PROSA

Cérebros



diva miolo

Divanize Carbonieri é doutora em letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia "Entraves" (Carlini & Caniato, 2017), "Grande depósito de bugigangas" (Carlini & Caniato, 2018), "A ossatura do rinoceronte" (Patuá, 2020), e "Furagem" (Carlini & Caniato, 2020), além da coletânea de contos "Passagem estreita" (Carlini & Caniato, 2019), da qual, foi reproduzido este conto publicado no tyrannus

Lembro que eu tinha dois cérebros. Ou talvez fossem duas consciências. Uma era mais próxima, mais voltada para as coisas do cotidiano. Não devia ser diferente daquela que se manifesta na maioria das pessoas, que têm a ilusão de estar no controle da própria vida. A diferença é que eu não alimentava mais essa fantasia. Sabia bem que estava à mercê de outras forças. Esse conhecimento talvez se devesse justamente à existência do meu segundo cérebro. Ele não era tão fácil de acessar como o primeiro, pois pairava acima do que eu percebia de imediato. Porém, ele é que PERCEBIA o que de fato havia. Meu segundo cérebro estava ciente de tudo o que existia, além, é claro, do que se passava no meu primeiro cérebro, e procurava a todo instante me dar lições. Eram lições dolorosas de se aprender, como foi, por exemplo, a daquele dia, uma manhã comum em que eu precisava levar a féria da empresa para depositar. Fazia isso pelo menos três vezes por semana. Descia do ônibus na rua em que todos os bancos se enfileiravam uns depois dos outros e ia entrando de agência em agência. Meu chefe, que era o meu tio, separava as quantias que deveriam ser deixadas em cada uma, junto com as folhas de cheque e as contas a ser pagas. Eu só tinha mesmo o trabalho de ficar nas filas e entregar tudo ao caixa da vez. A cidade ainda era pequena, e as filas não eram gigantescas como depois se tornaram. Apesar de portar somas consideráveis de dinheiro, nunca me preocupei em ser assaltada, o que de fato jamais fui. Pelo menos não por pessoas. Agora por pensamentos ou impressões que advinham do meu segundo cérebro, isso com certeza. Nesse dia específico, acordei achando meus braços muito feios. Foi até difícil escolher a camiseta para vestir. Tinha que ser uma que escondesse a maior parte, mas naquele calor de dezembro? Experimentei umas três, sempre me martirizando pela feiura dos meus braços. Até que não pude mais retardar minha saída. A tia veio me dizer que o tio estava furioso no escritório. Pus a blusa que deixava menos à mostra e desci as escadas correndo até acessar o depósito por uma porta lateral no andar de baixo. Era preciso atravessar todo o depósito até chegar à plataforma de madeira que era o escritório do tio. A escadinha de tábuas fazia um tremendo barulho e tudo meio que balançava com meus passos apressados. Peguei os envelopes de dinheiro deixados pelo tio na escrivaninha e saí correndo, antes que ele tivesse tempo de virar sua cadeira giratória e descarregar a bronca que já estava se formando em sua garganta. O tio não era mau, eu é que era preguiçosa mesmo. Mas em minha defesa também digo que não tinha outros defeitos mais graves. Em anos fazendo esse serviço de office girl, nunca subtraí uns trocados, dos quais ele certamente não daria falta, já que ignorava os extratos. Nem passava pela cabeça do tio desconfiar de mim. Entrei no ônibus, pronta para realizar minha atividade da maneira mais rápida possível. Passando o dinheiro ao cobrador, percebi que seus braços eram excessivamente manchados, repletos de bolinhas brancas que contrastavam com um fundo cor de rosa vivo, parecendo uma posta de salmão depois de cozida. Não sei por que o braço de uma pessoa fica daquele jeito, se é um traço congênito ou uma condição passageira, mas me pareceu asqueroso de olhar. De tocar eu também jamais teria coragem. Para recolher meu troco, tentando evitar que ele percebesse meu desconforto, deixei a mão direita em concha e ele simplesmente depositou ali as moedas, sem que houvesse nenhum intercâmbio entre nossas peles. Mas não parou por aí. Na rua dos bancos, vi um passante com uma extensa queimadura no antebraço direito. O ferimento, já cicatrizado, tinha deixado uma espécie de camada extra na pele, semelhante à casca de uma árvore. Era escura e cheia de veios, alguns bem protuberantes. Nos cantos a pele parecia ter sido repuxada, talvez numa tentativa de ajuste com o restante de tecido saudável. Sem querer, imaginei como seria tocar naquilo, a sensação áspera nos dedos, e fui percorrida por um intenso calafrio que agitou meus dois ombros sucessivamente. Olhei dos lados, embaraçada. Ninguém reparava em mim. Com alívio, prossegui. Na primeira agência, dei um dos envelopes para a caixa. Mal sabia ainda que estava diante da terceira visão com o tema do dia. Foi justamente ao observá-la manuseando o conteúdo do pacote que pude perceber. O seu antebraço esquerdo tinha uma grossa cicatriz horizontal, entrecruzada por pontos brancos, lembrando uma costura mal feita. O trabalho do cirurgião tinha sido de péssima qualidade. As linhas perpendiculares ali apresentavam uma coloração quase fosforescente, bastante diferente da tonalidade da tez. Impressionavam também pelo volume e altura a que chegavam, tornando-se um alto-relevo que qualquer pessoa privada da visão poderia facilmente perceber com o toque. O membro ainda tinha ficado menor do que seu par direito, como se ela o tivesse operado na infância, e ele não tivesse acompanhado o desenvolvimento do outro. Imaginei o impacto com o objeto ou superfície que deve ter esmigalhado seu osso. Ao calcular a dor, estremeci ligeiramente e franzi o nariz. Ela não percebeu, já que estava concentrada em seu trabalho. Por ultrapassar a textura e chegar à desproporção, dos três exemplos que me foram apresentados, esse parecia o mais terrível. Nesse ponto, perdi a paciência. Já tinha me conscientizado do que estava ocorrendo. Eram arranjos da minha outra consciência. Tudo bem, meu segundo cérebro, pensei, dirigindo-me mentalmente a ele. Eu já sei que algumas pessoas têm doenças, queimaduras e até deformações de nascimento ou causadas por acidentes. E eu não tenho nada disso e deveria ser grata. Mas não adianta. Não sou. Você não vai conseguir me convencer. Porque, se existem pessoas com braços defeituosos, mesmo que não sejam os meus, já é motivo suficiente para sentir desgosto. Para ficar com raiva da vida. O que você quer é que me alegre por ter mais sorte que os outros, e isso eu não sei fazer. Um braço feio faz com que todos os outros fiquem imediatamente e para sempre estragados. É como a contaminação de uma doença crônica e incurável. Então, não teve jeito, essa lição eu não aprendi. 




Voltar  

Confira também nesta seção:
01.12.20 19h00 » Urubus*
01.12.20 19h00 » O corpo de Luzia e o corpo do texto*
27.11.20 19h00 » O voto e o veto
24.11.20 19h00 » Conversação e peixada*
24.11.20 19h00 » Sombra*
17.11.20 17h21 » Seleção de frases*
17.11.20 17h21 » O Primo Basílio (trecho)
10.11.20 20h00 » Do ensino*
10.11.20 20h00 » Os Demônios (trechos)*
10.11.20 19h50 » Ocaso e o caso
03.11.20 16h30 » Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon
03.11.20 16h30 » “No fundo os olhos nem doem”
27.10.20 19h00 » Eu não sou louco, talkei?*
27.10.20 19h00 » Frases famosas*
20.10.20 19h00 » Rastreio de contato
20.10.20 19h00 » As vinhas da ira (romance-trechos)*
20.10.20 19h00 » A partida*
13.10.20 19h00 » Aforismos*
13.10.20 19h00 » À Deriva*
06.10.20 22h12 » Febre*

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet