PROSA

Papel de parede*



Os panos de cama úmidos ainda rescendiam ao cheiro forte do nosso último encontro, empapados dos suores e gozos intermináveis, quando eu me deitei, já fresca do banho, e me pus a te escrever, amor. Da cabeceira da cama até a metade do teto acima de nós, como uma folha de papel dobrada em L sobre as nossas cabeças molhadas, estendia-se a ramagem de muitos tons de verde, desenhada num padrão gracioso de galhos e folhas muito próximas umas das outras, mas que só se tocavam pelas mãos desta minha imaginação delirante, num balanço que existia apenas à força do movimento cadente dos nossos quadris. E foi perdida nos teus olhos, mas também encontrada neles, que eu vi o teu rosto se iluminar de uma luz que escapou às cortinas por causa do vento, tua respiração entranhada na minha e, mesmo tomada dos amores imensos que me ardiam, eu insistia na impossível tarefa de perseguir os caminhos das tuas pupilas inquietas, olhando-me muito e de combinar posições infinitas de afetuosa observação. Assim são teus olhos, amor, guardados à sombra das tuas sobrancelhas cheias que terminam nuns pelinhos já quase nas maçãs, feito um portal à volta do teu nariz fino e rosado, vizinho da tua boca de lábios pequenos como os meus, de modo que já era sabido o acerto dos beijos. Muito mais eu poderia dizer, se esquecidos os intervalos em que eu mirava a folhagem, sobre o que eu via enquanto tu me examinavas, teus cabelos grudados à testa, tua voz chamando meu bem e amor, teu desejo inchando dentro de mim, mesmo doendo a carne, viva de tantos amores que fizemos desde a minha chegada clandestina por corredores pandêmicos, mas eu escolho não o fazer, de ciúme das palavras e do segredo imenso que elas outra vez denunciariam. Pois quanto tempo mais de separação eu poderia suportar? Hoje já é quinta-feira, amor, eu sei pelo acidente deste texto datado, e a semana se adianta neste abril de medos e incertezas, mas eu não quero, não posso, não me deixe pensar nessas coisas. Fecho os olhos para tornar a esquecer como se contam os segundos. Em breve, eu falei ao teu ouvido, saberei do teu corpo melhor do que tu mesmo, sussurrei, e te chegou bonito esse dizer que me saía sincero desde os pulmões de mulher apaixonada e cujos olhos não se cansavam de olhar, esquadrinhar e amar, nesse reconhecimento epidérmico que já nasceu arriscado e em estado de emergência. E de dois modos eu terminaria esta carta, para falar do começo deste nosso isolado amor: com a visão das folhas orvalhadas sobre nós, depois que fizemos chover neste quarto à luz amarela do abajur; e com a imagem do assombroso encanto que me causa o teu sorriso maior, amor-diastema, fazendo estreitarem teus olhos e revelando os dentes, que eu amei antes de tudo, separados uns dos outros por esses espaços vazios que eu atravessaria dançando, se pudesse, para festejar o teu corpo todo, da entrada da tua boca rósea até o momento de ser mastigada e engolida por ti. E sabendo serem estas linhas apenas um começo, aqui eu interrompo minha escrita, amor, olhando e ouvindo o mar, enquanto te espero voltar de correr sob as últimas luzes do sol e vejo a praia escurecer sobre mim e sobre o fantasma de uma criança que ri ao longe, acompanhada de sua família.

 

*Reproduzido da revista Cândido, publicação da Biblioteca Pública do Paraná - http://www.bpp.pr.gov.br/Candido 

kah

Kah Dantas é cearense, professora de Inglês, mestre em Literatura e autora de "Boca de Cachorro Louco" (2016) e "Orgasmo Santo" (2020). "Papel de parede" faz parte do projeto de cartas intitulado "Amor-Diastema", ainda inédito e em execução

 

 


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