de setembro recebo mensagem de voz de Mourivaldo: "Cara, a notícia que tenho pra lhe dar não é nada agradável...". E ele me contou do acidente implacável que levou Laís.

Atônito, sem saber o que fazer logo após a tristeza me invadir, recorro às conversas de whatts que mantive com ela. Reproduzo a última que ela me enviou: "Vai lá almoçar que eu vou dar uma aula agora de latim. Beijo, Lorenzo... a gente se fala mais tarde, tá? Qualquer coisa pode ir me mandando mensagem aqui, aí à noite quando eu for ficando mais livre eu vou respondendo pra você".

Passados uns poucos dias do acidente, após prosseguir conversações com Mourivaldo, decidimos homenagear Laís com um texto e duas cabeças. Finalizo aqui registrando o meu carinho e afeto com uma pessoa com quem tive pouca convivência, mas plena identificação. Me solidarizo com os familiares e amigos de Laís, pela sua partida. E passo a palavra para Mourivaldo... 

Laís, nem deu tempo de sua qualificação no mestrado sobre a produção do poeta português Ernesto Manuel de Melo e Castro que partiu uns dias antes (29 de agosto de 2020).

Foi assim que veio a notícia dela no dia 30 de agosto: “Professor, bom dia. Hoje o dia começou com uma triste notícia. O Melo e Castro partiu nesta noite... meu amigão se foi..."

E eu: ”Sua dissertação será uma grande homenagem a ele”... No dia 31 de agosto, Laís faz uma singela homenagem para Ernesto... Eis o link https://www.youtube.com/watch?v=YSgPmpdkZhA: São 2 horas, 19 minutos e 10 segundos de profunda imersão na poesia de Ernesto...  Só podia vir de Laís (intensa, inteligente e envolvida).

Para ser coerente com sua breve passagem, concluo esse texto dizendo: não deu tempo para quase nada, Laís, mas você fez tudo (e muito mais) que poderia ser realizado em três décadas... 

Ah, sim: sua cafeteira italiana grande (presente para o novo apartamento dos sonhos...)? Nem cheguei a comprar. 

O texto de sua qualificação deveria metamorfosear-se em livro... Assim como acontece com toda “borvoleta”**. 

O poema vídeo da minha primeira poesia a ser publicada na Revista PIXÉ.... Ficará na intenção e nas memórias afetivas...   

OBSERVAÇÕES:
Um pouco do trabalho de Laís Reis, com a poesia e suas possibilidades audiovisuais, pode ser conferido no perfil do instagram @deslise_insta, e no site escamandro, no link https://escamandro.wordpress.com/2020/09/18/lais-reis-1988-2020/ 

 

*Crônica escrita em quatro mãos por Lorenzo Falcão e Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida, parceiro do tyrannus, em memória à amiga querida que nos deixou.

**"Borvoleta" é a palavra que Laís dizia, na sua primeira infância, quando ainda não conseguia dizer "borboleta", conforme relato comovente de seu pai, Cláudio Reis. 

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Laís Reis (1988-2020), mestranda e professora na área da literatura, entusiasta e fazedora de novas experiências com as artes da palavra


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