CRÔNICA

Marília, sonhos e sorrisos



marilia

 

Aquela notícia que a nenhum de nós gosta de receber, mas que chega implacavelmente. Foi durante a caminhada de ontem (03/07). A partida de Marília Beatriz de Figueiredo Leite.  Senti o celular vibrar no meu bolso e chequei a mensagem: "oi Lorenzo, sinto de comunicar que Marília acaba de falecer". E o que dizer para Justina Fiori, amiga e jornalista, que me enviou a mensagem?

Tristeza, acima de tudo tristeza. E a promessa de escrever um texto sobre meu convívio com Marília, que acumulou cerca de 35 anos. A primeira vez que tive contato direto com Marília foi em 1987 quando, com Chico Amorim e Fátima Sonoda (meu compadre e esposa, saudosos), montei a peça "O Capote", trazendo para a ambiência cuiabana a maravilhosa literatura de Nikolai Gogol. 

Marília assistiu a nossa estreia, que foi dedicada a Wlademir Dias-Pino, e tratou de escrever logo em seguida um texto arrebatador sobre nossa montagem. Foi então que meu espírito começou a se aproximar com muita força da alma de Marília que, além de professora, poeta e dramaturga, sempre foi uma bravia articuladora cultural deste Mato Grosso. 

Encontrava-me vez em quando com ela, sempre em eventos, e era uma grande festa, regada a carinho, respeito e muito bom humor. O riso, quando não gargalhadas, entremeava nossas esperançosas conversas em torno da cultura. 

marilia

Flagrante da minha andança pelo cerrado, logo após saber da partida de Marília

Não sei a razão do motivo que me levou, acho que em 2008, a um evento na Academia Matogrossense de Letras. Sentei-me ao fundo para assistir uma explanação de Marília e, em determinado momento, ela exigiu que eu lhe fizesse uma pergunta. Ela era assim mesmo: pra encostar a gente na parede e exigir algo, era daqui pra ali.

Hora de retomar aqui no texto as caminhadas que tenho feito pelo cerrado que circunda as cercanias do meu periférico bairro, que têm possibilitado a expansão do meu prazer por uma existência em lugar tão bonito - refiro-me ao entorno de Cuiabá, com tantas cores e tanta vida, a compor uma natureza tão exuberante.

"Marília, você acha que, assim como os artistas plásticos da terra, os escritores também são influenciados pela força vital da natureza que nos cerca?". Ela foi logo se abrindo naquele seu sorriso tão peculiar e generoso, para depois, ao longo da resposta, mostrar-se cuiabaníssima, apesar de ter nascido (quase como eu, que sou de Niterói), no Rio de Janeiro.

Após isso, em 2014, outro episódio nos aproximou muito. Na minha pesquisa infindável para publicar poetas, sem nunca repeti-los, aqui neste site, telefonei pra ela solicitando que me enviasse poemas de seu pai, Gervásio Leite, que também foi da Academia. E assim o fiz, o que gerou uma gratidão eterna da amiga querida. "Só mesmo você para publicar um poema do meu pai!", disse-me.

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Nas redes sociais, vários registros de Marília, entre eles, este reproduido do facebook

Nos quatro anos seguintes, passada essa experiência, continuei a encontrar-me com ela esporadicamente. Em 2018, porém, nos aproximamos muito. Marília, que já havia ingressado na Academia Matogrossense de Letras, me recebeu em sua casa, no pacato bairro cuiabano Coophema, para onde fui com Eduardo Mahon, com a específica finalidade de conversar sobre minha ascensão à imortalidade (você se lembra, Mahon?). E deu tudo certo. 

Devidamente assentado na Academia, passei a conviver sistematicamente com ela. Nos falávamos ou trocávamos mensagens pelo menos uma vez por semana, mesmo que fosse apenas pra jogar conversa fora.

Outra coincidência que me liga muito com ela vem do fato de o seu aniversário ser no mesmo dia da minha esposa ausente, Fátima, o três de setembro. Imagino que  as duas  estejam nos céus, trocando ideias e olhando por nós que cá estamos.

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Em junho passado Marília me ligou. Estava articulando a distribuição de cestas básicas para artistas que, devido a pandemia, estavam em situação dificultosa. A interessante proposta dela era que, além dos gêneros alimentícios, inseríssemos nas cestas livros de autores mato-grossenses. Participei com gosto dessa empreitada com ela, e com a Justina Fiori, relacionando artistas e doando meus livros. Deu tudo certo...

Quer dizer, deu tudo certo em termos. Ela passou aqui em casa, de uber, entreguei-lhe meus livros que municiariam as cestas básicas. Marília não desceu do carro, mas conversamos durante uns poucos minutos. Foi a última vez que estive com ela neste plano terrestre. Novamente e como sempre trocamos sonhos e sorrisos...  

marilia

"mb", poema visual de Caio Ribeiro

 


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2 Comentrio(s).
obrigado, pra marília tem que ser do fundo do coração
enviada por: lorenzo    Data: 07/07/2020 18:06:25
Bela e merecida homenagem!
enviada por: MMSantiago-Almeida    Data: 05/07/2020 09:09:06

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